Do primeiro voo em 2007 ao atual Phenom 100EX, os números mostram onde quase duas décadas de evolução realmente fizeram diferença

As quatro versões do Phenom 100 mantiveram dimensões, volume de cabine e capacidade de combustível praticamente iguais.
O 100E trouxe mudanças discretas, enquanto o 100EV marcou o maior avanço operacional, com novos motores, mais velocidade e subida mais rápida. O 100EX refinou cabine e aviônicos, incorporando recursos como autothrottle e alertas de risco de ultrapassagem da pista. Seu desempenho permanece próximo ao do 100EV.
A diferença de preço entre o Phenom 100 original e o 100EX chega a US$ 3,2 milhões. Já o custo variável estimado varia apenas US$ 30 por hora entre os extremos.
Poucos jatos de negócios permitem observar de maneira tão clara a evolução de uma mesma plataforma quanto o Phenom 100. Desde o primeiro voo, em julho de 2007, o modelo recebeu três atualizações importantes — 100E, 100EV e 100EX — sem abandonar a arquitetura básica que ajudou a estabelecer a Embraer no segmento da aviação de negócios.
Dimensões externas, volume de cabine, capacidade de combustível e até grande parte da estrutura permaneceram praticamente inalterados. Vistos lado a lado, os quatro poderiam facilmente ser confundidos. Em operação, contudo, a história é mais complexa.
Porém, a evolução também não ocorreu de maneira uniforme. O Phenom 100E representou uma atualização relativamente discreta do projeto original. O salto operacional mais evidente aconteceu apenas com o 100EV, enquanto o atual 100EX mantém praticamente o mesmo desempenho do antecessor, mas concentra boa parte das mudanças em cabine, aviônicos e operação. Em outras palavras, quase duas décadas de desenvolvimento não transformaram o Phenom 100 em outro avião, mas aperfeiçoaram progressivamente a mesma fórmula.

A diferença mais evidente aparece antes mesmo da partida dos motores. Pelas estimativas da JSSI Conklin, um Phenom 100 representa atualmente cerca de US$ 2,4 milhões. O 100E sobe para US$ 3,5 milhões, enquanto o 100EV chega a US$ 4,8 milhões. Para o 100EX, ainda em produção, o valor estimado alcança US$ 5,6 milhões. Isso significa que o operador pode entrar na família gastando menos da metade do necessário para adquirir a versão mais recente.
A diferença de US$ 3,2 milhões entre os extremos, porém, não compra um avião duas vezes mais rápido ou capaz de voar duas vezes mais longe. A velocidade máxima evoluiu apenas 16 nós, saindo de 390 ktas para 406 ktas e boa parte das dimensões, pesos e características da cabine permanece praticamente igual.
Essa constatação torna a família particularmente interessante no mercado de usados, assim como para operadores de táxi aéreo ou modelos de propriedade compartilhada que buscam reduzir o custo de aquisição.
A questão, portanto, deixa de ser simplesmente qual geração é melhor e passa a ser quanto determinado operador está disposto a pagar pelas melhorias acumuladas ao longo dos anos — ou, ainda, em que medida esses aperfeiçoamentos representam uma diferença efetiva na operação.

