Contradições da aviação brasileira

Crescimento do transporte aéreo aquece o mercado de pilotos, mas aumenta pressão sobre tripulantes e contribui para recordes de acidente do país

Da redação em 4 de Novembro de 2011 às 14:52

Sandro Poli
comandante de Boeing 737NG

Aqui do exterior tenho acompanhado a evolução da aviação comercial brasileira e observo o quão alucinante está seu ritmo de crescimento, acompanhando a boa fase da economia do país. De um lado, é muito bom para o mercado de pilotos, já que houve um aquecimento na oferta de empregos. Por outro lado, a disparada no número de voos vem pressionando a estrutura de setores ligados à infraestrutura aeroportuária, que hoje está defasada e pouco atende às necessidades operacionais e dos próprios passageiros. Também ouço que o Brasil sofre com a falta de controladores de voo mais bem-treinados, além de problema de estrutura, já que o país continua com falhas de comunicação, especialmente na região Norte. Não é por menos que a comunidade aeronáutica foi surpreendida com notícias alarmantes sobre o crescimento do número de acidentes aéreos. De acordo com o relatório de setembro do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o Brasil registrou um aumento de 60% no número de acidentes, sendo que nos oito primeiros meses de 2011, o país teve o pior desempenho dos últimos 10 anos. E os especialistas apontam falhas no preparo de novos pilotos e tráfego aéreo mais intenso no país como fatores contribuintes para o aumento no número de acidentes.

Outra notícia mal recebida pela comunidade aeronáutica é o projeto de se alterar a regulamentação dos tripulantes, subindo para 100 horas o período máximo de trabalho permitido no período de 30 dias, em vez das atuais 85 horas, e os limites de jornadas. Se a regulamentação for realmente alterada, o Brasil estará "remando contra a maré" e possivelmente haverá aumento ainda maior no número de acidentes aeronáuticos. No exterior, especialmente nos países nos quais as entidades internacionais trabalham incessantemente na busca da redução de acidentes e incidentes com aumento da segurança de voo, estuda-se a redução da jornada dos tripulantes, já que se percebeu que o estresse e a fadiga têm sido fatores contribuintes em diversas ocorrências.

Em recente reportagem exibida pela ABC News, os lounges onde os tripulantes costumam se apresentar para os voos, ou cumprir reservas, foram apelidados por "crash pads". Isso porque os pilotos têm chegado de uma programação exaustiva e em seguida são acionados para continuar em outros voos longos, mesmo que estejam com muito sono e com a linha de raciocínio abaixo da média desejável. Numa hora crítica ou de emergência, o tripulante deixa de pensar corretamente na sequência dos procedimentos previstos em sua rotina. Muitos tripulantes fizeram comentários off-the-record para a reportagem da ABC News dando conta de que não é difícil acontecer de tripulantes técnicos, exaustos por uma longa jornada, inserirem dados equivocados no computador de bordo, lerem erradamente instrumentos de navegação ou, ainda, interpretarem mensagens de rádio erroneamente - e mesmo deixar de escutá-las, porque o cérebro deixa de associar a mensagem do controle de tráfego aéreo ao número do voo que está executando. E não são poucas as ocorrências nas quais os tripulantes adormecem durante o voo e por sorte despertaram a tempo de realizar o pouso.

Subir para 100 horas o período de trabalho a cada 30 dias tende a aumentar estresse e fadiga de pilotos

O comandante Chesley "Sully" Sullenberger, que realizou um pouso de emergência com um Airbus A320 da US Airways sobre o rio Hudson, na área de Nova York, pronuncia-se sobre o assunto e diz que ele provavelmente não teria sucesso no procedimento e salvo 155 vidas se não tivesse descansado bem na noite anterior. Ele levanta a bandeira norte-americana contra a regulamentação aeronáutica que permite voos em excesso e menos horas para descanso. "A fadiga humana é um problema do mundo moderno e deve ser combatido de todas as maneiras, especialmente na aviação", ponderou Sully à ABC 


Nivel 350

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Airbus, Nova Rival da Embraer

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