Um apanhado de projetos de aeronaves curiosas que surgiram com objetivos específicos, mas que marcaram mesmo por seu visual estranho
Não se assuste com os aviões de aparência – no mínimo – duvidosas que apresentamos abaixo. Cercados de otimismo quanto a sua aceitação para missões específicas, eles foram projetados com o objetivo de atender a ações militares ou ao mercado de defesa nacional.
O clima de urgência, a ameaça da concorrência e a ausência de recursos tecnológicos e conhecimentos específicos mais avançados na época acabou resultando nestas soluções irreais que surgiram antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Raramente expostos em museus, os modelos apresentados abaixo fazem parte de um número muito maior de aeronaves pouco convencionais, mas que tiveram seu motivo de ser.
O Stipa-Caproni foi um avião experimental italiano criado em 1932 pelo engenheiro Luigi Stipa e construído pela lendária Caproni. Seu design inovador incluía uma fuselagem tubular que encapsulava o motor e hélice, funcionando como um grande ventilador duto para melhorar a eficiência aerodinâmica.
Embora proporcionasse maior estabilidade e eficiência, o formato gerava elevado arrasto, limitando sua velocidade a 130 km/h. Por isso, a Regia Aeronautica (Força Aérea da Itália) não avançou com o projeto. No entanto, sua concepção influenciou o desenvolvimento dos motores turbofan modernos.
O Vought V-173, desenvolvido em 1942, foi um avião experimental norte-americano com um design até então inovador de "asa voadora, mas que lembrava mais uma panqueca devido ao seu formato incomum. Criado por Charles H. Zimmerman, o V-173 visava testar um conceito de aeronave de decolagem curta e alta manobrabilidade.
Sua fuselagem era praticamente toda composta por uma asa circular, com hélices montadas nas extremidades para melhorar a sustentação e reduzir a necessidade de longas pistas de decolagem. Apesar do desempenho promissor, o conceito não avançou para produção em larga escala, mas influenciou o caça Vought XF5U, que também não passou de protótipo e era, digamos, estranho.
O Blohm & Voss BV-141 foi uma aeronave de reconhecimento tática alemã desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial por Richard Vogt. Seu design assimétrico incomum foi criado para garantir máxima visibilidade e eficiência como avião de reconhecimento. Ao posicionar a cabine separada a aeronave oferecia um campo de visão desobstruído para os observadores e artilheiros.
Apesar de ter um desempenho satisfatório e boa visibilidade, o BV-141 teve aproximadamente 28 aviões produzidos, principalmente devido a problemas de disponibilidade dos motores BMW 801 e à preferência da Luftwaffe pelo Focke-Wulf Fw 189.
O Douglas XB-42 Mixmaster foi avião experimental desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial para avaliar sua capacidade como bombardeiro. Seu design inovador buscava alcançar alta velocidade e eficiência, diferenciando-se dos bombardeiros convencionais da época.
A principal característica do XB-42 era sua configuração push, com as hélices montadas na cauda e acionadas por dois motores Allison V-1710 instalados dentro da fuselagem. Isso reduzia o arrasto aerodinâmico, permitindo uma velocidade máxima de cerca de 660 km/h, superior à dos bombardeiros convencionais da época.
Apesar do bom desempenho, a chegada dos motores a jato tornou o conceito obsoleto, e no final, nesta lista nem chega ser realmente estranho.
Libellula foi uma série de projetos experimentais britânicos desenvolvidos durante a Segunda Guerra Mundial pelo engenheiro Leslie Baynes. Seu nome, que significa "libélula" em latim, fazia referência ao design inovador de asas em tandem (duas asas principais, uma à frente e outra atrás). Foram construídos alguns protótipos, como o M.39B Libellula, por diversas razões o conceito não foi adotado operacionalmente.
