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Carlos Brana, VP executivo da Dassault Aviation fala do mercado brasileiro

Durante o Catarina Aviation Show 2025, Carlos Brana revela as perspectivas da Dassault para o país e os destaques da nova geração de jatos Falcon


Imagem Carlos Brana, VP executivo da Dassault Aviation fala do mercado brasileiro

Durante a mais recente edição do Catarina Aviation Show 2025, a AERO Magazine conversou com Carlos Brana, Vice-Presidente Executivo da Divisão de Aeronaves Civis da Dassault Aviation. Com mais de quatro décadas de atuação na empresa — incluindo passagens pelos programas Mirage e Rafale — Brana hoje lidera a estratégia global de vendas, suporte e modernização da linha Falcon.

À frente das operações civis desde 2019, o executivo comanda os esforços para fortalecer a presença da marca em mercados estratégicos como o Brasil, onde a família Falcon segue conquistando operadores com seu portfólio diversificado e alto padrão de suporte. Na entrevista a seguir, Brana detalha as perspectivas da Dassault para o país, os diferenciais dos novos modelos 6X e 10X e o papel da manutenção no fortalecimento do relacionamento com os clientes da América Latina. 

  • O Brasil segue como um mercado importante para a Dassault Falcon. Quais são as perspectivas da empresa para o país?
    Sempre encaramos mercados como o Brasil com grande otimismo, da mesma forma que fazemos com nações altamente industrializadas, como Estados Unidos, China e Índia. Países com vasta extensão territorial e centros industriais espalhados exigem soluções de transporte eficientes e versáteis — tanto para atender às demandas de negócios quanto para fomentar novas oportunidades comerciais. O Brasil, além de ser um grande mercado, também é uma nação com forte presença internacional. Empresários brasileiros viajam com frequência para diversos destinos globais, e o país, por sua vez, recebe visitantes de todas as partes do mundo.

  • Como a diversidade da frota Falcon atende a essas demandas variadas?
    Esse cenário gera uma demanda constante por aeronaves com diferentes capacidades, desde modelos de alcance médio, como o Falcon 2000, até jatos de maior autonomia, como o Falcon 6X, 8X e, futuramente, o 10X. Com o portfólio variado que oferecemos, enxergamos um futuro muito promissor no Brasil.

  • A Dassault mantém investimentos significativos no país, especialmente no segmento de manutenção (MRO). Qual é a importância dessa operação para o Brasil e para a América Latina?
    Nosso centro de manutenção (MRO) atende a todos os clientes da região, mas foi estrategicamente localizado no Brasil, dado o número expressivo de aeronaves Falcon operando aqui. Sabemos o quanto é inconveniente para um proprietário brasileiro enviar seu jato para os Estados Unidos ou para a Europa para realizar serviços de manutenção. Além disso, temos um diferencial: a qualidade da mão de obra local. No Brasil, encontramos profissionais altamente capacitados, bem treinados e extremamente dedicados. Isso se reflete diretamente no relacionamento com nossos clientes — eles sabem que serão bem atendidos e que seus aviões estarão em excelentes mãos. O serviço de pós-venda, incluindo o MRO, é um componente essencial da fidelização dos nossos clientes. Se um cliente adquire um carro e tem uma má experiência na assistência técnica, certamente considerará outra marca em sua próxima compra. No nosso setor é a mesma lógica: um bom serviço de manutenção reforça a lealdade. E nossos clientes são, de fato, muito leais, em grande parte graças à qualidade do suporte que oferecemos. Começamos nossas operações em Sorocaba e, com o crescimento da demanda, ampliamos a estrutura. Hoje contamos com um espaço maior, mais profissionais e uma rede de aeroportos melhor conectada. É uma evolução fantástica para o nosso suporte na região.

  • Os clientes brasileiros costumam ser fiéis à marca. Mas, quando falamos de aviação de negócios, eles tendem a permanecer no mesmo modelo ou a migrar para categorias superiores? Por exemplo, do Falcon 2000 para outro Falcon 2000, ou para um 7X?
    Essa é uma ótima pergunta. Existe, de fato, uma crença de que todo cliente começa pequeno e, com o tempo, migra para aeronaves maiores. Isso acontece, mas não de forma linear. Na verdade, os clientes são bastante racionais e adquirem o que realmente necessitam. Imagine uma empresa que começa com operações regionais. Se, em determinado momento, passa a atuar no mercado internacional, suas necessidades de mobilidade naturalmente mudam.

