Criado em 1996 a partir do 737, o BBJ virou referência entre governos e grandes corporações e agora o BBJ Select promete encurtar prazos e reduzir custos com interiores modulares

O BBJ Select é a aposta da Boeing para simplificar a compra de um BBJ, com interior modular em modelo turnkey. A proposta oferece um catálogo fixo de 216 configurações pré-certificadas, permitindo personalização dentro de parâmetros definidos e reduzindo a complexidade do projeto.
Com isso, o programa promete encurtar em até 18 meses o ciclo tradicional de interiores VIP e gerar economia média de 20%, com entregas entre 12 e 18 meses após a célula. O Select mira governos, charter premium e clientes que priorizam previsibilidade, mas depende da certificação do 737 MAX 7.
Há quase três décadas, o Boeing Business Jet, conhecido apenas pela sigla BBJ, tornou-se referência entre os aviões corporativos. É um dos modelos de maior sucesso nas frotas oficiais de chefes de Estado e grandes corporações.
Originalmente lançado como uma versão VIP do 737-700, o BBJ evoluiu ao longo dos anos e hoje permite que qualquer modelo da Boeing seja convertido para o padrão executivo. Um exemplo notório é o 747-8 VVIP, presente diplomático do Qatar para os Estados Unidos. Embora a Boeing não seja responsável pela montagem dos interiores VIP, o avião passa por uma série de revisões de projeto que o capacitam para essa nova missão.
O programa BBJ foi lançado em 1996 como uma parceria entre a Boeing e a GE, com o objetivo de aproveitar o potencial do 737 Next Generation, então em desenvolvimento, para atender ao mercado de aviões de negócios de cabine larga e longo alcance.

Na época, modelos como o Gulfstream GV e o Falcon 900 eram relativamente limitados para algumas missões que exigiam maior capacidade e alcance. Assim, diversos operadores recorriam ao conceito dos chamados VIP Derivatives — aviões comerciais transformados para o padrão executivo. Embora essa solução oferecesse mais espaço interno, tratava-se, geralmente, de aeronaves com limitações que restringiam suas vendas a forças aéreas, destinadas ao transporte oficial de autoridades de Estado.
Ainda que algumas dessas aeronaves fossem operadas por empresários e grandes corporações, o número era baixo e limitado pela disponibilidade de aviões comerciais — geralmente usados — para conversão ao padrão VIP.
Com o lançamento do BBJ, o objetivo era atender à demanda de quem necessitava de um avião de cabine ultralarga e alcance superior a 11.000 quilômetros, com a vantagem de utilizar uma célula nova e projeto VIP projetado pelo própria Boeing. O sucesso foi imediato: atualmente, quase 300 aviões foram vendidos pela Boeing.
O BBJ1 utilizava a fuselagem do 737-700, com as asas e o trem de pouso do 737-800, oferecendo uma plataforma com amplo espaço interno, alcance de aproximadamente 11.500 quilômetros e capacidade para até 25 passageiros. Em 2001 surgiu o BBJ2, baseado na estrutura do 737-800, com 25% a mais de espaço de cabine, embora com alcance 1.500 quilômetros inferior. Por fim, o BBJ3 buscava ser uma solução ainda mais completa, com espaço interno quase 35% maior que o BBJ1 e alcance de 9.800 quilômetros.

Usualmente, o BBJ é oferecido pela Boeing em projeto conjunto com parceiros. A aeronave é entregue sem interior, com as modificações básicas para receber a cabine VIP e tanques suplementares, sendo então encaminhada a uma empresa especializada que realiza a montagem do complexo interior.
A exceção são os 747-8 que estão sendo transformados nos novos Air Force One, que, por suas características altamente especializadas e sigilosas, tem todo o processo feito internamente. Apesar de ser um 747 VIP, o VC-25B — nome oficial do Air Force One — não é considerado um BBJ, justamente por se tratar de um projeto único, fora das especificações padrão.
Apesar do sucesso da família BBJ, em especial do 737 BBJ derivado da série Next Generation, seu custo elevado limitava seu apelo comercial. Além disso, com o surgimento de jatos executivos de cabine larga e ultralongo alcance, a Boeing passou a enfrentar a concorrência de modelos da Bombardier, Dassault e Gulfstream. Ainda que o espaço interno do BBJ derivado do 737 continue superior, seus rivais — desenvolvidos como aviões de negócios — destacavam-se por oferecer maior flexibilidade operacional, capacidade de operar em aeroportos restritos, menor altitude de cabine, contratos de compra mais simplificados (incluindo montagem do interior pelo próprio fabricante), entre outras vantagens.
Com isso, os BBJ ainda baseados no 737NG passaram a atender um nicho específico, com potencial entre operadores que realizam longas distâncias entre aeroportos bem estruturados. Na média, operações com aviões como o Global 7500 e o G700 ocorrem entre cidades com infraestrutura capaz de receber jatos comerciais de médio porte, como os 737 e A320.

