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Primeiro voo comercial do Concorde completa 50 anos

O Rio de Janeiro foi um dos primeiros destinos do jato supersônico, em 21 de janeiro de 1976


Concorde
Durante 27 anos, o Concorde enfrentou restrições regulatórias, altos custos e reposicionamento de mercado para sustentar a aviação supersônica comercial - Divulgação

Os voos regulares do Concorde começaram há exatos 50 anos, em 21 de janeiro de 1976, operados simultaneamente pela British Airways e pela Air France, marcando a entrada em serviço comercial da aviação supersônica de passageiros.

As primeiras rotas ligaram Londres a Bahrein e Paris ao Rio de Janeiro, com escala em Dacar, inaugurando um modelo operacional inédito em velocidade, restrições técnicas e posicionamento de mercado.

Início das operações e restrições regulatórias

As operações iniciais ocorreram em um ambiente regulatório restritivo, especialmente nos Estados Unidos. À época, o Congresso norte-americano havia proibido pousos do Concorde no país devido a protestos relacionados ao estrondo sônico.

A liberação parcial ocorreu em 24 de maio de 1976, quando William Coleman, então secretário de Transportes dos EUA, autorizou operações no aeroporto internacional de Washington (IAD). A partir dessa data, British e Air France passaram a operar voos três vezes por semana para o terminal.

A demanda limitada levou a Air France a encerrar a rota em outubro de 1982, enquanto a British Airways manteve o serviço até novembro de 1994. Já as operações para Nova York enfrentaram resistência local mesmo após o fim da proibição federal.

A restrição foi definitivamente derrubada em 17 de outubro de 1977, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitou recursos para manter o banimento. Os voos regulares para o aeroporto JFK começaram em 22 de novembro.

Expansão internacional e operações especiais

Além do eixo transatlântico, o Concorde foi empregado em rotas alternativas e operações especiais. Em abril de 1976, teve início a ligação Paris–Caracas, via Açores. Entre 1978 e 1982, a Air France operou voos para a Cidade do México durante o auge do boom do petróleo mexicano, com escalas em Washington ou Nova York. Esses voos exigiam perfis complexos, incluindo desaceleração para evitar estrondos sônicos sobre a Flórida.

Em dezembro de 1977, British Airways e Singapore Airlines iniciaram uma operação conjunta entre Londres e Singapura, via Bahrein, utilizando uma aeronave com pintura dividida entre as duas companhias.

A rota foi encerrada após três viagens de ida e volta devido a restrições de ruído impostas pela Malásia e, posteriormente, por limitações operacionais no espaço aéreo indiano.

Operação nos Estados Unidos e desempenho comercial

Entre 1978 e 1980, a norte-americana Braniff International Airways arrendou onze aeronaves Concorde — cinco da Air France e seis da British Airways — para voos subsônicos entre Dallas–Fort Worth e Washington Dulles.

As etapas supersônicas para Londres e Paris eram operadas por tripulações europeias. A ocupação média inferior a 50% e a falta de rentabilidade levaram ao encerramento da operação em maio de 1980.

Nos primeiros anos, a British Airways registrou índices elevados de “no-shows”, superiores aos observados em outras aeronaves da frota. Ainda assim, estudos posteriores indicaram que o perfil predominante era de passageiros corporativos recorrentes, sensíveis mais à percepção de valor do que ao preço absoluto.

Custos operacionais e posicionamento de mercado

Estimativas iniciais indicavam custos operacionais de US$ 3.800 (R$ 20.400) por hora de voo em 1972, valor significativamente superior ao de aeronaves subsônicas contemporâneas. Em uma rota Londres–Nova York, o custo por assento/milha do Concorde era mais elevado, refletindo sua configuração de mercado distinta, voltada à redução do tempo de viagem e ao segmento premium.

Em 1982, a British Airways criou a Concorde Division, sob a liderança dos comandantes Brian Walpole e Jock Lowe. Pesquisas internas indicaram que os passageiros acreditavam que as tarifas eram mais altas do que realmente eram.

A companhia reajustou os preços para cerca de 10% a 15% acima da primeira classe subsônica, reposicionando o produto. Segundo a empresa, a estratégia resultou em taxas de ocupação próximas de 80% e em rentabilidade sustentada ao longo das duas décadas seguintes.

Decisões estratégicas e continuidade operacional

Em 1983, o governo britânico vendeu a frota do Concorde à então estatal British Airways por 16,5 milhões de libras (R$ 119,3 milhões), além do direito aos lucros do primeiro ano. À época, John King, diretor-geral da companhia aérea, conduziu a negociação. Anos depois, Lord Heseltine, ministro responsável, reconheceu que o valor foi baixo frente ao investimento público realizado.

Apesar de sua cabine analógica, o Concorde permaneceu em conformidade regulatória até o fim da operação. A British Airways havia desenvolvido soluções para reposição de aviônicos e, em conjunto com a BAe e a Aérospatiale, certificou a estrutura para operação até 2014/2015. 

Encerramento das operações

Em 10 de abril de 2003, Air France e British Airways anunciaram simultaneamente a aposentadoria do Concorde. As companhias citaram a queda na demanda após de um acidente que aconteceu em 25 de julho de 2000, o impacto dos atentados de 11 de setembro de 2001 sobre o tráfego aéreo e o aumento dos custos de manutenção.

Também pesou a decisão da Airbus, que havia incorporado a Aérospatiale, de encerrar o fornecimento de peças de reposição.

A Air France realizou seu último voo comercial em 31 de maio de 2003, enquanto a British Airways encerrou as operações em 24 de outubro do mesmo ano. Ao se despedir da frota, o Concorde tornou-se o último avião da British Airways a operar com engenheiro de voo a bordo, encerrando definitivamente a era da aviação supersônica comercial regular.

Por Marcel Cardoso
Publicado em 21/01/2026, às 09h02


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