  • E como a Dassault acompanha essa evolução do cliente?
    É esse tipo de evolução que vemos com frequência. Empresas que expandem suas atividades acabam demandando aeronaves de maior alcance. Mas também temos clientes que permanecem fiéis a modelos como o Falcon 2000 ou até mesmo o Falcon 900, simplesmente porque essas aeronaves continuam atendendo perfeitamente às suas operações. Claro, há casos em que um cliente se apaixona por um modelo específico — acontece. Mas, em última análise, a decisão é sempre baseada no custo-benefício. CEO e executivos de alto nível conhecem bem o impacto financeiro de operar um avião que excede suas reais necessidades. Por isso, quando decidem investir, fazem isso de maneira bastante consciente.

  • E quanto ao Falcon 6X, qual é a perspectiva para esse modelo no Brasil e na América Latina? Considerando que é uma aeronave maior e mais cara, o que exige uma decisão de compra igualmente racional ...
    O Falcon 6X é um produto novo para a região, e já o apresentamos várias vezes no Brasil. A aceitação tem sido excelente — o público aprecia o desempenho, o conforto e a tecnologia embarcada. Naturalmente, não é um modelo que se encaixa em todos os perfis de operação, mas responde muito bem a certas necessidades específicas. E, como acontece com todo avião bem projetado, a tendência é que ele tenha uma boa aceitação no mercado.

  • O Falcon 2000 é um enorme sucesso no Brasil. A que você atribui essa popularidade? 
    Existem vários fatores. O Falcon 2000 oferece uma combinação excepcional de autonomia, capacidade e conforto. É ideal para operações regionais, tem um custo de aquisição e de operação muito competitivo e uma cabine de dimensões generosas. Mas, acima de tudo, é um avião excepcional. Não por acaso é muito popular não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, que são referência mundial em aviação de negócios. 

  • Aliás, quais características do Falcon 2000 mais atraem o público brasileiro?
    O Falcon 2000 é uma plataforma extremamente madura, fácil de operar, de manter e que oferece uma experiência de voo sempre impecável. É uma aeronave versátil, capaz de atender a diversos perfis de missão, em praticamente qualquer rota e condição operacional. Esse conjunto de qualidades explica por que tantos clientes seguem optando pelo Falcon 2000 — é uma solução confiável e consagrada.

  • E quanto ao futuro Falcon 10X? Qual é o status atual do programa e as perspectivas para esse modelo? 
    Temos sido bastante discretos quanto à comunicação do status do programa, principalmente porque, durante o desenvolvimento do Falcon 6X, fizemos muitas atualizações e divulgações. Hoje preferimos concentrar nossas comunicações em marcos importantes — e quando há novidades relevantes, naturalmente, compartilhamos com o mercado. Até o momento, o desenvolvimento do 10X está transcorrendo de forma muito satisfatória.

  • A Dassault divulgou muito sobre a cabine ultralarga do Falcon 10X, a maior para um jato de negócios não derivado de um modelo comercial. Para além da cabine, que o Falcon 10X trará de diferenciais para o mercado? 
    Nossa expectativa é de que o Falcon 10X seja um divisor de águas no segmento. Não apenas pelas tecnologias embarcadas — já presentes em toda a linha Falcon — mas também por apresentar uma seção transversal de cabine ainda maior do que a do Falcon 6X, que já é a maior entre os jatos executivos de sua categoria. Não se trata de um projeto comparável a aeronaves como o Airbus A220 — estamos falando de um verdadeiro jato executivo. O 10X terá alcance de 7.500 milhas náuticas e um nível de conforto excepcional. Em voos de mais de 15 horas, os passageiros sentirão o benefício de uma cabine ampla, onde poderão circular com liberdade, descansar ou até dormir em uma cama de dimensões reais. Nosso objetivo é oferecer uma experiência de viagem superior para missões extremamente longas.

  • O Falcon 10X também incorporará diversas tecnologias derivadas do caça Rafale. Além da cabine larga, que recursos e inovações você destacaria? 
    Um bom exemplo é o controle de potência, O 10X terá um único manete de aceleração (single throttle) para os dois motores, o que simplifica bastante a operação. Outro destaque é o sistema de recuperação de atitude. Em caso de perda momentânea de controle — algo que pode ocorrer, por exemplo, ao cruzar a esteira de turbulência de um Airbus A380 — o piloto poderá acionar um botão que faz a aeronave retomar automaticamente uma trajetória segura. Embora pareça um recurso simples, esse sistema já demonstrou ser capaz de salvar vidas no Rafale.

  • Quando esse sistema de recuperação de voo atua?  
    Funciona em situações de alta carga G ou proximidade de limites operacionais, o modo de recuperação oferece uma camada extra de segurança valiosa. O 10X, portanto, reunirá não apenas conforto de classe mundial, mas também tecnologias avançadas de segurança e operação, refletindo o melhor da expertise da Dassault.

