Drones se tornam armas fatais na guerra moderna

Utilizados como aeronave de ataque, inteligência e observação, os veículos aéreo não tripulados mudaram o combate

Redação Publicado em 07/01/2020, às 15h00 - Atualizado às 17h50

Silencioso e com capacidade de encontrar alvos em meio a multidões, os drones militares se tornaram uma arma estratégica e mortal

Um dos maiores líderes militares do Irã embarca em um carro no aeroporto de Bagdá e um míssil AGM-114 Hellfire. A morte do general Qassem Soleimani ganha as principais notícias do mundo e desperta o temor de um novo conflito no Oriente Médio. Nos bastidores um veículo aéreo não-tripulado, popularmente chamado de drone, cujo codinome é Reaper, ou ceifador em português.

O uso de plataformas autônomas em guerra se tornou uma realidade na última década, especialmente após a gestão do Presidente Barack Obama, que ampliou o uso de drones como arma de guerra silenciosa, mas letal.

LEIA TAMBÉM

Recetemente o Irã foi acusado de atacar refinarias da Arábia Saudita usando pequenos drones, que armados com uma carga explosiva foram lançados contra instalações de petróleo em um mergulho "suicida". Se usar armas com capacidade de atingir alvos distantes não é uma novidade, o emprego de drones de baixo custo em ações militares irregulares é algo inédito no conflito armado.

Silêncio Mortal

MQ-9 é atualmente o veículo aéreo não tripulado mais utilizado pelos Estados Unidos

Foi durante a campanha contra alvo estratégicos do Estado Islâmico que as aeronaves remotamente controladas assumiram um papel chave nas missões, tanto prestando informações de inteligência como participando ativamente dos ataques. Até então seu uso era restrito a missões especiais, mas agora se tornaram a ponta de lança de diversas campanhas aéreas.

O General Atomics MQ-1 Predator é capaz de permanecer em voo por até 14 horas, subindo a 25.000 pés, com mínima assinatura via infravermelho e baixo nível de ruído. O modelo dispõe de um sistema AN/AAS-52 Multi-spectral Targeting, uma câmera de captação de raios infravermelhos e outra de vídeo, além de possuir dois pontos duros sob as asas, que permitem carregar dois mísseis AGM-114 Hellfire. Durante a ação, os drones, técnicamente chamados de veículos aéreos não tripulados (ou vant) de vigilância registravam a movimentação dos integrantes do grupo radical, fornecendo ao controle da operação dados fundamentais para guiar os ataques.

Guerras irregulares

As chamadas guerras irregulares, ou não convencionais, envolvem forças militares e grupos terroristas, guerrilhas, insurgentes e movimentos de resistência. Ao contrário de uma guerra convencional entre ­países ou forças militares, em que se conhecem os alvos, a guerra irregular é um conflito nas sombras, e o inimigo pode ser qualquer cidadão armado com um artefato explosivo escondido sob a roupa. É uma guerra durante a qual é necessário o uso maciço de serviços de inteligência e ataques cirúrgicos, pois o alvo, em geral, está escondido entre a população civil. É nesse cenário que as aeronaves não tripuladas ganham relevância ao oferecerem a seus operadores a possibilidade de monitorar a centenas de metros de altitude a movimentação de suspeitos, tendo condições, ainda, de efetuar um ataque preciso mesmo em áreas densamente povoadas.

Em 2002, um ataque contra um dos mais importantes membros da Al-Qaeda demonstrou a precisão e o poder dos também chamados drones (vocábulo inglês usado numa acepção figurada da ideia de zangão, o macho da abelha, ou de seu zumbido). Na ocasião, a CIA (Central Intelligence Agency) localizou o iemenita Qaed Salim Sinan al-Harethi, estrategista do grupo terrorista e um dos mentores do ataque ao contratorpedeiro USS Cole, em outubro de 2000, que vitimara 17 marinheiros. Após a confirmação de que al-Harethi estava num carro que viajava por uma estrada a oeste de Sanaa, no Iêmen, um dos MQ-1 Predator da CIA lançou um míssil AGM-114 Hellfire contra o veículo em movimento, num ataque cirúrgico.

