Falhas de segurança, cooptação interna e entraves institucionais mantêm o aeroporto internacional de São Paulo na rota da cocaína para a Europa

Nas últimas semanas, a chegada a Frankfurt deixou ser o final de uma viagem, para ser o início de um processo de inspeção relacionado as preocupações com o tráfico internacional de drogas. Em alguns voos, passageiros permaneceram por até 4h30 à espera de liberação, submetidos a uma checagem ampliada pelas autoridades alemãs após a apreensão, no início de abril, de mais de 120 quilos de cocaína em ao menos três malas desacompanhadas, em um voo da Latam.
Segundo relatos, após identificar o conteúdo das malas, a polícia alemã manteve as bagagens na esteira de restituição, à espera de eventual contato do responsável pelo transporte em Frankfurt. Como ninguém se apresentou, o material foi apreendido.
A investigação apontou que o nome registrado na etiqueta da bagagem correspondia a uma pessoa que não embarcou no voo, levantando a hipótese de uso de uma identidade falsa, de um passageiro “fantasma”. O caso amplia a preocupação para além do tráfico de drogas, ao expor uma possível falha em procedimentos de segurança, incluindo protocolos antiterrorismo. Desde então, as autoridades alemãs iniciaram um processo rigoroso de verificação de passageiros procedentes do Brasil.
No início de abril viajantes passaram a ser identificados individualmente, com apresentação de passaporte e, em alguns casos, questionamentos sobre a bagagem despachada e seu conteúdo. A medida expõe uma preocupação crescente na Europa com o fluxo internacional de drogas que parte do Brasil, em especial do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
A apreensão não ganhou repercussão, mas representa mais um caso de tráfico internacional de drogas tendo como origem o maior aeroporto brasileiro e expõe, de forma concentrada, um problema mais amplo e persistente: a combinação entre vulnerabilidades físicas no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, infiltração de organizações criminosas na rotina operacional do terminal e fragmentação institucional entre os órgãos responsáveis pela fiscalização e pela segurança.
Em um dos principais hubs aéreos da América Latina, o desafio deixou de ser apenas identificar passageiros suspeitos. Tornou-se, cada vez mais, conter uma engrenagem logística criminosa que se adapta às brechas do sistema aeroportuário e abastece o mercado europeu de cocaína.
A carga apreendida na Alemanha, após preparo, fracionamento e distribuição nas ruas da Europa, pode alcançar valor superior a 8 milhões de euros. O caso reforça o poder econômico do tráfico e a centralidade de Guarulhos nas rotas de exportação de cocaína a partir do Brasil, em especial pela escala de sua malha doméstica e internacional, que amplia opções de conexão, dilui riscos operacionais para o crime organizado e dificulta a identificação de padrões em meio ao elevado volume diário de passageiros, bagagens e cargas.
Nos últimos anos, o aeroporto passou a figurar de maneira recorrente em investigações, apreensões e episódios que apontam para o uso do sítio aeroportuário como entreposto logístico do narcotráfico. Parte dessa condição decorre de sua própria configuração física. A ampla extensão do perímetro do terreno, a proximidade com áreas urbanas complexas e zonas de influência do crime organizado, além da multiplicidade de acessos e fluxos operacionais, ampliam as áreas de vulnerabilidade.
Mesmo com atuação coordenada entre Receita Federal, Polícia Federal e concessionária, autoridades reconhecem que o sistema convive com fragilidades exploradas de forma contínua por grupos criminosos.
A Receita Federal, responsável pela área alfandegada do aeroporto, atua em cooperação com outros órgãos de segurança e com a concessionária GRU Airport, mas enfrenta desafios permanentes para conter a infiltração de drogas em volumes cada vez mais sofisticados. Em conversa com à AERO Magazine, o delegado da Receita Federal Emanuel Henrique Boschetti afirmou que parte do problema está em vulnerabilidades físicas do próprio aeroporto.
Segundo ele, traficantes conseguem abrir buracos discretos em cercas do sítio aeroportuário e transpor grandes quantidades de entorpecentes por áreas afastadas dos canais convencionais de fiscalização, como o terminal de cargas e os sistemas de inspeção por raio X. “Estamos constantemente monitorando e realizando operações [no sítio aeroportuário]”, afirmou Boschetti.