  • O Falcon 10X representa um novo patamar em termos de conforto e segurança? Como as tecnologias derivadas do Rafale contribuem para isso? 
    De fato, o 10X eleva o padrão de conforto a um novo nível, embora seja importante destacar que o conceito de conforto em um caça, como o Rafale, é bastante diferente daquele em um jato executivo. No Rafale, você lida com forças G elevadas, o que não é o caso aqui. O que ocorre é que muitas tecnologias desenvolvidas para o Rafale foram adaptadas de forma inteligente para uso em jatos executivos. Por exemplo, a pressurização da cabine no 10X foi projetada para oferecer uma experiência muito mais confortável: mesmo voando a 41 mil pés, a altitude percebida dentro da cabine será equivalente a cerca de 3.000 metros. Isso permite que os passageiros respirem melhor e reduz a fadiga em voos longos.

  • E no que diz respeito ao comportamento da aeronave em turbulência? Isso tem sido uma preocupação na indústria...  
    Sim, a estrutura aeroelástica do 10X foi otimizada para suavizar as oscilações, oferecendo uma experiência de voo comparável à de um Boeing 777 — que, mesmo em condições de turbulência, proporciona grande estabilidade. Além disso, fatores como a iluminação ambiente, o número e o tamanho das janelas e, principalmente, o nível de ruído interno desempenham um papel fundamental no conforto geral. O ruído, em especial, tem impacto direto na fadiga dos passageiros. Em um voo de 15 horas, uma cabine barulhenta e mal pressurizada faz com que você desembarque exausto. Nossa meta com o 10X — assim como no 6X e em toda a linha Falcon — é garantir que o passageiro chegue ao destino pronto para enfrentar o dia, sem precisar de horas de recuperação. Isso envolve o uso de tecnologias sofisticadas para isolar o ruído e controlar a vibração, além de um design cuidadoso do ambiente de cabine.

  • Sou um grande fã da suíte EASy — na verdade de todas as soluções baseadas no Primus Epic são fantásticas. Quais são os planos futuros para a evolução do EASy, podemos esperar, por exemplo, um EASy 5 derivado do Anthem? 
    Certamente haverá evoluções no EASy. Essas atualizações são motivadas por vários fatores, incluindo novos requisitos regulatórios. Por exemplo, hoje precisamos integrar sistemas como o ROAS (Runway Overrun Awareness and Alerting System) e o CPDNC (Controller-Pilot Data Link Communications). Além das exigências legais, também consideramos a conveniência para o operador e as expectativas do mercado. Algumas atualizações podem ocorrer em ciclos curtos, de dois em dois anos; outras levam cinco ou até dez anos, dependendo da relevância e da maturidade tecnológica. Embora eu não possa antecipar exatamente qual será o próximo passo, posso afirmar que a evolução do EASy continuará, sempre com foco em atender às necessidades dos nossos clientes.

  • Como a Dassault tem trabalhado para superar os desafios na rede de suporte pós-pandemia? 
    Temos a questão da rede de suporte — um desafio que se intensificou desde a pandemia de Covid-19. Aos poucos, a situação vem se normalizando, mas ainda não está perfeita. Continuamos trabalhando com nossos fornecedores e parceiros para garantir que tudo funcione da melhor forma possível. Não é um processo simples, é um trabalho contínuo, e é importante lembrar que toda a indústria aeroespacial — incluindo grandes players e aeroportos — ainda sente os reflexos desse período. Mas há progresso.

  • E em relação ao cenário político e às incertezas atuais, que envolvem conflitos no Oriente Médio, Ucrânia e guerra comercial. Qual sua avaliação? 
    Em relação ao cenário político, especialmente nos Estados Unidos, o mercado está claramente em transição. Ainda há muita incerteza. Como fabricantes de aeronaves, acompanhamos essas mudanças de perto, mas o fundamental é que a indústria precisa se adaptar ao mercado, e não o contrário. Hoje, o maior desafio é a falta de previsibilidade — não sabemos exatamente como o cenário vai se consolidar. E, quando não há clareza, é difícil tomar decisões estratégicas. Assim que tivermos uma visão mais definida, seremos capazes de adotar as soluções e iniciativas adequadas para nos ajustar às novas circunstâncias de mercado. Esse é o nosso foco: estarmos preparados para reagir de forma ágil assim que o cenário se tornar mais previsível.

Por Edmundo Ubiratan, de São Roque
Publicado em 22/06/2025, às 11h00


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