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Aviation Art

Piloto escreve milhares de palavras até surgir um avião

A piloto de missões médicas, Andrea McDonald cria aeronaves e retratos a partir da repetição de palavras, números e matrículas


P-51 de Andrea McDonald
P-51 Mustang Old Crow, de Bud Anderson, retratado com palavras e números se tornou uma das peças de maior valor sentimental para a artista - Andrea McDonald

De perto, são palavras, números e matrículas escritos repetidamente. À medida que o olhar se afasta, porém, as letras se transformam em asas, fuselagens, sombras e expressões. É assim que a artista Andrea McDonald constrói retratos de personagens históricos e aeronaves de diferentes gerações.

Cada imagem pode exigir até 70 horas de trabalho e a escrita manual de milhares de letras, números e palavras. Em uma inversão quase literal do conhecido ditado, as obras não valem apenas mais que mil palavras: são as próprias palavras que formam a imagem.

A arte divide espaço com outra atividade marcada pela precisão. Piloto profissional, McDonald atua em missões aeromédicas voando um Embraer Phenom 300. Durante muito tempo, porém, o desenho e a aviação seguiram caminhos paralelos. Eles começaram a se cruzar quando ela própria passou a voar e encontrou nos aviões e em seus personagens não apenas temas, mas histórias que desejava preservar.

Andrea McDonald
Andrea McDonald é piloto e artista

Entre essas histórias, nenhuma se tornou tão pessoal quanto a ilustração do Old Crow, nome dado ao P-51 Mustang pilotado por Clarence “Bud” Anderson durante a Segunda Guerra Mundial. Um dos mais destacados ases americanos do conflito, Anderson tinha 99 anos quando recebeu uma cópia da obra criada por McDonald. Vista de perto, a ilustração revelava-se formada pela repetição de palavras e números escritos individualmente.

Depois de conhecer, durante uma convenção, pessoas ligadas a Anderson, ela enviou seis cópias da obra ao veterano. Três retornaram assinadas e numeradas. O contato ainda resultou em uma conversa por telefone, no envio de um exemplar das memórias do aviador e em uma mensagem escrita à mão.

“Consegui falar com ele ao telefone e recebi seu livro de memórias e uma mensagem manuscrita. É provavelmente a obra com maior valor sentimental para mim”, conta.

A história ajuda a explicar a relação de Andrea com a memória da aviação. Em seus trabalhos, aeronaves, aviadores e outras personalidades surgem por meio de milhares de palavras, números e referências sobrepostas. Ela define a técnica como “pontilhismo com palavras”, em que matrículas, designações de modelos, nomes e elementos históricos ocupam o lugar dos pontos tradicionais e formam contornos, sombras e expressões.

A projeção alcançada pela arte não alterou a forma como McDonald enxerga a própria trajetória profissional. Quando questionada sobre como se define, afirma: “Primeiro digo que sou piloto de medevac. Depois, conto que, no meu tempo livre, também sou artista”.

Entre caças e desenhos

A aviação fazia parte de sua vida desde a infância, sobretudo pelo contato familiar com o ambiente militar e, em especial, com aviões de caça. A arte, porém, avançou por outro caminho, com desenhos, retratos e trabalhos em lápis de cor durante os anos de escola e faculdade. Embora tivesse crescido naquele ambiente, McDonald não se recorda de ter conhecido uma piloto naquela fase. A possibilidade de ocupar o cockpit só ganhou forma depois da graduação, quando o diretor de uma escola de aviação a convidou para voar.

“Passei boa parte da vida próxima aos aviões de caça, mas nunca havia realmente conhecido uma piloto. Depois da faculdade, fiz um voo e pensei: ‘Sim, eu também posso fazer isso’”. Foi a partir dali que os dois interesses começaram a se encontrar, e as aeronaves passaram a ocupar espaço crescente em seu trabalho artístico.

A pioneira Amelia Earhart

Amelia Earhart
Amelia Earhart retratada com a repetição do número 99, em referência à The Ninety-Nines

A técnica começou no papel. McDonald fazia um esboço a lápis e preenchia a imagem com palavras e números escritos à caneta, em um processo que deixava pouca margem para erros. O primeiro retrato foi o de Amelia Earhart, uma das figuras mais conhecidas da aviação e pioneira entre as mulheres que conquistaram espaço no setor. “A primeira peça foi Amelia Earhart, desenhada com o número 99”, conta McDonald, em referência à The Ninety-Nines, organização internacional de mulheres pilotos da qual Earhart foi a primeira presidente. “Depois fiz uma aeronave, e as pessoas começaram a pedir seus próprios aviões formados pela matrícula ou por alguma palavra especial. A ideia simplesmente cresceu a partir daí”.

