AERO Magazine

Coisas do coisa ruim

Fantasmas, Demônios e Gnomos os nomes sobrenaturais dos caças da McDonnell

Com inspirações no outro mundo alguns caças se tornaram símbolos da Guerra Fria

Por Santiago Oliver | Fotos: Divulgação em 8 de Maio de 2019 às 19:00

McDonnell F3H DemonMcDonnell F3H Demon

A McDonnell se notabilizou por várias décadas por seus aviões com nomes inspirados no sobrenatural, alguns polêmicos o bastante para serem vetados pelos militares.

Quando a Segunda Guerra eclodiu na europa a pequena McDonnell contava com apenas 400 funcionários em sua folha de pagamentos. Sua principal função até então era fabricar caixas de munição, partes para as torretas dos bombardeiros, naceles de motores e subconjuntos para caudas de aviões de terceiros.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a McDonnell foi principalmente uma empresa subcontratada por gigantes da indústria aeronáutica, como Boeing e Douglas. Na época, James S. McDonnel, comentou: “Nós finalmente conseguimos um contrato. Era muito pequeno e logicamente não ganhamos um centavo com ele. Mas os rapazes fizeram um bom trabalho e aprendemos muito”.

A McDonnel sempre trabalhou no projeto dos seus próprios aviões até que, em 29 de outubro de 1941, assinou um contratado para construir o caça XP-67. Conhecido como “Bat” (morcego) pela sua forma – embora parecesse mais uma arraia do que um morcego – ou Bomber Destroyer (Destruidor de Bombardeiros), pela sua missão.

McDonnell XP-67 Bat

XP-67 Bat deveria ter sido um caçador de bombardeiros

O XP-67 foi construído em St. Louis, no estado de Missouri, em 1943, mas seu primeiro voo foi realizado apenas em janeiro de 1944.

Lamentavelmente para os projetistas, os experimentais e temperamentais motores fizeram com que o voo inaugural durasse apenas seis minutos. Os problemas com os motores continuaram e a velocidade máxima do Bat nunca chegou perto do esperado. Como consequência, o segundo protótipo não foi concluido. Entretanto, já desde 1940, os engenheiros da McDonnell estavam pesquisando a utilização da propulsão a jato.

FUTURO ESTAVA NOS JATOS

As pesquisas dos seus engenheiros na tecnologia dos motores a jato renderam seus frutos em 1º de janeiro de 1943, quando a Marinha dos Estados Unidos solicitou à McDonnell que projetasse e construísse um caça a jato e, antes do final da Segunda Guerra Mundial, o Phantom I havia feito seu primeiro voo e dado origem à bem-sucedida linha de caças a jato McDonnell.

FANTASMA

FH-1 Phantom tornou-se o primeiro caça a jato a decolar e pousar num navio norte-americano

O pequeno fabricante teve de se ajustar de maneira diferente à dos gigantes da indústria aeronáutica nos anos imediatos ao final da Segunda Guerra Mundial. Era uma empresa pequena que teria de se arriscar mais para ir mais longe. Seu proprietário estava disposto a construir pequenos aviões que pudessem aproveitar tecnologias nunca antes utilizadas. A propulsão a jato levaria a McDonnell a se destacar entre os grandes.

O XFD-1, protótipo do caça a jato FH-1 Phantom (Fantasma) fez seu primeiro voo em 26 de janeiro de 1945. Seu nome remontava aos tempos de McDonnell em Princeton, onde teve despertado seu interesse pelo mundo espiritual. O Phantom foi o avião de combate da US Navy mais veloz após a Segunda Guerra Mundial: 62 foram construídos. Com ele, o fabricante iniciou uma longa associação com a Marinha norte-americana, como principal fornecedor de caças a jato embarcados.

O FH-1 Phantom tornou-se o primeiro caça a jato a decolar e pousar num navio norte-americano, quando em 21 de julho de 1946 operou a bordo do porta-aviões USS Franklin D. Roosevelt. Quase dois anos depois, em maio de 1948, o primeiro esquadrão todo composto de jatos, a bordo do USS Saipan, tornou-se operacional com caças FH-1 Phantom. Hoje, há três Phantom preservados, todos nos EUA: no National Air and Space Museum do Smithsonian Institution, em Washington, D.C., no Wings of Eagles Discovery Center, em Horseheads, Nova York; e no National Museum of Naval Aviation, na Naval Air Station, Pensacola, Flórida.

GNOMO

McDonnell continuou a batizar seus aviões com nomes sugestivos. O Phantom foi seguido pelo protótipo do XF-85 Goblin (Gnomo), um caça parasita que deveria ser transportado dentro do bombardeiro Convair B-36 Peacemaker. Seu primeiro voo foi realizado em 1948, mas os pilotos de testes acharam difícil enganchar o Goblin no trapézio suspenso do bombardeiro durante o processo de recuperação. Apenas duas aeronaves foram construídas e nunca voaram no B-36, os testes foram realizados utilizando um Boeing EB-29B Super Fortress.

XF-85 Goblin sendo preparado para o lançamento

Dois protótipos do XF-85 Goblin foram presernados, podendo ser vistos no National Museum of the United States Air Force, na Base da Força Aérea Wright-Patterson, em Dayton, Ohio e no Strategic Air and Space Museum, em Ashland, Nebraska.