O North American F-82 Twin Mustang (originalmente P-82) foi um caça de longo alcance desenvolvido pelos Estados Unidos no final da Segunda Guerra Mundial. Era essencialmente formado por duas fuselagens de P-51 Mustang unidas por uma asa central, permitindo maior autonomia e estabilidade para escoltar bombardeiros em missões de longa distância.
Projetado para substituir o P-51D Mustang, seu design incomum possibilitava uma tripulação de dois pilotos, garantindo operações contínuas em missões longas. Apesar de ter sido desenvolvido tarde demais para a Segunda Guerra Mundial, o F-82 serviu na Guerra da Coreia, onde obteve a primeira vitória aérea do conflito. Com a chegada dos jatos, o modelo foi rapidamente aposentado. Até que nem era tão estranho.
O Northrop XB-35 foi um bombardeiro experimental dos Estados Unidos desenvolvido na década de 1940 com um design de asa voadora, sem fuselagem convencional ou cauda. Criado pela Northrop Corporation, o XB-35 visava aumentar a eficiência aerodinâmica e a capacidade de carga útil, reduzindo o arrasto e melhorando o alcance.
O avião era equipado com quatro motores a pistão Pratt & Whitney R-4360, que acionavam hélices contrarrotativas. No entanto, problemas mecânicos com as hélices e dificuldades de controle atrasaram o projeto.
Embora o XB-35 nunca tenha entrado em produção, seu conceito influenciou diretamente o desenvolvimento do YB-49, uma versão com motores a jato, e, décadas depois, o moderno bombardeiro furtivo B-2 Spirit. Esse último não chega ser estranho, só bilionário, com custo unitário acima de US$ 2 bilhões, a unidade.
O McDonnell XF-85 Goblin foi um caça experimental ultracompacto desenvolvido pelos Estados Unidos no final da década de 1940. Projetado para ser um "caça parasita", ele seria transportado dentro do compartimento de bombas de bombardeiros pesados, como o Convair B-36, e lançado em voo para protegê-los de caças inimigos.
Com um design incomum, o XF-85 não tinha trem de pouso convencional, dependendo de um sistema de gancho para se acoplar de volta ao bombardeiro-mãe após a missão. Durante os testes, porém, os pilotos tiveram grande dificuldade em realizar o acoplamento, tornando o conceito impraticável.
O Snecma C-450 Coléoptère foi um avião experimental francês desenvolvido nos anos 1950 para testar um conceito de decolagem e pouso vertical (VTOL) com um design em forma de cilindro. Seu nome, Coléoptère (besouro, em francês), fazia referência à sua aparência incomum.
Projetado pela Snecma, ele tinha um design anelar, onde a fuselagem central era cercada por uma grande hélice duto movida por um motor Turbomeca Artouste, permitindo decolagem e pouso na vertical. Após alguns testes promissores, o projeto foi cancelado em 1959, quando o único protótipo caiu durante um voo de transição entre o modo vertical e horizontal. O conceito não foi levado adiante, mas ajudou a explorar tecnologias VTOL para futuros projetos.
O Avro Canada VZ-9 Avrocar foi um projeto experimental desenvolvido nos anos 1950 com o objetivo de criar uma aeronave de decolagem e pouso vertical (VTOL) com formato de disco voador. Fazia parte de pesquisas para desenvolver um caça de alta mobilidade durante a Guerra Fria.
O Avrocar utilizava um sistema de sustentação baseado em um "ventilador turbo", que gerava um colchão de ar para flutuar a baixas altitudes. No entanto, problemas de estabilidade e controle impediram que ele atingisse o desempenho esperado. Durante os testes, a aeronave era instável e não conseguia voar acima de poucos metros do solo. Ao menos, deixou de legado a lenda dos disco voadores alienígenas.
O Lippisch Aerodyne foi um conceito inovador de aeronave VTOL (decolagem e pouso vertical) desenvolvido pelo engenheiro alemão Alexander Lippisch na década de 1960. Ele fazia parte de pesquisas avançadas sobre aeronaves sem asas tradicionais, voltadas para aplicações militares e civis.
