De aves de rapina a entidades sobrenaturais, descubra como o sistema de nomenclatura militar serve para explicar, confundir e até mesmo obter orçamentos

A aviação militar dos EUA adota, desde a Segunda Guerra, um sistema duplo de nomenclatura que combina designações técnicas com nomes de batismo e codinomes. Esses nomes raramente descrevem a missão real das aeronaves: servem para identificação administrativa, padronização, marketing institucional e ambiguidade deliberada. Mais simbólicos do que técnicos, refletem cultura, tradição e contexto histórico.
A aviação militar dos Estados Unidos desenvolveu, ao longo da história, um sistema duplo de nomenclatura: de um lado, designações formais — letras e números que indicam missão e projeto — e, de outro, nomes de batismo e codinomes, que cumprem funções institucionais, culturais e operacionais. Esses nomes raramente explicam o que a aeronave faz. Em muitos casos, existem para identificar, padronizar e ocultar, não para descrever.
O uso sistemático de nomes e codinomes se consolidou durante a Segunda Guerra Mundial, quando o volume de novos projetos cresceu rapidamente e a necessidade de comunicação clara — interna e pública — se tornou evidente. A partir desse período, praticamente todas as aeronaves militares norte-americanas passaram a receber um nome próprio, ainda que esse nome tivesse pouco valor técnico.
Ao mesmo tempo, programas sensíveis começaram a adotar codenomes abstratos, dissociados de suas capacidades reais, como parte de práticas de segurança operacional (operational security, OPSEC).
Alguns codinomes — como Compass Call, Rivet Joint, Have Glass e Pave Low — não são nomes de aeronaves no sentido clássico, mas identificadores institucionais de programas, sistemas ou capacidades. Eles servem principalmente a três funções:
Identificação administrativa, permitindo distinguir projetos e linhas de desenvolvimento;
Padronização, especialmente em programas conjuntos entre forças;
Ambiguidade deliberada, evitando que o nome revele missão, emprego ou nível tecnológico.
O Compass Call, por exemplo, identifica o sistema aéreo de ataque eletrônico da Força Aérea dos Estados Unidos (USAF, na sigla em inglês) hoje associado ao EA-37B, mas o nome não descreve guerra eletrônica, interferência ou comunicações.
O mesmo vale para o Rivet Joint, ligado à inteligência de sinais, ou Have Glass, associado a tecnologias furtivas iniciais. São nomes que não significam algo literal, mas funcionam como rótulos internos consistentes ao longo do tempo.

Já os nomes de batismo públicos seguem outra lógica. Muitos foram pensados com algum apelo de marketing institucional. Bombardeiros estratégicos como o B-17 Flying Fortress, o B-29 Superfortress, o B-47 Stratojet e o B-52 Stratofortress adotaram nomes que reforçavam ideias de poder, alcance e robustez, alinhadas à doutrina de bombardeio estratégico e à comunicação com o público e o meio político.
Ao longo da Guerra Fria, alguns fabricantes e programas adotaram convenções próprias de nomenclatura, o que resultou em batismos particularmente curiosos. O B-58 Hustler, primeiro bombardeiro supersônico operacional dos Estados Unidos, recebeu um nome que evocava velocidade e ousadia, mais próximo de uma construção de imagem do que de qualquer descrição técnica. Aliás, naquele contexto Hustler não tinha a carga pejorativa ou sexualizada que o termo adquiriu mais tarde, especialmente após o surgimento da revista masculina.
Já os caças da chamada Century Series — F-100 Super Sabre, F-101 Voodoo, F-102 Delta Dagger, F-104 Starfighter, F-105 Thunderchief e F-106 Delta Dart — misturaram termos técnicos, referências simbólicas e marketing institucional em um período de rápida evolução tecnológica, quando nomes ajudavam a diferenciar projetos em um ambiente altamente competitivo.
Nesse contexto, a McDonnell adotou deliberadamente uma linha de nomes com conotações sobrenaturais ou míticas, como Voodoo e Phantom II, estratégia que buscava criar identidade forte para seus caças em um mercado dominado por disputas entre fabricantes e por programas de curta duração, mesmo quando esses nomes pouco revelavam sobre o real papel operacional das aeronaves.