Embora conte com ações preventivas e ostensivas da Receita Federal e da Polícia Federal, e as áreas de terminais de passageiros, cargas e pátios tenham cobertura mais robusta, o perímetro do aeroporto não é integralmente monitorado. De acordo com apuração da reportagem, a ampliação desse sistema esbarra também em limitações contratuais. O contrato de concessão não teria previsto, com o grau de detalhamento hoje considerado necessário, investimentos adicionais dessa natureza, o que exigiria reequilíbrio contratual entre a concessionária e a União. O quadro é ainda influenciado pela estrutura societária do aeroporto, da qual a Infraero permanece como sócia com 49% do capital.
A GRU Airport não comentou sobre a questão contratual, afirmando apenas que mantém investimentos em segurança e que disponibiliza equipamentos e áreas de inspeção, cuja operação cabe às autoridades competentes, como a Polícia Federal e a Receita Federal.

O alto valor da cocaína no mercado europeu também amplia o risco de cooptação de funcionários que atuam no aeroporto. Segundo Boschetti, o monitoramento da Receita Federal já identificou, por exemplo, a participação de empregados do raio X em esquemas para liberar malas contendo drogas no fluxo regular de passageiros. “Enquanto a mala passava, o fiscal fingia não ver, mas estávamos monitorando e conseguimos identificar esses casos”, disse.
Outras ocorrências já detectadas pelas autoridades envolveram funcionários da limpeza utilizando carrinhos com fundos falsos para levar drogas até áreas restritas. Pelo porte do equipamento, é possível ocultar com relativa eficiência volumes de até cinco quilos, posteriormente entregues a passageiros no terminal internacional.
Ao embarcar com uma mala com conteúdo lícito, o traficante recebia, no banheiro da sala VIP, uma mala idêntica, mas com uma carga de droga. Assim, a mala original, que passou pelo Raio-X era colocada no carrinho de limpeza, enquanto a nova, com droga, passava despercebida pelas câmeras de vigilância e conseguia acessar sem contratempos os voos internacionais. Apenas após investigação da Receita Federal que o esquema foi desarticulado, mas mostra a flexibilidade do crime e as brechas ainda existentes na segurança do maior aeroporto do Brasil.
Para remessas menores, normalmente transportadas por passageiros em malas de mão ou em bagagens despachadas, com cargas de drogas com poucos quilos, a Receita conta com um sistema de inteligência considerado robusto. O foco recai principalmente sobre o perfil do viajante, em especial pessoas com pouca ou nenhuma experiência internacional, atraídas por pagamentos que podem chegar a R$ 30 mil por viagem.
De acordo com Boschetti, os sistemas permitem cruzar informações como renda, local de residência e valor pago na passagem aérea. “Uma pessoa que compra uma passagem de última hora paga valores elevados, muitas vezes não condizentes com a renda”, explicou. “Uma das vantagens é a Receita ser um órgão de alfandega e fiscal, o que oferece capacidade de cruzar dados”.
Em Guarulhos, de mais aeroportos internacionais no Brasil, a atuação da Receita Federal não se restringe à fiscalização de drogas ou bagagens suspeitas. Por ser um aeroporto alfandegado, GRU é tratado como ponto de fronteira, onde o controle aduaneiro envolve a proteção da soberania nacional sobre tudo o que entra e sai do país.
Esse modelo de triagem, segundo a Receita, tem alta taxa de eficiência e permite identificar com frequência viagens suspeitas de ida e volta. O sistema já recebeu elogios de autoridades internacionais. O problema, porém, é que os carregamentos de maior porte, como o apreendido em Frankfurt, tendem a seguir outra lógica operacional, apoiada em falhas perimetrais e em redes internas de cooptação.
O aliciamento de funcionários é um dos maiores entraves da segurança, envolvendo inclusive pessoal com acesso as aeronaves. A Latam afirmou, em nota, que “está sempre à disposição das autoridades para colaborar com qualquer investigação”.
