Depois de um inédito cancelamento, a maior confraternização aeronáutica do mundo resgata o encantamento dos shows aéreos e o reaproxima os apaixonados por aviões

O tradicional encontro organizado pela Associação de Aeronaves Experimentais dos Estados Unidos (EAA, na sigla em inglês) teve um significado simbólico neste ano. Foi a primeira edição da AirVenture após o início da pandemia da covid-19, que marcou teve um impacto devastador nas feiras aeronáuticas.
Em 2020, a maior reunião de aviadores do mundo, realizada anualmente na pacata cidade de Oshkosh, no condado de Winnebago, em Wisconsin, teve de ser cancelada faltando pouco mais de 90 dias para sua abertura – algo inédito em mais de 50 anos de história do evento.
Com o avanço da imunização em território norte-americano, as famílias se sentiram mais seguras para visitar aeroporto regional de Wittman, mais conhecido como Wittman Field, que voltou a reunir milhares de visitantes, muitos dos quais a bordo de seus próprios aviões.
A EAA manteve o apoio a todos os presentes no evento, proporcionando um clima de completa normalidade, como se o ano de 2020 jamais tivesse ocorrido. Porém, o embarque de brasileiros para os Estados Unidos ainda exigia uma quarentena em um dos países considerados seguros pelo governo norte-americano, o que impediu a ida de grandes grupos de aficionados do Brasil. Mas nossa equipe se fez presente e reunimos aqui o que de melhor o público pôde conferir em Oshkosh neste ano de 2021.
Dois grupos com histórico de trabalhos humanitários estiveram presentes em Oshkosh neste ano. “A aviação é regularmente usada como a primeira resposta a áreas ao redor do mundo que foram duramente atingidas por desastres naturais ou outras calamidades, e apresentamos alguns desses esforços humanitários este ano em Oshkosh”, disse Rick Larsen, vice-presidente da EAA.
O Samaritan’s Purse se notabilizou por diversas ações ao redor do mundo, com destaque para o apoio às comunidades de Ruanda após o trágico genocídio de 1994, assim como na recente crise do Sudão. Com uma frota de 21 aviões e dois helicópteros, a Samaritan’s Purse expos seu Douglas DC-8, que transporta equipes médicas e outros voluntários ao redor do mundo.
Em 2020, o Samaritan’s Purse entregou 38 toneladas de suprimentos médicos, incluindo um hospital de campanha para a Itália, durante os dias mais terríveis da pandemia. Além disso, no ano passado, os aviões da organização voaram para ajudar famílias que fugiram do conflito na Armênia, vítimas do furacão em Honduras e pessoas no Líbano afetadas pela explosão do porto de Beirute.
O DC-8 ingressou na frota em 2016 e foi configurado para transportar até 38 mil quilos de carga e pode transportar 32 passageiros. Desde então, participou de diversas missões ao redor do mundo. “Quando os desastres acontecem, em qualquer lugar do mundo, levar suprimentos de socorro e especialistas ao local o mais rápido possível é absolutamente essencial”, disse Franklin Graham, piloto e presidente da Samaritan’s Purse.
O hospital oftalmológico Orbis Flying Eye Hospital montado em um Boeing MD-10 também marcou presença em Oshkosh. A organização vem oferecendo treinamento de classe mundial para equipes de oftalmologia em mais de 95 países nas últimas quatro décadas. O primeiro avião convertido em centro cirúrgico foi adquirido em 1982, posteriormente sendo recebido um DC-10, que ficou em serviço por vários anos.
Recentemente, a FedEx doou um de seus MD-10, que foi transformado em um centro de alto nível, capaz de realizar cirurgias complexas, com equipes médicas avançadas, que podem não apenas operar, mas compartilhar seus conhecimentos com o mesmo grau de excelência de um centro universitário. Palestras e cirurgias ao vivo são transmitidas para além da sala de aula do avião, reproduzida, também, na plataforma de telemedicina premiada da Orbis. A maior parte dos atendimentos ocorre em países de baixa renda, onde estão nove em cada dez pessoas no mundo que perdem a visão por problemas simples e tratáveis, como catarata.

A edição 2021 do AirVenture marcou o aniversário de diversas aeronaves icônicas entre os modelos de construção amadora, mais conhecidos como homebuilt, dando um ar mais especial ao encontro. O espírito de Oshkosh está intrinsicamente atrelado aos homebuilts, que são fundamentais para o desenvolvimento da aviação e por sua ampla evolução em mais de cem anos de indústria aeronáutica.


