Viajar de avião está cada vez mais fácil. O acesso rápido via internet para o sistema de reservas das companhias aéreas ou das agências virtuais de viagem poupam o tempo dos usuários e facilitam a compra das passagens. Com o número do e-ticket (bilhete eletrônico), o passageiro segue para o aeroporto e, se não tiver bagagem para despachar, faz rapidamente o check-in em um quiosque de autoatendimento, ou mesmo via smartphone. Os bilhetes comprados on-line são ainda mais baratos e as promoções estão sempre à vista dos internautas. Com um ou dois cliques, o assento está reservado.

Tudo isso é muito bom, claro. Numa época não muito distante, porém, em que a compra da passagem aérea tinha de ser feita na loja do aeroporto ou numa agência, e o cliente saía com o bilhete em mãos, havia mais glamour. O impresso não chegava a ser um livreto, mas dava para ser folheado. Havia nele instruções de embarque, regulamentos e demais informações. Na “capinha”, reconhecia-se a identi - cação visual da companhia. E dentro, obtinham-se os detalhes dos trechos a serem percorridos, com números de voos e horários.

Quem não se lembra do termo “bilhetar”, utilizado pelos funcionários ao inserirem no computador a informação de que o bilhete já estava vendido. Quando se endossava um trecho para outra companhia aérea, e não se cobrava multa por isso, colava-se um papelzinho acima do informativo do voo anteriormente agendado. O interessante é que o agente da loja precisava o cializar o endosso e utilizava um carimbador enorme para isso. Para que a marca aparecesse na passagem, o operador batia-o com força, o que invariavelmente acabava assustando o cliente.

O embarque era um momento alegre, mágico, especialmente para aqueles que viajavam a turismo e haviam planejado sua partida durante meses ou anos – sim, as passagens aéreas nem sempre foram tão baratas. Chegar ao balcão de check-in, ingressar na área de embarque e caminhar pelo nger era uma atração à parte na viagem. Hoje em dia, ao contrário, embarcar deixou de ser um ato de prazer para se tornar uma tarefa quase mecânica, por vezes, martirizante.

Foi-se a época em que os funcionários das companhias aéreas tinham “querosene nas veias”, modo gurado para descrever um autêntico entusiasta de aviação. Ainda que o salário não fosse dos mais compensadores, o pessoal de terra realizava suas atividades com mais cumplicidade, pelo menos a maioria. Todos se conheciam e um ajudava o outro, mesmo que fossem de empresas congêneres. Quando sobrava um passageiro no chão por causa de um overbooking, o supervisor dava um pulo na companhia ao lado e pedia um assento no próximo voo. Como o endosso era permitido, o estresse era bem menor.

Algumas décadas atrás, os passageiros não precisavam se amontoar em salas de embarque. Hoje, a confusão é grande e os agentes dos aeroportos precisam estar bem atentos para que um passageiro com destino a Ribeirão Preto não vá parar em Porto Seguro. Mas, talvez, o maior teste de paciência seja o momento de passar pelos raios X e o pórtico com detector de metais.

Até o início da década de 1990, eram poucos os aeroportos que mantinham os equipamentos para revista dos passageiros. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, tudo mudou. Nos Estados Unidos e na Europa, a revista é ainda mais rigorosa, o que requer paciência redobrada. Computadores pessoais têm de estar do lado de fora da bagagem de mão, os sapatos também passam pelo escrutínio da máquina, e qualquer tipo de creme ou líquido deve ser submetido à análise dos agentes de segurança do aeroporto, que nem sempre se mostram simpáticos aos visitantes, como provou recentemente o funcionário de um aeroporto norte-americano. Ele con scou o pote de um passageiro e, para a surpresa dos que estavam na la, despejou o conteúdo do pequeno recipiente no chão, sem qualquer explicação. O que o agente não se deu conta é que o material em questão eram as cinzas do avô do passageiro, cremado no exterior.


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