Em nota, a GRU Airport afirmou que os detalhes dos processos de segurança são de responsabilidade dos órgãos oficiais. Segundo a concessionária, a fiscalização cabe “à Receita Federal e à Polícia Federal, que são os responsáveis pela fiscalização de segurança das cargas junto com as companhias aéreas, que fazem todo o manejo e transporte”.
Além das falhas físicas e da infiltração criminosa, autoridades ouvidas pela reportagem apontam entraves institucionais. Um delegado federal, sob condição de anonimato, afirmou que a própria estrutura burocrática do Estado pode dificultar a repressão ao narcotráfico no ambiente aeroportuário.
A Segurança da Aviação Civil contra Atos de Interferência Ilícita (AVSEC) é de responsabilidade da Polícia Federal, mas compartilhada por todos os órgãos públicos conforme consta no Programa Nacional de Segurança da Aviação Civil (PNAVSEC).
No aeroporto, a Receita Federal exerce a autoridade aduaneira, enquanto a Polícia Federal responde pela supervisão da segurança aeroportuária, inclusive em Áreas Restritas de Segurança, além de atuar como policia judiciária, que investiga os crimes de competência federal que ocorrem nessas áreas. Na prática, a PF atua na esfera policial e criminal, enquanto a Receita opera nas frentes aduaneira, fiscal e administrativa. Em ocorrências como tráfico de drogas, contrabando e descaminho, as atribuições são paralelas e complementares.
"No caso de tráfico internacional por exemplo, comunicamos a Polícia Federal, que é quem detém o poder de polícia judiciária para instaurar o inquérito e, a partir dali, seguir com as investigações", explica Boschetti.
A base legal dessa divisão está na própria Constituição, que atribui à Polícia Federal a repressão a esses ilícitos “sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência”. Já a Receita responde por retenção, fiscalização, lançamento tributário, aplicação de multas, perdimento e controle aduaneiro, tendo inclusive poder requisitório perante outros orgãos da administração pública no exercício de suas atribuições.
A segurança aduaneira busca garantir a proteção e segurança, coibindo a entrada ou saída do território nacional de bens proíbidos, inclusive aqueles que podem colocar em risco a soberania nacional em diversos aspectos. "Por exemplo, se busca coibir desde a entrada de uma bomba que poderia ser utilizada em um ato terrorista, até mercadorias irregulares que podem colocar em risco a saúde de usuários, como drogas, medicamentos, entre outros", diz Boschetti.
Fora do ambiente aeroportuário, a atuação passa às forças subordinadas às secretarias estaduais de segurança pública. Segundo um delegado da Polícia Civil ouvido pela reportagem, que pediu anonimato, essa segmentação institucional nem sempre se traduz em fluxo eficiente de inteligência. “Não necessariamente as inteligências dos respectivos órgãos conseguem fazer um intercâmbio de dados, represando informações pela própria estrutura burocrática”, afirmou.
Todavia, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, afirma que são realizadas ações conjuntas com a Polícia Federal, por meio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, além de operações com o Ministério Público.
“As estratégias envolvem o fortalecimento das atividades de inteligência e investigação, com foco na identificação e desarticulação de organizações criminosas, mapeamento de rotas logísticas e localização de pontos de armazenamento e distribuição. Essas ações ocorrem tanto no ambiente aeroportuário quanto em etapas anteriores, como o monitoramento de redes criminosas, transporte e financiamento do tráfico”, afirmou a pasta.
Na Europa, a resposta ao avanço do tráfico em voos vindos da América do Sul tem incluído reforço na inspeção de bagagens despachadas e conferência individual de documentos e passageiros ainda na porta da aeronave. A preocupação é alimentada por casos anteriores que revelaram a sofisticação das redes criminosas atuando em Guarulhos.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu no início de 2023, quando duas brasileiras foram presas por tráfico internacional de drogas após terem suas malas substituídas por bagagens contaminadas, supostamente por funcionários ligados ao aeroporto ou à operação aérea. Enquanto as duas viajantes alegavam inocência e permaneciam detidas em um presídio feminino em Frankfurt, autoridades brasileiras e alemãs investigavam a origem das drogas.