Utilizava um sistema de sustentação baseado em dutos propulsores, onde o empuxo gerado por um motor era canalizado para criar sustentação e controle direcional. Esse design eliminava a necessidade de superfícies aerodinâmicas convencionais, como asas e cauda. Embora tenha demonstrado viabilidade em testes em escala reduzida, o conceito nunca foi desenvolvido em tamanho real.
O Bartini Beriev VVA-14 foi uma aeronave experimental soviética desenvolvida nos anos 1970 para operar como um ekranoplano (veículo de efeito solo) e avião de decolagem e pouso vertical (VTOL). Projetado pelo engenheiro Robert Bartini e construído pela Beriev, ele tinha como objetivo detectar e destruir submarinos nucleares da OTAN.
Seu design inovador permitia operar tanto como um avião convencional quanto como um ekranoplano, voando próximo à superfície da água para aproveitar a sustentação extra do efeito solo. O VVA-14 foi projetado para usar motores de sustentação para decolagem vertical, mas esses motores nunca foram instalados totalmente, limitando seus testes. Após a morte de Bartini em 1974, o projeto foi abandonado.
O Grumman X-29 foi um avião experimental desenvolvido nos anos 1980 pela NASA e pela Força Aérea dos Estados Unidos para testar o conceito de asas enflechadas de enflechamento negativo (forward-swept wings). Esse design inovador proporcionava maior manobrabilidade e controle em ângulos de ataque elevados, algo essencial para caças de alto desempenho.
Os testes entre 1984 e 1991 mostraram que o conceito era viável, mas não foi adotado em aeronaves de combate devido aos custos e e à chegada de novas tecnologias furtivas. O X-29, no entanto, influenciou futuros projetos de caças avançados.
O McDonnell Douglas X-36 foi um avião experimental sem cauda desenvolvido nos anos 1990 para testar conceitos avançados de manobrabilidade e furtividade. Criado pela NASA e pela McDonnell Douglas, ele era uma aeronave não tripulada, em escala reduzida (28% do tamanho de um caça real), projetada para avaliar o desempenho de um caça furtivo altamente ágil sem a necessidade de superfícies de controle tradicionais, como lemes e estabilizadores verticais.
Embora nunca tenha sido produzido em escala real, suas tecnologias influenciaram o desenvolvimento de aeronaves modernas, como o F-22 Raptor e o F-35 Lightning II.
O Ames-Dryden AD-1 foi uma aeronave experimental desenvolvida pela NASA no final dos anos 1970 para testar um conceito inovador de asa oblíqua. Embora não tenha sido parte do seleto X-Planes, o AD-1 era bastante ousado. A asa podia girar em até 60 graus, mudando sua orientação em voo para reduzir o arrasto aerodinâmico e aumentar a eficiência em altas velocidades.
Os testes, realizados entre 1979 e 1982, mostraram que o conceito era viável, mas também revelaram desafios de controle e estabilidade, especialmente em ângulos extremos. O AD-1 ajudou a ampliar o conhecimento sobre aerodinâmica de asas oblíquas.
O Scaled Composites Model 281 Proteus é uma aeronave experimental de alta altitude e longa duração desenvolvida pela Scaled Composites. O Proteus possui um design de asa dupla em tandem, com fuselagem esguia e motores turbofan montados sob as asas.
O objetivo era testar a viabilidade de aeronaves para missões de vigilância, comunicação e pesquisa atmosférica em grandes altitudes, podendo voar acima de 19.800 metros (65.000 pés) por longos períodos. Ele também foi usado como plataforma de testes para novas tecnologias aeroespaciais.
Seu design serviu de base para projetos como o Virgin Atlantic GlobalFlyer e influenciou a criação do Stratolaunch, maior avião do mundo em envergadura. Da lista é o único ainda em operação, realizando pesquisas científicas e tecnológicas.
Ernesto Klotzel
Publicado em 06/09/2016, às 14h15 - Atualizado em 10/02/2025, às 18h00
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