Com base na metodologia da JSSI Conklin para uma operação com 175.000 milhas náuticas voadas anualmente e uma missão-padrão de 600 nm, mas substituindo a referência americana de combustível pelo preço médio brasileiro de R$ 4,89 por litro — registrado em julho de 2026, segundo a ANAC — o Phenom 100 apresenta custo variável estimado de US$ 1.859 por hora, exatamente o mesmo do 100E. No Phenom 100EV, o valor sobe apenas para US$ 1.889 por hora, curiosamente também o número calculado para o EX. A diferença entre o primeiro Phenom 100 e o atual 100EX é, portanto, de apenas US$ 30 por hora, ou cerca de 1,6%.
A manutenção, dentro das premissas utilizadas, é de US$ 775 por hora nas quatro gerações. A principal diferença aparece nas reservas de motores, com US$ 554 por hora no 100 e 100E e US$ 584 no EV e EX. Ou seja, o ganho de desempenho conquistado pelas versões mais recentes praticamente não impôs uma penalidade operacional direta.
Sem considerar depreciação, a JSSI estima US$ 1,545 milhão anuais para o Phenom 100 e US$ 1,548 milhão para o 100E. O 100EV sobe para US$ 1,574 milhão. Já o 100EX aparece em US$ 1,552 milhão — abaixo do 100EV e apenas cerca de US$ 7 mil acima do Phenom 100 original.
Isso não significa que um avião novo custe necessariamente o mesmo que um exemplar produzido há mais de uma década em qualquer operação real. Os números dependem das premissas da metodologia, do estado real da célula em questão e dos custos fixos considerados. Ainda assim, demonstram que idade e geração não produzem automaticamente grandes diferenças no custo recorrente da plataforma.
Quando a depreciação estimada entra na equação, o quadro muda. O custo anual total sobe para aproximadamente US$ 1,677 milhão no Phenom 100, US$ 1,740 milhão no 100E e US$ 1,838 milhão no EV. No atual 100EX, chega a US$ 1,860 milhão. Nesse caso, parte importante da diferença decorre justamente do maior capital empregado nas versões mais recentes, e não de combustível ou manutenção significativamente superiores.
Analisados isoladamente, Phenom 100 e 100E são quase indistinguíveis em desempenho. Ambos utilizam os motores Pratt & Whitney Canada PW617F-E, com 1.695 lbf, cada. A velocidade máxima permanece em 390 ktas, enquanto o cruzeiro de longo alcance fica em 333 ktas. Até o tempo calculado para atingir a altitude inicial de cruzeiro de 41.000 pés é idêntico, com 32 minutos.
As diferenças aparecem sobretudo nos pesos. O MTOW sobe de 10.472 lb para 10.582 lb no 100E. A carga útil aumenta de 3.384 para 3.406 lb, enquanto o payload máximo passa de 1.312 para 1.334 lb. Com combustível máximo, a capacidade disponível cresce apenas 22 lb, de 580 para 602 lb.
Os números deixam clara a natureza da atualização, como um aprimoramento da plataforma, sem alterar fundamentalmente o que ela podia fazer.
É no Phenom 100EV que a evolução passa a ser percebida diretamente no desempenho. A mudança mais importante está nos motores. A troca pelos PW617F1-E elevou o empuxo unitário para 1.730 lb — aparentemente modestos 35 lb adicionais por lado, ou pouco mais de 2%. Ainda assim, uma melhoria capaz de fazer a diferença.
O efeito é desproporcionalmente maior em alguns pontos da operação. A velocidade máxima subiu de 390 para 406 ktas. Em cruzeiro de longo alcance registra 339 ktas, contra 333 ktas do 100 e do 100E. Todavia, mais relevante é o desempenho de subida. Embora a razão de subida nominal apresentada pela base recue de 3.061 ft/min para 2.932 ft/min, o tempo calculado para alcançar o FL410 sai de 32 para apenas 25 minutos. São sete minutos a menos, redução próxima de 22%.