Entre os caças, tornou-se comum o uso de aves de rapina: F-15 Eagle, F-16 Fighting Falcon, F/A-18 Hornet e F-22 Raptor. A escolha cria uma identidade agressiva e facilmente reconhecível, mas não descreve sensores, envelopes de voo ou doutrina de emprego. Em alguns casos, o nome tem um mínimo de coerência simbólica — o F-16 Fighting Falcon, por exemplo, foi pensado como um caça ágil e leve —, mas isso não passa de associação conceitual.
Um ponto curioso, muitas vezes se associa o nome Raptor à popularização dos dinossauros no filme Jurassic Park, mas o termo significa literalmente ave de rapina, em referência direta à tradição militar dos Estados Unidos de batizar seus caças com nomes de predadores aéreos.

Há também nomes que fazem sentido apenas em retrospecto ou por tradição. O SR-71 Blackbird dialoga com sua coloração escura e seu perfil furtivo para a época, embora o nome seja mais poético do que técnico.
Assim como Nighthawk, um nome comum, em inglês, de uma ave de hábitos noturnos, silenciosa e discreta, embora não seja um falcão verdadeiro. No imaginário cultural, o termo passou a representar uma ave que tem hábitos noturnos, age sem ser percebida, move-se de forma furtiva e ataca sem aviso. Essas associações encaixavam-se perfeitamente na imagem que a USAF queria projetar para o F-117, primeira aeronave furtiva operacional do mundo.
O mesmo ocorreu com o B-2 Spirit, cujo nome foi escolhido dentro dessa lógica simbólica. Spirit remete a algo intangível, difícil de detectar e não facilmente delimitável, conceitos que dialogam com a ideia de uma aeronave capaz de atingir qualquer ponto do globo sem ser percebida.
Em outros casos, o nome carrega herança histórica. O A-10 Thunderbolt II resgata o nome do P-47 Thunderbolt da Segunda Guerra Mundial, não por semelhança técnica, mas como símbolo de resistência e ataque ao solo. Curiosamente, aqui o apelido acabou se alinhando à realidade: tanto o P-47 quanto o A-10 tornaram-se sinônimo de robustez e apoio aéreo aproximado, ainda que isso não fosse garantido pelo nome em si. Embora Thunderbolt na mitologia greco-romana seja o raio de Zeus/Júpiter, um símbolo de poder absoluto, ataque súbito e força destrutiva concentrada.
No transporte estratégico, os nomes tendem a soar grandiosos. O C-5 Galaxy e o C-17 Globemaster III evocam escala e alcance global, alinhados à missão de projeção logística da USAF. Ainda assim, são escolhas simbólicas: nada no nome Galaxy explica desempenho, alcance ou capacidade de carga, apenas sugere magnitude.

O nome Tomcat do F-14 não surgiu como uma escolha simbólica ou descritiva, mas a partir do próprio nome informal do programa que deu origem ao caça. Durante a fase de desenvolvimento, o avião foi conhecido como Tomcat — acrônimo de Tom Connolly Air Combat — em referência ao almirante Thomas “Tom” Connolly, figura central no Congresso dos Estados Unidos ao defender o financiamento do projeto frente a propostas alternativas. O apelido acabou sendo mantido como nome oficial da aeronave, mesmo após perder seu significado original como acrônimo.
Casos semelhantes ocorreram em outros programas nos quais nomes inicialmente internos ou administrativos foram adotados publicamente, transformando designações de bastidores em identidades operacionais. O F-111 Aardvark teve seu batismo originado como um apelido de bastidor, sem relação direta com missão ou desempenho, mas que acabou incorporado à designação pública da aeronave. Curiosamente, o nome só foi oficialmente incorporado ao avião no dia da sua aposentadoria.
De forma semelhante, o SR-71 Blackbird utilizava o nome ainda durante a fase de desenvolvimento para identificar a família de aeronaves derivadas do A-12, e o termo foi mantido quando o programa se tornou público.
Nesses exemplos, o batismo não buscava coerência simbólica com a missão ou desempenho da aeronave, mas refletia a trajetória política, institucional ou burocrática do programa, reforçando como muitos nomes na aviação militar dos EUA nasceram de circunstâncias práticas — e não de uma lógica técnica ou conceitual.
No conjunto, nomes e codinomes na USAF e na US Navy não existem para explicar aeronaves, mas para organizá-las dentro de uma estrutura institucional complexa, comunicar identidade e preservar ambiguidade. Em alguns casos, ajudam a criar narrativa, em outros, apenas identificam um programa.
Por Edmundo Ubiratan
Publicado em 28/01/2026, às 15h00
+lidas