Consigo sentir até hoje o aroma do café da manhã, servido em porcelana e talher de aço inox. Café com leite, pão fresco, manteiga e geleia. A omelete com ervilhas, presunto gordo e queijo, as frutas frescas, o iogurte. Tudo muito gostoso e com requinte de voo internacional, dentro de uma rota regional. Que saudades do Vickers Viscount V-827, o "Vaicão". Foi o primeiro avião quadrimotor turbo-hélice da aviação comercial mundial, orgulho da indústria inglesa, serviu à realeza. Janelas gigantes, comissários sempre educados e bem-vestidos, e mulheres com chapelão, marca da alta sociedade da época.

Hoje, os tempos mudaram. A modernidade trouxe comodidades. Conexão via internet, celulares que mais parecem computadores de bolso, check-ins on-line, transporte regional rápido e barato. Mas o conforto dos aviões não é mais o mesmo. Janelas pequenas, cadeiras apertadas, espaço reduzido para as pernas. Dia desses, o passageiro da frente quase coçou a minha testa e o do lado estava praticamente apaixonado por mim no final da viagem.

Os problemas começam com o cinto de segurança, irritantemente curto, "Deus me livre", o maior constrangimento que um "gordo" pode ter. E na hora de afivelar o troço? Uma tragicomédia! Suador, falta de ar, pânico e gargalhada. Você chama a comissária, tenta falar baixo, mas ela, uma mulher com fragilidade quase angelical, aumenta o som da sua minguada voz ao máximo e, antes mesmo de ouvir sua pergunta sussurrada, alardeia: "Você tem uma extensão?". Pronto, todos os passageiros já sabem que há um "gordo" a bordo.

Mais legal ainda é passar pelo corredor. O incrédulo passageiro do assento 24E, já "sentadito", fulmina-lhe de longe, temendo ser o azarado do dia. Sua frio, olha para o lado e finge que não lhe vê. Quando você passa, sente a baforada. Alívio para ele, terror para o próximo! E a mesinha? Nunca abre, para entre o "pãncipes" e o peito, bem na boca do estômago. Ai, que saudade dos Viscount.

Decolagem perfeita, voo nivelado, 55 passageiros a bordo e a chefe de cabine, uma morena simpática, anuncia com sua voz aveludada que o menu será distribuído, e que os comes serão cobrados - ótima novidade, afinal pagamos mais barato pela passagem. Com meu cartão de crédito Platinum à mão, aguardo ansioso para acumular milhagens.

Escolhemos com calma, famintos. As fotos do folder são atraentes e fazem salivar. Muito recheio, pão fresquinho, croissant, preferência do "Chef", combo 1, 2, 3 e sei lá mais o que. Cada um deles com direito a bebidas frias ou quentes, e batatinhas chips. Tudo por "vintão", uma pechincha, pelo menos até a chegada da comissária (com sua cara de "xiiii"):

- Boa tarde, os senhores têm trocado?
- Não, só cinquenta.
- Estamos sem troco. (outra vez a cara de "xiiii".)
- Tenho cartão!
- Não aceitamos.
- Você não pegou outros pedidos na frente?
- Ninguém tem troco.
- E cheque? É especial.
- Não, desculpe, os senhores terão de ficar sem comer

(balde de água siberiana, pânico).

- Mas não se preocupe, serviremos amendoim e água!
- Como assim? Espere um pouco? Vamos refazer o pedido.

Carteiras reviradas, pedido reformulado, dinheiro contado, 52 reais na mão da comissária. Chega a hora de receber os sanduíches.

- Esse que o senhor pediu não tem.
- E o outro, igual ao do meu amigo?
- Só tem um, e ele já está comendo.
- O que tem?
- Esse aqui.
- Ok. Vai esse mesmo!

Uma fatia de peito de peru, uma de queijo prato e uma rodela de tomate em um pão saborosamente murcho. "Estão de brincadeira", penso. Virou gozação! Comi assim mesmo, empurrei com refrigerante. Mas o pior estava por vir, quando o passageiro da primeira fila aparece com dinheiro contado pedindo exatamente o sanduíche que mastigava. Era para a filha dele, de uns 6 anos.

- Sinto muito, este senhor já está comendo

A menininha me fuzila, havia apenas quatro sanduíches no carrinho. Fez me sentir como um ladrão de doces. Se tivesse um jeito de pular, acho que pulava. Na volta o filme se repete. Ai, que saudades do "Vaicão".


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