A Boeing oferece agora ao mercado o BBJ Select, uma solução intermediária entre os tradicionais jatos de negócios e a demanda crescente por prazos mais curtos, custos controlados e processos simplificados. Com base em um modelo de turnkey, o programa visa atender clientes que operam um Boeing Business Jet, mas com menor complexidade na escolha e entrega do projeto.
Desenvolvido para atender a três demandas específicas do mercado — acelerar o tempo entre compra e entrada em operação, reduzir os custos associados à personalização e simplificar a seleção de interiores —, o BBJ Select adota uma filosofia de modularidade semelhante à aplicada pela Airbus no ACJ TwoTwenty, embora com ênfase na personalização seletiva.

O sistema oferece ao cliente um catálogo fixo com 216 opções pré-configuradas, contemplando diversas combinações entre suíte com cama queen ou king, salas de jantar ou conferência, lounges, escritórios privativos e lavatórios com chuveiro. Esses ambientes podem ser personalizados dentro de parâmetros específicos, incluindo paletas de cores, revestimentos e mobiliário.
Por se tratar de um projeto modular, a certificação antecipada dessas configurações permite acelerar o processo de instalação, realizado por empresas autorizadas pela Boeing. Na prática, o BBJ Select reduz em até 18 meses o ciclo tradicional de personalização de interiores VIP, com economia média de 20% nos custos. Enquanto um BBJ tradicional pode levar entre dois e três anos para ser concluído — em função do envolvimento de projetistas, engenheiros e processos de certificação individuais —, a nova proposta permite entregas entre 12 e 18 meses após a entrega da célula.

O público-alvo é diverso e inclui governos que necessitam de jatos oficiais com entrega rápida, operadores de voos charter de alto padrão interessados em frota padronizada e de fácil manutenção, além de empresários que valorizam o conforto e o alcance global, mas não exigem design 100% exclusivo. Como diferencial competitivo, o BBJ Select oferece um espaço interno de 82 m², superior ao de jatos como o Bombardier Global 7500, Gulfstream G700, Dassault Falcon 10X e o ACJ TwoTwenty da Airbus, com menor custo por metro cúbico útil.
A Airbus, aliás, também identificou o potencial do mercado de aviões comerciais convertidos para voos VIP, lançando no início dos anos 2000 o programa Airbus Corporate Jets, que oferece toda a linha de produtos com padrão executivo. Mais recentemente, a Airbus saiu na frente ao responder à demanda por jatos de cabine larga e longo alcance com o ACJ TwoTwenty, derivado do A220 — justamente o mercado que agora a Boeing visa atingir com o BBJ Select.

O entrave atual é o fato de o BBJ Select ser derivado do 737 MAX 7, modelo ainda não certificado, cuja versão comercial tem previsão de entrega para o próximo ano. Após a crise envolvendo o 737 MAX 8 — que desencadeou uma série de problemas internos na Boeing —, os modelos MAX 7 e MAX 10 tiveram seu processo de certificação atrasado em vários anos. A expectativa original era que ambos estivessem em operação já em 2020.
Além do BBJ Select, a Boeing segue oferecendo o BBJ “tradicional” para clientes que buscam exclusividade total. Um magnata disposto a esperar mais tempo pode, por exemplo, incluir acabamentos em mármore, metais nobres ou obras de arte em seu BBJ customizado.

Já o BBJ Select é ideal para quem busca eficiência, espaço padronizado e previsibilidade no cronograma. O conceito atende principalmente Estados que demandam aeronaves para transporte oficial, sem exageros ou custos elevados. O preço médio do BBJ Select é de aproximadamente US$ 100 milhões, enquanto os demais BBJ derivados do 737 MAX superam com facilidade esse valor.
Para fins comparativos, o valor médio do interior do BBJ Select gira entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões, enquanto o BBJ derivado do MAX 8 parte de US$ 30 milhões, podendo chegar próximo dos US$ 80 milhões quando itens extremamente exclusivos são incluídos.
O objetivo da Boeing com o BBJ Select é explorar uma nova categoria dentro da aviação de negócios, rivalizando com o ACJ TwoTwenty, oferecendo racionalização de custos sem renunciar à sofisticação e ao conforto que definem o segmento VIP de jatos derivados de aviões comerciais.
Por Edmundo Ubiratan
Publicado em 23/02/2026, às 15h00
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