Latam aposta em cultura lean para transformar seu maior centro de manutenção
O Sistema Toyota de Produção (Toyota Production System – TPS) consolidou-se como um dos mais relevantes modelos de gestão industrial do mundo, estruturado nos princípios do Just in Time e do Jidoka, sempre orientado pela eliminação de desperdícios (lean) e pela melhoria contínua (kaizen).
Fundamentado em metodologias como padronização de processos, respeito às pessoas e busca incessante por eficiência, o modelo extrapolou a indústria automobilística e tornou-se referência global em diferentes setores, inclusive no transporte aéreo.
Um exemplo concreto dessa aplicação é o programa Mantra, criado pela Diretoria de Manutenção da Latam Brasil no fim de 2022. Inspirado nos pilares do lean e também no conceito JETS — experiência justa, empática, transparente e simples —, o projeto tem como propósito engajar os colaboradores na busca de soluções que elevem a eficiência e a qualidade da manutenção aeronáutica.
A lógica é semelhante à que sustenta o Sistema Toyota: aqueles que estão na linha de frente, executando as tarefas, detêm a melhor percepção dos problemas e, portanto, do potencial de melhorias.
Essa filosofia se materializou no Expo Mantra 2025, realizado entre 19 e 21 de agosto no Latam MRO de São Carlos, no interior de São Paulo. O evento, inspirado no formato de feira de ciências, reuniu mais de 1,2 mil funcionários de diferentes regiões do Brasil e apresentou mais de 20 projetos já implementados, organizados em estandes que aplicaram metodologias clássicas da melhoria contínua, como Poka Yoke, Ver & Agir, 5S e Trabalho Padronizado.
“Ao fornecer ferramentas e metodologias, a Latam transforma seus colaboradores em agentes de mudança, incentivando-os a identificar e resolver desafios do dia a dia”, explica Ana Paula Sandoval, coordenadora sênior de Projetos de Manutenção da LATAM Brasil.
Entre as inovações apresentadas, destacaram-se um jogo interativo em realidade virtual para treinamento de ambientação segura, uma ferramenta desenvolvida internamente para remoção de janelas dos Boeing 787, a revisão do manual de montagem do berço de motores usados em transporte, melhorias na medição de pressão de combustível e o reaproveitamento de lonas de pintura. Além da mostra, a programação incluiu workshops sobre inovação e eficiência, reforçando a integração entre prática e aprendizado.
Segundo a Latam, o programa tem apresentado resultados expressivos: se em 2022 haviam sido registradas cerca de 5 mil iniciativas, em 2024 o número superou 100 mil, avaliadas com o apoio de inteligência artificial.
Só no último ano, as melhorias implementadas geraram uma economia de US$ 3,5 milhões, decorrente da redução do tempo de execução das tarefas e do uso mais racional de recursos. Atualmente, cerca de 4 mil funcionários da área de manutenção estão engajados no programa, consolidando uma cultura organizacional voltada à transformação contínua.
O projeto inspirado no lean é considerado fundamental para a Latam MRO, que, apenas na unidade de São Carlos, dispõe de uma área de 95 mil m², sete hangares e 22 oficinas, responsável por mais de 60% das manutenções programadas da frota do grupo Latam.
Com um vasto portfólio de serviços e uma frota composta por diversos modelos, inclusive de gerações e motorização diferentes, as equipes da Latam demandam contínuos processos de aperfeiçoamento. Parte desse trabalho ocorre quase em tempo real, com técnicos e engenheiros desenvolvendo soluções que atendam às demandas de trabalho. Um dos desafios é manter essa evolução dentro das rígidas normas de regulamentação que regem a aviação.
O projeto Mantra tem como meta oferecer aos funcionários a oportunidade de buscar não apenas soluções, mas também formas de alinhar suas ideias aos complexos manuais de serviços homologados por autoridades como a ANAC, a EASA e a FAA.
“O Expo Mantra é a materialização da cultura de melhoria contínua da Latam, mostrando como o conhecimento e a experiência dos colaboradores são motores da evolução e da excelência da manutenção aeronáutica”, conclui Sandoval.
Por Edmundo Ubiratan, de São Carlos
Publicado em 21/08/2025, às 11h00
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