Tom Jobim (1927-1994), que adorava pássaros, tem um disco orquestral belíssimo chamado "Urubu" (1976), em referência ao jereba, ou urubu-de-cabeçavermelha, exímio voador. "A prioridade do jereba é o risco. O que ele não toca é intocável. Corcovado de duas corcovas, solenes ombros altos de tanta asa sobrante, as mãos cruzadas às costas, narinas conspícuas vazadas; grave, ministro de assuntos impossíveis; só tu sentas à mesa com o Rei", Tom escreveu na capa do LP.

O maestro não era supersticioso em relação aos membros da família Cathartidae, que, além do jereba, engloba o urubu-preto, aquele que vemos em áreas urbanas degradadas. Todos têm função ecológica: livrar a natureza de animais em putrefação. Gregário, o urubu-preto pode voar 100 quilômetros atrás de alimento e, de uma altura de 3.000 metros, localiza no chão um pequeno objeto de desejo; tem 143 centímetros de envergadura e pesa em média 2 quilos.

Urubus são craques em descobrir as correntes térmicas quentes, que se elevam do solo ao céu. Planando de térmica em térmica, em círculos, passam até seis horas sem bater as asas, chegando a 6 mil metros de altura. O fato de às vezes voarem baixo sobre uma área específica não necessariamente quer dizer que há carniça por perto. Interessante: urubus-pretos nunca atacam seres vivos nem são intolerantes com os pássaros feitos de aço.

AVES E AVIÕES NÃO PODEM BICAR-SE, E A MANEIRA CORRETA DE EVITAR ISSO É DESTINANDO OS DETRITOS PARA ATERROS SANITÁRIOS ADEQUADOS

Voando sempre com seus TCAS desligados, aos urubus só interessam podres pratos feitos. Restos de alimentos e animais mortos jogados em lugares impróprios e carcaças descartadas sem cuidado por abatedouros clandestinos são as principais causas da proliferação desse bicho tão ecologicamente necessário quanto folcloricamente agourento. Uma economia em expansão, por sua vez, agita o tráfego de aviões e helicópteros.

Mas o crescimento da população de urubus e o congestionamento de aeronaves nos céus geram conflitos evidentes. Os incidentes mais reportados são colisões com o bico ou com a cabine e ingestão por turbina (carne moída causa indigestão aos aviões, podendo fazer com que percam trajetória e se descontrolem).

Vários acidentes foram reportados recentemente nos aeroportos de Manaus, Confins, Pampulha, Ribeirão Preto, Guarulhos, Galeão e São Luís, entre outros. O Galeão, por exemplo, fica a quatro quilômetros de um aterro sanitário com montanhas de detritos, problema agravado pelos manguezais e esgotos a céu aberto das favelas vizinhas. Em São Luís, a torre alerta os pilotos sobre "a alta incidência de pássaros" e usam-se fogos de artifício para espantá-los.

A colisão de aeronaves e pássaros em geral é preocupante no mundo inteiro. Um dos episódios mais assustadores foi aquele envolvendo o Airbus A320 da companhia US Airways em janeiro de 2009. As duas turbinas engoliram patos-canadenses (Branta canadensis), desgovernando a aeronave e obrigando o piloto a um pouso heroico no leito do Rio Hudson, em Nova York. Não houve vítimas, mas foi por um triz.

Se uma ave de 2 quilos em choque contra uma aeronave a 300 km/h gera um impacto de 7 toneladas, então o que pode acontecer se um jato comercial, que pode chegar a 1.000 km/h, chocar-se com um pelicano de 10 quilos? Nem pense. Mas o risco maior é a ingestão do urubu pela turbina durante a decolagem. As turbinas mais novas são testadas contra esse tipo de impacto, mas ainda está para nascer uma máquina totalmente invulnerável.

O fato é que, na terra como no céu, urubus e aviões não podem bicar-se, e a maneira correta de evitar isso é destinando os detritos para aterros sanitários adequados. Mas prefeituras ineptas continuam ignorando os lixões ilegais ao redor dos aeroportos. O problema é ambiental, portanto, e extrapola os necrófagos de plumagem escura. Até um bando de pardais pode causar danos irreparáveis (tudo depende da quantidade, da rota e do peso).

* Jornalista, escritor e professor universitário. Autor de Perfis, entre outros livros: www.sergiovilasboas.com.br


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