O último voo

A bordo de um Lockheed PV-2 Harpoon, ex-comandante da segunda guerra mundial revive seus dias de glória durante um show aéreo

Da redação em 23 de Janeiro de 2012 às 08:08

É ele, o meu avião!". Os filhos, que tantas vezes o tinham visto em fotos, reconhecem o bombardeiro Lockheed PV-2 Harpoon. O pai, de uns 70 anos, paralisado, parece não acreditar. Não via um desse desde a Segunda Guerra. Com dificuldade, aproxima-se, põe a mão sobre a fuselagem e circunda a raridade, indiferente aos olhares curiosos da equipe que a prepava para o show aéreo. Os filhos, encabulados, contam a história do ex-comandante. E revelam que o homem tem um câncer terminal, nos ossos. O veteranto pergunta se pode entrar. Os expositores logo improvisam uma escada com caixas de munição e o ajudam a subir. Os integrantes da equipe não cabem em si. Estão diante da história viva daquele raro avião. E decidem fazer uma surpresa àquele homem, que cativa a tripulação com sugestões de mudanças no interior, principalmente as "feitas em campo" e promete voltar no dia seguinte.

Às oito em ponto, chega o ex-piloto da Marinha dos Estados Unidos acompanhado dos filhos, cada um deles carregando um pacote. Eram fotos inéditas, em preto e branco, de todas as partes da aeronave, e desenhos de detalhes internos e externos, além de um manual original. "Inacreditável!". Na hora da preparação para o voo, o comandante, com entonação solene, convida o combatente aposentado para ser seu copiloto. "Você está falando sério?", pergunta o homem, cuja expressão de alegria tranforma o convite em um momento inesquecível para todos que ali estão. Os filhos perdem a voz. É o axioma da fraternidade entre aviadores.

O comandante pede ao veterano um briefing e o convida a fazer a checagem pré-voo. Parado, como se estivesse sentindo a presença dos fantasmas dos seus ex-companheiros, o sobrevivente de incontáveis ataques dos Zero (caça japonês Mitsubishi A6M Tipo 0) sobre o Pacífico sabia que seria seu último voo. Os anos e a dor desaparecem e o aeronauta inicia uma minuciosa checagem, como se nunca tivesse deixado de fazê-la. A tripulação sobe a bordo e, em instantes, ouve-se o rugido dos 2.000 HP de cada um dos dois motores Pratt & Whitney do Harpoon. Mais alguns minutos e o avião inicia a corrida. A grande cauda deixa o solo e o bombardeiro parece se equilibrar sobre o trem principal. Logo, está no ar.

Ele sobe circulando o aeroporto, depois desce e, com os flapes e o trem de pouso abaixados, faz um suave toque na pista, rola vários metros sobre o trem principal e, quando parece que irá abaixar a cauda para terminar o voo, acelera mais uma vez. A aeronave sobe rapidamente fazendo uma apertada curva à esquerda antes de nivelar.

"Acho que seu pai está se divertindo", diz um dos membros da equipe aos filhos do ilustre tripulante. O Harpoon aumenta sua velocidade. De repente, inclina-se quase a 90º, faz uma curva fechada e mergulha como um falcão, em direção ao solo. É possível ouvir o bramido dos motores a quilômetros. "O que é que ele está fazendo?", uns perguntam enquanto outros largam cachorros-quentes e refrigerantes com o intuito de pegar câmeras e captar o que está por acontecer. O avião ruge sobre a linha de voo. O bólido azul passa em um piscar de olhos sobre Mustangs e Flying Fortress. Bebês choram, mulheres cobrem os ouvidos e crianças gritam eufóricas. A turbulência faz bonés, programas e copos voarem em todas as direções. O avião balança as asas e sobe em direção ao céu. Desaparece.

Alguns instantes de expectativa e alguém grita: "Olhem, lá está ele, na direção do Sol!". Com o Sol nas costas, o bombardeiro começa um novo mergulho, mas, desta vez, o faz de forma peculiar. "Há algum problema?", pergunta um adolescente ao pai, vendo o Harpoon mudar de direção rapidamente, para a direita e para a esquerda, como se estivesse sem controle. Na plateia, porém, experientes pilotos de combate sabem o que está acontecendo: o avião cumpre uma manobra chamada "jinking", para evitar o fogo inimigo vindo do solo. Em ação evasiva, o Harpoon ganha velocidade a um ritmo alarmante, 260 nós, 270, 290! A aeronave, então, assume voo em linha reta e continua a mergulhar em direção ao público. As portas do porão de bombas se abrem e meia dúzia de objetos quase esféricos são lançados. Os espectadores acompanham os projéteis que caem assobiando, até atingirem o solo numa espetacular explosão vermelha e verde. É um borbardeio com melancias!

O tenente-comandante Francis (Frank) Petterson faleceu em 20 de janeiro de 1993. Até hoje, seu nome está escrito sob a janela esquerda do cockpit do PV-2 Harpoon.


Crônica

Artigo publicado nesta revista

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