Cargas aéreas no Brasil

Transporte de bens a bordo de aviões no mercado nacional volta a crescer no momento em que a infraestrutura aeroportuária recebe melhorias

Por Santiago Oliver em 7 de Novembro de 2014 às 00:00

McDonnell Douglas MD-11
McDonnell Douglas MD-11 da Lufthansa Cargo

Desde o início da crise econômica mundial em 2008, o tráfego de carga aérea mundial teve uma média de crescimento de apenas 1,7% ao ano até 2013. De forma positiva, o tráfego de carga aérea mundial voltou a crescer no segundo trimestre de 2013. Em julho de 2014, o tráfego teve um crescimento de 4,4% em comparação com os primeiros sete meses de 2013, e as previsões são de um crescimento sustentado para 2015 e 2016.

No Brasil, segundo um estudo da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), mesmo com a facilidade que o setor aéreo representa para o transporte em um país com a dimensão territorial, a logística de cargas – bens e serviços – por avião ainda é pouco aproveitada. Menos de 20% da capacidade (em peso) para transporte de cargas nas aeronaves é utilizada. E as previsões são tímidas: estima-se que o modal aéreo doméstico cresça 58% até 2020 (se comparado com números de 2013), enquanto o transporte de passageiros irá dobrar de quantidade.

Boeing 767-300F
Boeing 767-300F da TAM Cargo

Infraestrutura

O setor vem debatendo as demandas de infraestrutura logística, políticas de preços, segurança e operação. O recém-inaugurado equipamento de inspeção por raios x do Terminal de Carga (Teca) do Aeroporto de Fortaleza/CE (Pinto Martins), por exemplo, representa um avanço. O setor vem trabalhando para atender regulamentações nacionais e internacionais, e isso eleva o nível de segurança para esse tipo de transporte. Para somar aos avanços em segurança, o setor espera que medidas de incentivo sejam aplicadas em breve.

Dados de um levantamento da Oxford Economics para o Grupo de Ação do Transporte Aéreo (ATAG) mostram que 35% do valor do comércio global passa por porões de aviões no mundo, mas isso representa apenas 5% do volume da carga mundial, o que indica um alto valor agregado do material transportado. Isso mostra que o mercado nacional ainda tem muito espaço para crescer.

A Abear também vem trabalhando junto a órgãos nacionais e internacionais e operadores aeroportuários em um projeto chamado Secure Freight (Carga Segura). O objetivo é garantir que todo o processo logístico seja controlado, desde o exportador-fabricante até o produto chegar à aeronave. Na prática, a carga passará por uma cadeia segura antes de chegar ao aeroporto. Isso dispensa a necessidade de inspeção no terminal e gera eficiência e redução de custos. É o conceito mais moderno do mundo no que diz respeito ao transporte de carga pelo setor aéreo.

De acordo com a Infraero, com foco no aumento da demanda por serviços logísticos no país e na tendência de crescimento do comércio internacional, a empresa mantém um extenso e contínuo plano de investimentos para sua rede de terminais de logística de carga. Para o período 2014-2018, a empresa estima investir cerca de R$ 310 milhões a serem utilizados em construção, reforma, ampliação, adequação e modernização de seus complexos logísticos, bem como na aquisição de novos equipamentos operacionais para movimentação e armazenagem de cargas.

Desburacratização

O GRU Airport – Aeroporto Internacional de São Paulo e a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, que representa 240 companhias aéreas em mais de 115 países ao redor do mundo, compreendendo 84% do trafego aéreo global) deram um importante passo para a desburocratização do transporte de cargas por via aérea. O projeto piloto para implantação do e-AWB (Air Will Bill ou Conhecimento Eletrônico de Carga Aérea) no setor de exportação do terminal de cargas de Guarulhos, cujo objetivo principal é a substituição de documentos físicos por arquivos eletrônicos, foi concluído e agora entra em operação.