A aparente contradição entre menor razão inicial de subida e menor tempo total até altitude ajuda a mostrar por que analisar apenas um número de performance pode ser enganoso. A capacidade de manter desempenho à medida que altitude e temperatura mudam é tão ou mais importante que a razão máxima registrada em condições específicas.
O Phenom 100EV também melhora o desempenho monomotor, com a razão de subida passando de 730 ft/min no Phenom 100 e 702 ft/min no 100E para 747 ft/min, embora o teto monomotor permaneça em 25.918 pés nas quatro versões.
A comparação de alcance exige atenção à metodologia utilizada. No perfil de long-range cruise, com quatro passageiros, os quatro modelos chegam aos mesmos 1.045 nm, com velocidade média de 324 ktas. Em cruzeiro máximo, novamente empatam com 920 nm, a uma média de 354 ktas. Quando considerada a métrica de alcance com todos os assentos ocupados, porém, aparece uma diferença substancial. A plataforma JSSI Conklin define esse indicador como o alcance IFR máximo com todos os assentos de passageiros ocupados, preservando ainda a reserva NBAA IFR para um aeroporto alternativo localizado a 200 nm. Nesse cenário, o Phenom 100 registra 915 nm e o 100E, chega aos 917 nm. No 100EV, o número avança para 1.178 nm — valor mantido pelo 100EX. Trata-se de um incremento de aproximadamente 29% sobre o modelo original.
Essa aparente divergência mostra por que números de alcance publicados isoladamente podem levar a conclusões equivocadas. Perfil de potência, ocupantes, reservas, altitude e critérios de missão alteram significativamente o resultado. Para uma comparação entre gerações, o valor relevante é aquele produzido sob a mesma metodologia.

Se velocidade e subida evoluíram, a capacidade de transportar peso permaneceu praticamente congelada. O Phenom 100 original apresenta peso básico operacional de 7.132 lb e MTOW de 10.472 lb. A partir do 100E, esses números passam para 7.220 e 10.582 lb, respectivamente, permanecendo iguais no EV e no EX. O combustível utilizável também não muda, com 2.804 lb nas quatro versões. Já a carga máxima original do Phenom 100 de 1.312 lb aumentou para 1.334 lb nas versões seguintes. Com tanques cheios, são 580 lb no modelo original contra 602 lb dos demais. Isso representa apenas 22 lb de ganho em quase duas décadas.
É um dado importante porque revela onde a Embraer decidiu — ou conseguiu — desenvolver a plataforma. O Phenom 100 tornou-se mais rápido e melhor em determinados regimes sem aumentar significativamente sua capacidade estrutural de transportar pessoas e bagagem.
Para um operador que regularmente trabalha próximo dos limites de peso, portanto, migrar de um 100E para um 100EX pouco altera a equação de payload.
Outro resultado contraintuitivo aparece no desempenho de pista. A distância FAR 91 é exatamente a mesma nas quatro versões, com 746 metros. Considerando o FAR 135, são cerca de 933 metros.
Quando analisada a balanced field length, o Phenom 100 original registra aproximadamente 1.334 metros, enquanto após o Phenom 100E o valor chegou aos 1.361 metros. Ou seja, apesar dos motores mais potentes do EV e EX, a diferença é pequena — cerca de 27 metros — e coincide com o aumento do peso máximo de decolagem introduzido a partir do 100E, de 10.472 para 10.582 lb.
O dado, porém, não deve ser interpretado isoladamente como efeito do peso. A balanced field length considera a distância necessária tanto para interromper a decolagem após uma falha de motor próxima de V1 quanto para prosseguir com um motor inoperante. Assim, mesmo com o aumento de potência introduzido no EV, diferentes variáveis de peso e desempenho entram no cálculo.
A vantagem dos motores F1-E tende a ser mais relevante justamente fora da condição padrão, especialmente em cenários de altitude e temperatura elevadas, uma das razões que motivaram a evolução para o EV.

Externamente, quase nada denuncia duas décadas separando as gerações. Todos têm 12,31 metros de envergadura e fuselagem de 12,83 metros. O volume total de cabine permanece em aproximadamente 6,0 m³, com largura de 1,55 metro e comprimento de 3,35 metros. Até o espaço para bagagem continua em cerca de 1,98 m³, sendo 0,28 m³ internos e 1,70 m³ externos. A altura aumenta marginalmente de 1,50 metro no primeiro Phenom 100 para 1,51 metro nas demais versões.
Também não houve alteração relevante na pressurização: diferencial de 8,3 psi e cabine equivalente ao nível do mar até 21.280 pés, chegando a aproximadamente 8.000 pés de altitude de cabine no teto operacional de 41.000 pés. Ainda assim, a evolução ocorreu, sobretudo em conforto. No 100EX, a Embraer redesenhou elementos do interior, trabalhou ergonomia e circulação e incorporou soluções inspiradas em aeronaves maiores.