Entre os retratos que vieram depois está o de Bessie Coleman, primeira mulher negra a obter uma licença de piloto. Impedida de realizar sua formação nos Estados Unidos, ela aprendeu francês e viajou à França para obter a licença. A obra surgiu de uma encomenda, mas também levou McDonald a conhecer melhor uma trajetória que considera especialmente inspiradora.

Um ateliê dentro do iPad

A mudança para o iPad tornou o processo mais flexível, mas não menos artesanal. Mesmo usando o aplicativo Procreate, ela continua escrevendo à mão palavras, letras e números, distribuídos em camadas que permitem ajustar sombras, volumes e contrastes.

A cor é adicionada apenas no final, com técnicas de mistura e sombreamento herdadas dos trabalhos em lápis de cor. “Eu transfiro para o Procreate tudo o que aprendi no mundo físico. Não conheço todos os atalhos do programa. Uso a ferramenta como se ainda estivesse trabalhando com materiais táteis”.

Boeing Stearman
As obras podem exigir até 70 horas de trabalho, com palavras e números escritos individualmente

A portabilidade digital também permite avançar nas obras durante viagens e, ocasionalmente, nos longos períodos de espera que fazem parte de algumas missões aeromédicas. Quando o espaçamento ou o tamanho das palavras não funcionam, ela refaz a camada até alcançar o efeito desejado. A repetição, contudo, pode pregar algumas peças. Ao escrever a mesma palavra durante horas, Andrea nem sempre percebe imediatamente quando a atenção se divide entre o desenho e uma conversa.

“Vou contar um pequeno segredo: às vezes alguém está falando comigo, eu entro naquele ritmo de escrever a palavra várias vezes e, de repente, percebo que comecei a escrever outra coisa ou escrevi errado. Aí preciso voltar e descobrir como corrigir”, conta, em tom bem-humorado.

Até 70 horas de trabalho

Bessie Coleman
O retrato de Bessie Coleman levou Andrea McDonald a conhecer melhor a trajetória pioneira da aviadora

Cada aeronave exige, em média, entre 45 e 60 horas de trabalho. Nos retratos, o processo pode superar 70 horas, sobretudo pela dificuldade de reproduzir expressões e controlar os espaços em branco que criam luz e contraste. “Nos retratos, preciso decidir onde colocar palavras e onde deixar uma área completamente branca. Capturar uma pessoa é muito mais complexo”. As sucessivas tentativas de reproduzir esses detalhes, especialmente no retrato de Amelia Earhart, contribuíram para o desenvolvimento do sistema de camadas usado posteriormente.

Embora a aviação ocupe boa parte do portfólio, McDonald também retrata outros temas, incluindo referências a Nova Orleans, sua cidade natal, e personalidades do esporte. Em 2021, enquanto concluía as habilitações de instrutora de voo, recebeu uma encomenda de cinco desenhos do astro do basquete Stephen Curry.

Até a NASA

A presença no EAA AirVenture Oshkosh, um dos maiores encontros de aviação do mundo, levou o trabalho de McDonald a um público acostumado às pinturas aeronáuticas tradicionais. Ao expor suas obras no evento, ela percebeu que o impacto costumava ocorrer em dois momentos: primeiro, o observador reconhecia a aeronave ou o rosto; depois, ao se aproximar, descobria as palavras, os números e as referências que formavam a imagem.

“Quando eu explicava que o desenho era formado pelo número do modelo, por uma palavra ou por um nome, as pessoas demonstravam surpresa. Foi impressionante ver nas mãos de quem aqueles pequenos cartões acabaram chegando”, recorda.

Em Oshkosh, Andrea chegou a entregar dois desses cartões ao administrador da NASA, durante um encontro casual na área dedicada aos aviões históricos. Para uma técnica iniciada com caneta, papel e a repetição do número 99, a reação do público confirmou o efeito que ainda orienta seu trabalho: primeiro surge a imagem; só depois aparecem as palavras.

Por Edmundo Ubiratan
Publicado em 30/07/2026, às 09h00


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