Dias antes do início da campanha contra o Estado Islâmico, um ataque promovido por um MQ-9 Reaper matou Ahmed Abdi Godane, líder da milícia radical islâmica somali Al Shabab, ligada a Al-Qaeda. O MQ-9, ou Predator B, é uma evolução do MQ-1, contando com um novo motor turbo-hélice Honeywell TPE331-10 de 900 shp (671 kW) e capacidade para transportar até oito mísseis. Seus sistemas permitem localizar e confirmar a identidade de um alvo, assim como conseguem distinguir pessoas e objetos com incrível precisão. Desde meados de 2011, Washington vem intensificando o uso de drones nos ataques contra grupos extremistas em países como Somália, Iraque e Iêmen. Desde que entrou em serviço, em 1995, o MQ-1 Predator já realizou mais de 80.000 missões em ações no Afeganistão, Bósnia, Iêmen, Iraque, Líbia, Paquistão, Sérvia e Somália.

No centro de comando

Embora a visita a diversas instalações militares norte-americanas seja proibida, a reportagem de AERO pode conhecer como funciona as operações de um centro de controle de aeronaves não tripuladas. Os americanos, assim como algumas nações da OTAN, possuem uma frota com diversos modelos de drones, destinados a uma ampla gama de missões. Os famosos Pretador, que são amplamente utilizados em missões de ataque, possuem não apenas uma versatilidade de emprego prático, mas também um modelo de operações extremamente flexível.

O centro de controle, em geral, pode ser transportado para áreas estratégicas, como bases aéreas aliadas, permitindo seu emprego em escala global. O console de operações lembra muito o interior de aeronaves AWAC (Airborne Warning and Control System), incluindo a filosofia de uso C3 (comando, controle e comunicações). Um operador é responsável pelo voo e executa os comandos de modo similar aos realizados em uma aeronave convencional, considerando dados de altitude, velocidade, potência, parâmetros dos sistemas e assim por diante. A principal diferença é que o voo ocorre de forma remota. Numa analogia simples, assemelha-se a voar um aeromodelo por intermédio de um computador (não de um radiocontrole). O outro tripulante promove as demais operações da missão, como controlar os sistemas de câmeras.

O console possui seis grandes telas, que podem exibir informações de missão como mapa, imagem infravermelha, telemetria e parâmetros do voo. À frente de cada um dos operadores, duas telas informam detalhes da missão, muitas delas sigilosas e enviadas apenas durante a operação. Um teclado QWERTY divide espaço com os sistemas de controle do drone, como acelerador e joystick. Por possuir mais espaço, sem grandes limitações de peso, os rádios a bordo são mais parrudos e com maior potência do que os geralmente empregados em aeronaves tripuladas. Um destaque desses módulos de controle é o de permitir que forças aéreas integrem ou removam os sistemas de acordo com a missão realizada. Os pilotos possuem total controle dos drones através de uma complexa rede de datalink, que permite operar as aeronaves a milhares de km de distância.

Alguns centros de controle coordenam tanto a missão das aeronaves quanto os serviços de inteligência

Outros drones, como aqueles destinados a missões de longa duração e grande alcance, podem ser operados em centros de controle de missão muito mais complexos. Dois desses centros de controle, instalados na sede da CIA, em Langley, Virgínia, são destinados a missões consideradas de alta prioridade e elevado grau de segurança nacional. O conceito básico se assemelha ao modelo adotado pela NASA para controle de missões espaciais, possuindo uma complexa rede de comunicação, incluindo links via satélite e broadcast, assim como uma grande equipe destinada não apenas a voar o drone, mas, também, acompanhar e comandar em tempo real qualquer ação.

RQ-4 Global Hawk é um sofisticado sistema de inteligência que pode operar remotamente em qualquer parte do mundo

Outros centros de controle estão espalhados pelos EUA. Um deles é o do 9th Reconnaissance Wing, responsável pelos Northrop Grumman RQ-4 Global Hawk, na base aérea de Beale, na Califórnia. Os RQ-4 Global Hawk podem ser enviados a qualquer parte do mundo, decolando de lá. Recentemente, alguns desses drones partiram da Califórnia e voaram até o Afeganistão pelas chamadas Rotas do Norte, passando por Canadá e Ásia.

Mais um operador do RQ-4 é o 69th Reconnaissance Group, que fica sediado na base aérea de Grand Forks, na Dakota do Norte, e conduz missões ao redor do mundo. Porém, drones destinados a operações táticas, no campo de batalha, possuem um sistema extremamente simples e que permite ter apenas um operador. Muitos desses sistemas são transportados numa maleta.

LEIA TAMBÉM: Uso de drones em guerras e no cotidiano desperta polêmica

ASSINE AERO MAGAZINE COM ATÉ 76% DE DESCONTO

Por Edmundo Ubiratan, de Washington (D.C.) e Pasadena (CA)

aeronave avião Usaf Força Aérea Drone Irã guerra notícia de aviação Oriente Médio Estado Islâmico Qassem Soleimani general