Arvoredo na proa

Pista curta, temperatura alta e avião pesado. O piloto empurra o manete, tentando tirar qualquer rotação extra do motor, com as copas das árvores quase no para-brisa

Rodrigo Cozzato em 25 de Abril de 2012 às 09:14

Um dia típico do tórrido verão do interior paulista. Lá "praquelas bandas" o garoto acumula preciosas horas de voo para conseguir suas carteiras de piloto comercial. Planeja meticulosamente, no briefing, a navegação de três pernas: Itápolis, Ribeirão Preto, São Carlos e Itápolis. Abastecimento full tanque, walkaround, mapas e fones à mão, decolagem tranquila a bordo do Aero Boero AB-115 de matrícula PP-GAS. Em Ribeirão, dois touch and go e nova subida, agora rumo a São Carlos. Não ao aeroporto de São Carlos, muito distante da cidade, mas à minúscula pista de terra do aeroclube, encravada entre o cemitério municipal e a UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Depois do pouso, o convite de um instrutor local para almoçar. Entre uma garfada e outra, discussões sobre motores, asas e flaps. O aviador recomenda cautela na decolagem ao garoto, por conta do reduzido comprimento da pista. Com apenas 800 metros de terra e com o grande arvoredo da UFSCar na proa de decolagem, não haveria margem para erros. As palavras do instrutor são claras: "Se sentir que não vai passar [o arvoredo], dá um 'pedalzinho' pra direita e coloca o avião no eixo da [rodovia] Washington Luís".

O piloto está preocupado com a temperatura, em torno dos 30 graus, e com o peso do avião, que ainda tem cerca de meio tanque de combustível, além do carona. Mas confia que os 115 HP do valente Boero os tirariam dali. Ele leva o pequeno avião até o limite do aeroclube, quase no muro do cemitério, para aproveitar cada metro possível de pista. Segura firme nos freios e acelera ao máximo para uma decolagem de "alta performance".

Ao levantar a cauda, ainda no meio da pista, as árvores começam a ficar cada vez mais altas, pois há um declive razoável em direção a elas. O Boero roda precisamente com 65 milhas por hora. Instintivamente, o piloto empurra o manete, tentando tirar quaisquer 10 ou 20 RPM extras do motor. O avião cruza a vertical da rodovia já com as copas das árvores quase no para-brisa. O silêncio impera no intercomunicador.

"Vai, sobe, sobe", pensam os dois, enquanto cerram os olhos, rangem os dentes e empurram o manete com o pensamento. "Vai bater, vai bater. Uhhh". O avião passa a não mais do que dois metros do topo do arvoredo. O piloto, imediatamente, afunda o nariz do Boero sobre o campus da UFSCar para ganhar fôlego, e velocidade, e recolher os flaps. O avião passou tão perto, mas tão perto dos galhos mais altos, que a primeira frase depois do quase acidente não poderia ser outra: "Dá uma olhada aí no trem de pouso pra ver se não tem umas folhas enroscadas!".

Na volta, ambos mudos, ainda com a imagem do arvoredo fresca na memória. Passados alguns anos do ocorrido, o hoje experiente comandante de jatos e helicópteros executivos admite que aprendeu a lição e jamais decolou sob condições tão mínimas de performance. Sem deixar de mencionar um velho ditado, comum entre aviadores: "Deus protege os bêbados. e os manicacas".


Crônica

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A volta dos Bimotores

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