Comemoraram aniversário em alto estilo os Pitts Special com 75 anos (na verdade 76, mas, simbolicamente, optaram pela data mais marcante), o Bakeng Duce e o Skybold, ambos com 50 anos (51 anos), o Sonerai, com exatos 50 anos, o Air Cam e o RV-8, que fizeram 25 anos (26), e o RV-7, que completou seu vigésimo aniversário.
Mais uma aniversariante de respeito foi a BRP-Rotax, que celebrou 100 anos (sim, 101) desde sua fundação. Fabricante do coração da maioria das aeronaves experimentais do mundo, a empresa exibiu um motor Rotax 915 iS de edição limitada, especialmente projetado para o aniversário de 100 anos da BRP-Rotax em 2020, juntamente com o Rotax 912 iS Sport.
A Van’s Aircraft confirmou o lançamento do RV-15, um modelo asa alta de elevada performance. Embora não tenha detalhado características técnicas ou de desempenho, o fabricante garante que o modelo deverá atender às demandas de diversos entusiastas. “Embora o design esteja bastante avançado, ainda há algumas decisões que podemos tomar e vamos ouvir a opinião das pessoas, algo muito valioso para nós”, disse Greg Hughes, vice-presidente e diretor de operações da Van's Aircraft. “Ainda temos refinamentos de projeto nos quais nossa equipe de engenharia está trabalhando e, quando você muda uma coisa em um avião, muitas outras coisas podem mudar... então, não queremos prometer nada ao público”.
Pela primeira vez, Oshkosh registrou a presença de veículos aéreos de decolagem e pouso verticais, os chamados eVTOL. O Volocopter 2X realizou sua primeira decolagem pública nos Estados Unidos, voando por quatro minutos a 164 pés a uma velocidade média de 28 quilômetros por hora.
Os visitantes do evento puderam assistir às exibições do Volocopter 2X e experimentar o modelo VoloCity no estande da Volocopter. “Conduzir com sucesso o primeiro voo de teste público nos Estados Unidos feito por uma empresa [especializada em] eVTOL é um marco para a indústria e um lembrete de que nosso lançamento comercial está se aproximando rapidamente”, destacou Florian Reuter, CEO da Volocopter. Berço da aviação experimental, a Oshkosh tem tradição em demonstrações de tecnologias avançadas em aviação.
“A AirVenture é um paraíso para entusiastas e especialistas, que abraçam o espírito pioneiro da aviação, e o voo do Volocopter entrará para os livros de história”, disse Rick Larsen, vice-presidente da EAA.
O Opener BlackFly, um ultraleve monoposto eVTOL, reforçou o conceito de aviação eletrificada para o futuro, fazendo demonstrações ao público. Projetado em Toronto, no Canadá, o modelo traz traços curiosos, especialmente por seu design único e dotado de múltiplos motores elétricos, assim como o Volocopter, que se vale de diversos rotores para sustentar o voo com baixo peso e elevada potência.
O ultraleve canadense foi projetado já dentro do regulamento FAR Part 103, para aeronaves totalmente elétricas. O BlackFly tem velocidade de cruzeiro de até 100 quilômetros por hora. Ao longo da campanha de ensaios, o modelo voou mais de 35 mil milhas náuticas em diversos regimes de operação. A expectativa é que sejam vendidas, em breve, 25 aeronaves, que terá um preço semelhante ao de um utilitário esportivo (SUV) nos Estados Unidos. “Este é o espírito de Oshkosh, dando aos nossos visitantes a chance de experimentar verdadeiros pioneiros, que mudarão a aviação para sempre, bem aqui”, acrescentou Rick Larsen, da EAA.
Ainda sobre aeronaves com capacidade de pouso e decolagem vertical, o Comando de Operações Especiais da Força Aérea dos EUA (AFSOC) levou para o evento da EAA dois CV-22 Osprey, a versão de combate do famoso tiltrotor. Questionada por vários anos, por seus desafios técnicos e elevado custo, a tecnologia parece, finalmente, ter encontrado um ponto de equilíbrio, devendo ser a base de novos programas militares de asas rotativas dos Estados Unidos, além de programas civis.
No campo civil, o AW609 ainda enfrenta uma série de desafios, que a italiana Leonardo espera resolver no curto prazo, após mais de vinte anos do início do projeto. Já na área militar os CV-22 se mostraram importantes nas últimas campanhas norte-americanas no Iraque e no Afeganistão.
