Despacho uma mala grande, com oito quilos a mais do que o permitido, junto com outra pequena. São US$ 150 por excesso de bagagem. Viagem longa. Orlando, escala no Rio, novo despacho no check-in express e, enfim, São Paulo. "Tomar um banho e deitar na minha cama", é só no que penso. Pelo menos até chegar à esteira de bagagem. Em minutos, a multidão que se acotovelava desaparece. Sobram apenas três malas sem dono, e eu ali plantada, sozinha, desesperada: "Cadê minha mala?".

Dirijo-me aflita ao balcão de atendimento da companhia aérea. Na fila reconheço minha angústia nos demais passageiros, enquanto quase furo o chão de tanto pisar. A moça da frente queria saber do seu berimbau. A atendente fala com a "carga" para verificar se a peça não está na aeronave. Tenta outro departamento e nada. Eis que, com olhar de detetive, pergunta à cliente se o artefato não teria caído entre as esteiras. "Você realmente acha que ninguém teria visto um berimbau caído no chão?". Sem se alterar, a balconista pergunta se a passageira tem a nota fiscal do instrumento para ter o valor ressarcido. "Hã, você já está considerando que não vão achar meu berimbau?".

Nisso chega um funcionário da companhia aérea com crachá. Sua mala parece ter voltado da guerra, toda amarrada com fita adesiva para não desmilinguir. Um segundo atendente diz que resolveria depois aquele "assunto interno". "Não senhor, quero fazer uma reclamação formal, como passageiro. Minha mala está se desfazendo".

Escuto uma a uma todas as reclamações, até chegar minha vez. Pedem-me o cupom com os comprovantes das malas e o ticket de embarque. "Senhora, há apenas um volume cadastrado em seu nome". A atendente se referia à mala pequena. "Como assim?", pergunto engasgada, antes de entrar em estado de histeria aguda.

Pelo comprovante, o código da mala grande estava registrado no nome de um passageiro "homem" (um nome cheio de consoantes!), que teria feito a conexão do Rio para Porto Alegre. Pois é, meu ticket não comprovava que minha mala era realmente minha. E se tivesse sido parada na alfândega do Rio, poderia ter sido acusada de roubo.

É difícil descrever o descontrole de uma mulher cansada de uma viagem de trabalho em uma situação como essa... Os atendentes escutam meus brados com olhos arregalados. "Como é que erram na hora de etiquetar minha mala se até excesso de peso eu paguei?", pergunto, quase urrando, no começo de duas horas longas de discussão. Acabo "salva" pelo comprovante de excesso de bagagem, e só preciso, agora, esperar que a mala chegue ao outro destino, onde a companhia aérea poderá se certificar de que o erro foi realmente de cadastro. Deixo o balcão com um papel, é o meu registro de reclamação, com um número de processo e dois números de telefone.

Em casa, já de banho tomado, esperar é o que me resta, além de ligar:

11h10: "Senhora, precisamos aguardar o descarregamento das bagagens para identificarmos se sua mala está lá. Por favor, ligue por volta do meio-dia!".

12h00:"Senhora, sem confirmação. Ligue daqui a 30 minutos, que 'vou estar verificando' (eu mereço!)"

12h30: "Senhora, identificamos sua mala (ufa, finalmente!), ela está a caminho no voo das 14h35. Assim que chegar, faremos a entrega em sua residência".

17h20:"Senhora, sua bagagem chegou, mas precisa ser identificada, registrada e liberada para a transportadora. Entregaremos até as 8 da noite".

20h37:"Senhora, meu colega não poderia precisar o horário da entrega. Por favor, aguarde, creio que em 1 hora ela estará aí".

22h00:"Senhora, nossa transportadora tem até as 11 da noite para fazer as entregas. A senhora tem que esperar".

23h00:"Senhora, meu colega teria que ter ligado para a transportadora para saber com exatidão o que está acontecendo, como acabo de fazer. Nós não temos limite de horário para entregar as bagagens, só termina quando acaba. Ah, a transportadora acaba de me avisar. Eles estão nas redondezas, só faltam mais três malas antes da sua (quantas malas foram extraviadas ontem?), mais 30 minutos no máximo".

00h00: "Tuuuu, tuuuuuuuu, tuuuu..."

7h00:"Sim, senhora, deixaram uma mala aqui na portaria de madrugada. Sim, em seu nome. Não, não perguntaram nada, só deixaram a mala. Ok, um bom dia e uma excelente semana para a senhora!".


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