MULHER DOS TÚMULOS

McDonnell melhorou o Phantom e lançou F2H Banshee, seu segundo caça, que era maior e mais veloz do que o seu antecessor. O nome era inspirado no irlandês bean si, que são espíritos femininos que, segundo a lenda, aparecem a uma pessoa para anunciar com seus gemidos a morte de um parente.

Esse novo caça tornou McDonnell uma nova estrela na indústria aeronáutica norte-americana. O Banshee entrou em combate na Coréia, em 1951, tendo combatido ao lado de modelos da Segunda Guerra, como o Vought F4U Corsair.

O modelo serviu na Marinha e no Corpo de Fuzileiros navais dos Estados Unidos até 1959, atuando como uma das primeiras aeronaves multimissão da história, sendo utilizada como caça diurno, caça noturno e avião de reconhecimento fotográfico, em cinco versões principais.

Atualmente há nove Banshee preservados em vários museus dos EUA e em três no Canadá.

DEMÔNIO 

O Banshee foi seguido pelo F3H Demon (Demônio), cujo primeiro exemplar saiu da linha de produção de St. Louis, em 1951. Foram construídos 522 Demon em oito variantes e subvariantes, que ficaram famosos por serem um dos primeiros aviões projetados para utilizar mísseis em vez de canhões. Enfim, em 1958, um Demon foi o primeiro caça embarcado a disparar mísseis “ar-ar” guiados, enquanto operava em alto mar. Três Demon foram preservados: um no National Museum of Naval Aviation, Naval Air Station Pensacola, Flórida, outro no USS Intrepid Museum, na cidade de Nova York; e o terceiro no Pima Air & Space Museum, em Tucson, Arizona.

VUDU

O F-101 Voodoo teve seu nome inspirado na religião sincrética temida por ser vista como feitiçaria por muitos povos

Depois do Demon, a McDonnell lançou o F-101 Voodoo (ou vodu), com nome inspirado na religião sincrética praticada principalmente no Haiti. O primeiro dos 807 aviões F-101 entregue à USAF voou em 29 de setembro de 1954 e, na época, era o caça tático mais rápido em serviço. Em 12 de dezembro de 1957, estabeleceu o recorde mundial de velocidade, com 1.940 km/h.

O F-101 Voodoo multimissão foi construído em 19 variantes e subvariantes, como um caça de ataque de longo alcance, um interceptador e um avião de reconhecimento fotográfico. Foi usado pelos três comandos da Força Aérea dos EUA: estratégico, tático e de defesa aérea. Há modelos F-101 expostos em vários museus nos Estados Unidos e no Canadá, e também como “gate guards” em bases aéreas.

O XF-88 Voodoo foi um protótipo para um caça de longo alcance que nunca entrou em serviço

O McDonnell XF-88 Voodoo foi o protótipo de um caça a jato bimotor de longo alcance, com asas enflechadas, projetado para a Força Aérea dos EUA. Embora nunca tenha entrado em serviço, seu projeto foi adaptado para o caça supersônico F-101. O protótipo foi modificado como XF-88B, com um motor turbo-hélice instalado no nariz, além dos dois turbojatos. A aeronave foi utilizada em testes de voo em 1956 e atingiu velocidades ligeiramente superiores a mach 1 (velocidade do som) tornando-se o primeiro avião equipado com hélice a fazê-lo.

O protótipo do XF-88B foi o primeiro avião propelido por hélice que quebrou a barreira do som

 

A McDonnell também propôs uma versão naval do XF-88, um treinador operacional biposto e uma variante de reconhecimento, mas nenhum foi produzido em série e os protótipos foram sucateados em 1958.

SEGUNDO FANTASMA

O Phantom II – chamado assim em homenagem ao Phantom I, quase recebeu o nome de Satan (Satanás) ou Mytras (deus das mitologias indiana, persa e romana). As duas opções de nome foram vistas como agressivas demais a fé do contribuinte e sob a pressão do governo foi batizado com um nome menos controvertido, mas não muito original.

O Phantom II um jato supersônico destinado a cumprir todo tipo de missão, desde interceptado de primeira linha, caça-bombardeiro, escolta e reconhecimento. Seu primeiro voo foi em 27 de maio de 1958, e entrou em serviço em 1961. O Phantom II estabeleceu um recorde de velocidade de 2.585 km/h e um de altitude, com 30.000 m. Em 1969, foi o único caça a voar nas duas equipes acrobáticas militares norte-americanas, os Thunderbirds da Força Aérea e os Blue Angels da Marinha.

O último dos 5.195 Phantom saiu da fábrica de St. Louis em 1979. Eles serviram no Vietnã, na Operação Tempestade no Deserto e em 11 forças armadas além da três dos Estados Unidos. Antes disso, o fabricante já havia expandido suas atividades para incluir mísseis e foguetes.

Em 28 de abril de 1967, ocorreu a fusão com a gigante da aviação comercial Douglas Aircraft, que levou à criação da McDonnell Douglas.  Assim seus novos projetos tiveram nomes menos inspirados no  sobrenatural. Sugiram os caças F-15 Eagle (águia) e F/A-18 Hornet (vespa). Quando a Boeing adquiriu a McDonnell Douglas, continuou a produção desses caças e de outros projetos militares da McDonnell Douglas.


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