Sem água em Caracas

Pouco mais de um mês na capital venezuelana com muita sede e problemas de sobra. Para segurar os aviões no furacão, sacos de areia e barris cheios de concreto em cada perna do trem

Marcos Liotta em 14 de Junho de 2012 às 12:49

Fila bem-organizada no check-in da Varig em Cumbica. Embarque rápido. Avião lotado, classe econômica. Os comissários abatidos lamentam a condição da companhia. Um Boeing 767 com peças da poltrona soltas e cinzeiros cheios de lixo. Cruzamos o Equador. Não dói muito. Aproximação direta, um pistão que não tem tamanho. Alfândega do Simon Bolívar rápida, cobram US$ 2 para usar o carrinho de bagagem. O motorista me recepciona num idioma parecido com espanhol, o caraqueño. Os bebedouros não funcionam no aeroporto, só refrigerante de latinha ou água mineral. Água potável é luxo.

Minha missão? Ministrar um curso de instrução numa companhia aérea. Nove horas, e minha primeira apresentação não tem apresentador. O laptop e o projetor ficam no almoxarifado. Preciso "caçar" algum inspetor para assinar a retirada e a entrega. E, claro, montar e desmontar os aparelhos. Tudo isso sem água. Oito horas por dia bebendo apenas um copo americano de água a cada quatro horas. Não há água em Caracas. Calor causticante, ar condicionado no mínimo para economizar. A companhia tem DC-10, B-727, ATR, Caravan, faz voo internacional para Miami e Europa - mas não tem bebedouro na sala de aula. O cenário é assim. O DC-10 trocando a porta original por blindada, o B-727 ao relento esperando peças e o hangar a 200 metros do mar.

O nascer do sol, a brisa do marzão azul a perder de vista e eu a caminho da sala de aula. Hora do almoço serve para fazer compras em Catia La Mar. Os preços dos importados quase iguais aos dos camelôs nacionais. Alimento e bebida não recebem grande atenção, pouca noção de higiene. Acho que já vi isso. Os carrões lembram os Estados Unidos nos anos 70, sem catalisador. A fumaça do escapamento arde nos olhos, mas a gasolina é mais barata que água. Estava em aula quando passa o rabo de um furacão. Amarram com pesos aviões tipo Baron e Caravan, para não voarem. Aproam as aeronaves grandes para o mar e fecham algumas janelas com chapa. Quando sabem que o furacão vai desviar para a terra, tapam as janelas, amarram sacos de areia e barris cheios de concreto em cada perna do trem.

Já correram 35 dias com água regulada. Hora de voltar. Não há vaga no avião. Lotado. Dois dias na lista de espera. Chegada ao aeroporto às 5 horas para conseguir viajar às 11h30. Se tiver lugar é sorte. Passageiros revistados manualmente, por detector e raios x. O MD-11 da Varig está cheio e supergelado. Jantar às 3 da manhã em meio a roncos, tosses e espirros. Só peço água, muita água. Na minha navegação faltam 3h45 para chegar, mas outros voos também vão pousar. Vai dar atraso ou 360º em cima de algum lugar. Felizmente, sem atraso, mas a alfândega segura tudo por causa do formulário. De volta para a casa. Mais um copo d'água, por favor.


Crônica

Artigo publicado nesta revista

AERO Magazine 217 · Junho/2012 · Titulo

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