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O mais moderno

Guerra do marketing por letras criou no Brasil um modelo de avião inexistente

Varig e Real protagonizaram uma curiosa disputa pelo Super Constellation mais moderno


Inicialmente a Varig tinha pintado o icônico Ícaro no tanque da ponta de asa, até a Real escrever Super H ...

O caso se tornou uma lenda na história da aviação comercial brasileira, mas ainda é desconhecido por quem acabou de desembarcar nesse incrível universo. Para os veteranos, vale revisitar essa saborosa história da época de ouro do transporte aéreo.

Com a grande quantidade de aviões de transporte que se tornaram excedentes com o fim da Segunda Guerra Mundial – e que eram vendidos a preços baixíssimos (um Douglas C-47/DC-3 podia ser adquirido por US$ 500), surgiram em todo o mundo inúmeras companhias aéreas, algumas de elas de vida tão efêmera, que logo caíram no esquecimento.

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A maioria faliu, muitas foram adquiridas por outras e pouquíssimas sobreviveram, construindo as suas frotas com os já mencionados C-47/DC-3, além de C-54/DC-4, Curtiss C-46, Consolidated PBYCatalina, Lockheed Constellation e outros. Isso popularizou bastante o transporte aéreo de passageiros e carga, e consequentemente, os fabricantes iniciaram o desenvolvimento de aeronaves cada vez mais modernas, velozes e confortáveis.

As companhias aéreas que podiam compravam os novos modelos, e as que não, apelavam para pequenos truques – que hoje chamaríamos de “guerra de marketing” – para fazer de conta que os seus aviões eram mais modernos que os da concorrência.

Um exemplo bastante conhecido foi o de empresas que usavam os velhos DC-4/C-54, da época de guerra, mas não podiam comprar os novos Douglas DC-6: como a principal diferença visual entre elas era a forma das janelas (ovais no DC-4 e quadradas no DC-6), elas pintavam quadrados pretos sobre as janelas ovais, para que, pelo menos de longe, parecessem do modelo mais novo.

Nasce o Super I

Porém, a maior demonstração da engenhosidade tupiniquim foi a utilização dos únicos Lockheed Super I Constellation, que existiram.

Tudo começou em 1955, quando a Varig recebeu seus primeiros Lockheed L-1049G-2 Super Constellation (PP-VDA, PP-VDB, PP-VDC). O pioneiro VDA já tinha as características janelas quadradas, ao contrário do Constellation que eram redondas, mas ainda tinha o nariz curto do modelo anterior. A diferença neste caso se fazia pela ausência do radar meteorológico, mas o modelo foi posteriormente equipado com radar, com o nariz longo, uma característica dos ”Super”. Nenhum dos primeiros aviões da Varig tinham tanques de ponta de asa (tip tanks), que aumentavam o alcance das aeronaves.

Note a incrição Super H no tanque de ponta de asa do Super Constellation da Real

Além das janelas diferentes, esses aviões tinham motores mais possantes, hélices de passo variável e eram maiores que os L-049/-149 Constellation da Panair; além do mais, na parte inferior externa das derivas, tinham escrito “Super G” em elegante letra cursiva.

Em 1957, a Varig começou a receber mais três Super G (PP-VDD, PP-VDE e PP-VDF), os dois últimos com tip tanks, enquanto no ano seguinte a arquirrival Real recebeu seus quatro L-1049H (PP-YSA, PP-YSB, PP-YSC e PP-YSD). A diferença entre a série G e a série H era exclusivamente a possibilidade do último poder ser convertido em cargueiro, o que era evidenciado pelo piso reforçado e uma porta de carga na fuselagem. Assim, apenas um observador muito atendo notaria que os aviões da Real tinham a tal porta de carga. 

Note o enorme I pintado no tanque da ponta de asa do Super Constellation da Varig

Aproveitando a instalação dos tanques, a Real escreveu neles “Super H”, dando a entender que seriam mais modernos que os “Super G” da Varig. Ciente da estratégia da rival, a empresa gaúcha teve uma ideia bastante criativa para que seus Super G parecessem mais modernos que os “Super H” da Real. A solução foi aproveitar a capacidade de voar para diversos destino no globo, sendo inclusive o modelo a espinha dorsal dos voos para os Estados Unidos, e escrever nos tanques “Super Intercontinental”, com um enorme ”I” vermelho. De longe o passageiro poderia ler "Super I", ou seja, para um leigo era óbvio que a letra I vem depois do H, por tanto, é mais moderno.

Ironicamente, quando em 1961, a Real foi comprada pela Varig, os Super H ganharam novas cores incluindo o “Super Intercontinental” nos tanques.

Nota: Como lembrou nosso leitor Daniel Molina, anos mais tarde a competição pelo mais moderno continuou. A Varig recebeu seus primeiros 737-200 logo após a Vasp, então batizando seus aviões de 737-200 Super Advanced. A Vasp retribuiu com o 727 Super 200.

Outro caso de marketing aconteceu com o L-188 Electra, que no Brasil foi batizado de Electra II, em uma referência aos primeiros L-10 Electra (Electrinhas) e uma forma de distanciar o modelo dos acidentes fatais que ocorreram nos Estados Unidos.

Essa e outras histórias você pode encontrar no livro 100 Curiosidades da Aviação

Por Santiago Oliver
Publicado em 07/04/2020, às 13h00 - Atualizado às 18h42


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