Na cabine de comando, a evolução é mais perceptível. O Phenom 100 foi lançado com a então sofisticada suíte Garmin G1000, um dos aspectos mais avançados do projeto à época. Ainda que permaneça uma aviônica robusta e capaz, a partir do Phenom 100EV a Embraer adotou a suíte Garmin G3000 como base do chamado Prodigy Touch Flight Deck.
O EX manteve a mesma arquitetura do G3000, mas recebeu uma configuração aprimorada, com maior integração e novos recursos. Entre eles estão o autothrottle e o Runway Overrun Awareness and Alerting System (ROAAS), que monitora as condições previstas de pouso e emite alertas caso identifique risco de excursão longitudinal de pista.
Segundo a Embraer, o Phenom 100EX foi o primeiro jato da categoria a incorporar o sistema.
A versão também acrescentou recursos como monitoramento de aproximação estabilizada, previsão de windshear e radar meteorológico com varredura volumétrica automática e previsão de granizo e descargas elétricas. Assim como ocorreu com os motores, a maior ruptura tecnológica não está entre o primeiro Phenom 100 e o 100E, mas a partir da passagem para o EV, enquanto o EX refina as melhorias.
Os números ajudam a colocar a diferença de preço em perspectiva. Um Phenom 100 custa, pela referência da JSSI Conklin, aproximadamente US$ 2,4 milhões e um Phenom 100EX custa US$ 5,6 milhões novo. O comprador paga cerca de 133% a mais por uma aeronave cuja velocidade máxima é aproximadamente 4% superior e que conta com nova aviônica e motores mais potentes, algo raramente levado em conta pelo proprietário. Visto dessa maneira, o Phenom 100 original parece oferecer uma relação entre aquisição e desempenho difícil de superar.
Mas essa comparação isolada ignora praticamente duas décadas de evolução em sistemas, suporte, idade estrutural, conforto, ergonomia e capacidade de manter desempenho em condições menos favoráveis. Também ignora o risco financeiro e operacional associado a uma aeronave mais antiga. É justamente aí que reside a diferença entre preço e valor operacional.
Para quem realiza predominantemente missões curtas partindo de aeroportos próximos ao nível do mar, geralmente em condições atmosféricas favoráveis, um Phenom 100 ou 100E bem mantido continua entregando grande parte da capacidade básica da família por uma fração do investimento exigido pelo EX. Em operações mais sensíveis a temperatura, altitude, subida rápida ou que operam em aeroportos mais restritos, a partir do EV essa equação foi sensivelmente aperfeiçoada.
O Phenom 100 criou a fórmula que redefiniu o segmento. Um jato compacto, single-pilot, relativamente rápido, com cabine generosa para a classe e custos compatíveis com operadores privados e pequenas estruturas corporativas. O 100E refinou essa fórmula e o 100EV representou a mudança mais importante. Já o EX não tenta superar o desempenho dos antecessores, mas entregar a mesma plataforma em seu estágio mais maduro.
Metodologia e fontes dos dados
Os dados utilizados neste comparativo foram baseados na plataforma JSSI Conklin, com eventuais ajustes de pesquisa adotados pela própria ferramenta para fornecer valores realistas para fins comparativos. A experiência real pode variar, e os dados não refletem contratos de manutenção especializados, acordos negociados individualmente ou outros itens exclusivos de transações específicas. A referência de custos é o mercado americano, em dólares, que oferece um parâmetro estável de comparação. Custos no Brasil podem sofrer mudanças relevantes conforme região, disponibilidade de manutenção, tributação, logística de peças e variação cambial. Ainda assim, na média, os valores oferecem uma base útil para entender a relação entre preço de aquisição, custo operacional e capacidade de missão.
Por Edmundo Ubiratan
Publicado em 28/09/2026, às 18h11
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