Além do CV-22 Osprey, o AFSOC levou para Oshkosh parte de seu vasto arsenal especializado, como os AC-130J Ghostrider, MC-130J Commando II, EC-130J Commando Solo, U-28A Draco, C-145A Combat Coyote, C-146A Wolfhound e MC-12W Liberty. Ainda esteve presente o drone MQ-9 Reaper, que se tornou uma das mais mortíferas e polêmicas armas da guerra moderna.

Alguns warbirds raros marcaram presença em Oshkosh. É comum ver no Wittman Field dezenas de T-6 Texan, T-28 Trojan, A-1 Skyraiders, P-51 Mustang, diversos B-25 Mitchell, um par de B-17 Flying Fortress e outro de B-29 Superfortress. Mas existem modelos ainda mais raros, seja por sua versão específica ou por ser o único do tipo existente.
A edição 2021 contou com a presença de parte do acervo do Fagen Fighters WWII Museum, que incluiu os recém-restaurados Grumman F6F-5 Hellcat, bem como um Lockheed P-38L Lightning e um Curtiss P-40K Warhawk. Associações e museus, como o Air Force Heritage Flight Foundation, que mantêm acervos em condição de voo, são presença constante em eventos aeronáuticos nos Estados Unidos.
Ainda pousaram em Oshkosh os warbirds Grumman F4F-3 Wildcat (Lewis Air Legends), Supermarine Spitfire (Dakota Territory Air Museum) e Hawker Hurricane (Dakota Territory Air Museum). Um Douglas SBD Dauntless recuperado do Lago Michigan estava exposto e deverá ser restaurado. Isso sem contar a presença de jatos do pós-guerra, como o T-33, o F-86, entre outros.
Um alerta de tempestade deixou a organização do AirVenture preocupada, ao ponto de cancelar todos os eventos programados para após às 17h e emitir um boletim para os pilotos que haviam ido para Oshkosh com suas aeronaves. Uma partida em massa ocorreu na sequência, esvaziando parte do evento. Felizmente, o alerta não passou de uma possibilidade e nenhum grande temporal atingiu a região. Ainda que anualmente ocorram chuvas torrenciais no estado de Wisconsin, quase nunca são fortes o bastante para causar grandes danos, como era previsto no alerta meteorológico.
Para os entusiastas da aviação geral, chegadas em massa são uma tradição no AirVenture, com comunicados mostrando os horários previstos de cada modelo para deixar o aeroporto. Por exemplo, no dia 24 de julho, a programação previa, às 10 horas, a chegada de 40 a 50 aviões Piper Cherokees, às 11h30, entre 50 e 60 modelos Mooney, enquanto, às 13h, deveriam chegar entre 75 e 90 Beechcraft Bonanza e, às 14h30, entre 90 e 100 aviões da Cessna.
É um espetáculo à parte assistir a dezenas de aeronaves do mesmo fabricante chegando com um intervalo médio de dois minutos entre uma e outro. Nas partidas, sempre no final da tarde, é possível acompanhar a decolagem de uma ou duas centenas de aviões com intervalos entre 20 e 30 segundos, em um mix de modelos que vão de jatos como Learjet 35 até experimentais projetados pelo próprio piloto.
Em 2021, a AirVenture deixa uma marca na história de AERO Magazine, que teve a correspondente prodígio Taylor Peeff, de apenas 13 anos de idade. Com a devida autorização dos pais, ela foi a responsável por essa ampla cobertura do encontro em um trabalho digno de repórter experiente. A jovem menina encantou o mundo ao estrelar, aos dez anos de idade, uma campanha institucional da cargueira UPS, revelando seu sonho de ser piloto de avião.
Dentro das bases da EAA, o ensino e o incentivo a novas gerações são fundamentais para o desenvolvimento não apenas da associação, mas de todo o universo da aviação e espaço. Além de apoiar e incentivar nossa repórter-mirim, a EAA ainda promoveu seus tradicionais encontros e programas para jovens e educadores.
No dia 30 de julho, que é o dia dos professores nos Estados Unidos, a AirVenture celebrou a data com uma série de atividades que incentiva educadores a participar de seminários e buscar novas ideias e atividades sobre a incorporação dos conceitos aeroespaciais na sala de aula. “O Dia do Professor já acontece há muitos anos aqui na EAA e se tornou um grande evento para os educadores se reunirem e levar as atividades de aviação de volta para a sala de aula”, disse Cassie Cobb, educadora do museu da EAA. “Queremos que os professores tragam algo novo para a sala de aula e aproveitem o dia na maior celebração da aviação do mundo”.
Por Taylor Peeff*
Publicado em 31/07/2021, às 17h00
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