A investigação apontou a atuação de uma rede criminosa que trocava malas ou inseria conteúdo ilícito já dentro do aeroporto. O caso evidenciou uma questão que permanece sem resposta definitiva. Como cerca de 40 quilos de drogas conseguiram ingressar na área restrita de Guarulhos, ser manipulados e incorporados ao fluxo regular de bagagens despachadas sem detecção prévia. Após serem inocentadas pelas autoridades da Alemanha, as brasileiras seguem buscando esclarecimento para o caso.
A apreensão em Frankfurt mostra que o narcotráfico segue operando com capacidade de adaptação e investimento, mesmo diante de sistemas de inteligência considerados avançados. Também indica que a resposta estatal, para ser efetiva, não pode se limitar à interceptação pontual de passageiros ou bagagens. O problema, em Guarulhos, é mais profundo, pois, envolve desenho institucional, governança da concessão, proteção do perímetro, controle de acesso, renovação tecnológica e integração real entre os órgãos que compartilham a responsabilidade sobre o aeroporto.
O despacho de bagagem não acompanhada é regulado pelo Anexo 17 da ICAO, agência da ONU que regulamenta a aviação civil internacional. A norma estabelece que, quando o passageiro não está a bordo, a bagagem deve ser classificada como não acompanhada — situação que pode ocorrer, por exemplo, no envio posterior de volumes extraviados ao destino final.
Nesses casos, a mala só pode seguir em um voo se estiver devidamente identificada, inspecionada conforme o padrão de segurança aplicável, protegida contra interferência externa e formalmente autorizada para embarque naquele voo específico. Se esses requisitos não forem comprovados, a bagagem deve ser removida e submetida aos controles de segurança previstos. A preocupação vai além do tráfico de drogas, armas ou vida silvestre, inclui também o risco de uso da bagagem em atos de terrorismo.
Lei abaixo a íntegra das notas referente a apuração:
GRU AIRPORT
Recomendamos que para mais detalhes dessa operação de segurança, você entre em contato com as assessorias de imprensa da Receita Federal e da Polícia Federal, que são os responsáveis pela fiscalização de segurança das cargas junto com as Cias. Aéreas, que fazem todo o manejo e transporte.
LATAM Brasil
A LATAM está sempre à disposição das autoridades para colaborar com qualquer investigação.
SECRETÁRIA DE SEGURANÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO
A Secretaria da Segurança Pública informa que o enfrentamento ao tráfico internacional de drogas, inclusive com utilização do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, é realizado por meio de ações integradas entre as Polícias Civil, Militar e Técnico-Científica, com apoio de órgãos federais e instituições parceiras.
As estratégias envolvem o fortalecimento das atividades de inteligência e investigação, com foco na identificação e desarticulação de organizações criminosas, mapeamento de rotas logísticas e localização de pontos de armazenamento e distribuição. Essas ações ocorrem tanto no ambiente aeroportuário quanto em etapas anteriores, como o monitoramento de redes criminosas, transporte e financiamento do tráfico.
A pasta tem ampliado o uso de recursos tecnológicos e operacionais, com investimentos em inteligência policial, integração de bases de dados, análise de padrões e atuação coordenada entre diferentes forças de segurança. Também são realizadas ações conjuntas com a Polícia Federal, por meio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO), além de operações com o Ministério Público.
Desde o início da atual gestão, foram apreendidas mais de 708 toneladas de drogas no estado, gerando um prejuízo estimado em mais de R$ 3,2 bilhões ao crime organizado. No mesmo período, mais de 644 mil infratores foram detidos, sendo cerca de 245 mil procurados pela Justiça. Também foram apreendidas mais de 42 mil armas de fogo, incluindo 709 fuzis.
Ainda na gestão, mais de R$ 1,7 bilhão foi destinado ao fortalecimento das ações de combate ao crime organizado, com investimentos em viaturas, armamentos, equipamentos e tecnologia para as forças de segurança, reforçando a capacidade de prevenção e repressão qualificada a esse tipo de crime.
Por Edmundo Ubiratan
Publicado em 27/04/2026, às 09h00
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