Boeing 747
Atlas opera o Boeing 747

Parte de um programa global da Iata e em operação em grandes aeroportos do mundo, o sistema e-AWB promete dar mais agilidade às exportações brasileiras, uma vez que desobriga a tramitação de cópias físicas do Conhecimento Aéreo, por meio da troca eletrônica dos dados entre os elos da cadeia logística. A estimativa é que o uso do e-AWB em todo o mundo elimine mais de 7.800 toneladas de documentos de papel por ano, o equivalente a 80 aviões Boeing 747 cargueiros carregados de papel. “O e-AWB será uma revolução, assim como foi a implantação do bilhete eletrônico (e-ticket) para os passageiros, e vai gerar desburocratização e transparência no gerenciamento de informações. O objetivo é que, no longo prazo, possamos disponibilizar eletronicamente em tempo real todos os documentos referentes ao transporte aéreo de cargas”, afirma Carlos Ebner, diretor da Iata para o Brasil. Para isso, é necessário que os agentes de cargas e as empresas aéreas celebrem o acordo multilateral do AWB eletrônico (MeA) com a Iata.

Para o diretor de Operações de Cargas do GRU Airport, Marcus Santarém, o aeroporto dá mais um importante passo no sentido de modernizar os procedimentos para o transporte aéreo de cargas em Guarulhos. “Toda a cadeia logística no modal aéreo será beneficiada com essa iniciativa, principalmente em relação à otimização das operações e, consequentemente, à redução dos tempos de tramitação de cargas”, destaca o executivo.

O projeto piloto contou com a participação das companhias aéreas American Airlines, Lufthansa e TAM Cargo, além dos agentes de carga DB Schenker e Panalpina, que, desde julho, passaram a adotar o novo sistema em suas operações, realizando diversos testes na área de exportação.

Com a conclusão da primeira fase do projeto, o GRU Airport passa a ser considerado “aberto” para o mercado para a fase de produção do e-AWB no terminal de cargas de exportação. Agora, o objetivo é conseguir a adesão de outras companhias aéreas e agentes ao novo sistema, ao mesmo tempo em que se expande o projeto para o setor de importação. 

Números do mercado

Em 2013, mercado doméstico de carga paga transportada registrou 408.620 toneladas, apresentando um aumento de 3,8%, após retração de 4,6% em 2012, frente às 412.506 toneladas de 2011, que foi o maior voluma dos últimos 10 anos. A TAM alcançou participação de 41,3% em 2013 neste mercado, seguida da Gol com 24,4% e Absa com 18,4%. A Azul destacou-se, transportando 4,0% da carga, e a Avianca aumentou sua carga paga transportada em 45,9%. Entre as 10 principais rotas de carga em 2013, nove envolveram o aeroporto de Guarulhos em São Paulo, sendo que as duas principais foram Manaus/Guarulhos e Guarulhos/Manaus (com mais de 84,7 mil toneladas).

MD-11
MD-11 da FedEx

A quantidade de carga transportada em 2013 no transporte aéreo internacional com origem ou destino no Brasil foi recorde em relação aos últimos 10 anos, com 777.600 toneladas e crescimento de 69% em relação a 2004. Já o crescimento em relação a 2012 foi de 7,2%. A TAM – antes da criação da TAM Cargo – foi a empresa com maior participação nesse mercado, com 17,5%, seguida pela Atlas (6,4%) e pela Absa (5,3%). América do Norte, Europa e América do Sul foram as regiões com maior volume de carga paga despachada para o Brasil em 2013, com 202.000, 171.000 e 48.000 toneladas transportadas, respectivamente.

Em termos de carga com origem no Brasil, a ordem se inverte, sendo o principal destino a Europa (94.000 toneladas), seguida pela América do Norte (89.000) e América do Sul (48.000). Estados Unidos, Alemanha e Argentina foram os principais destinos em termos de carga paga com origem no Brasil, com 77.000, 27.000 e 17.000 toneladas. Analisando a carga paga com destino ao Brasil, os principais países foram Estados Unidos, Alemanha e Holanda, com 191.000, 48.000 e 33.000 toneladas. 

Companhias aéreas

Formada recentemente pela fusão da divisão de carga da TAM e da Absa, a TAM Cargo, com o intuito de ampliar o transporte aéreo de cargas entre um dos principais polos industriais e de tecnologia e o maior centro consumidor do país, anunciou um reforço da sua operação na rota São Paulo/Guarulhos-Manaus. Em agosto, a TAM Cargo iniciou operações cargueiras diárias partindo da capital amazonense para o aeroporto internacional de São Paulo/Guarulhos, mas, em outubro, os horários dos voos foram ajustados e a empresa passou a oferecer dois voos cargueiros matinais.

Boeing 747-400F

Boeing 747-400F da Emirates Sky Cargo

Com as alterações, a empresa passará a oferecer 17 frequências (voos de ida e volta) por semana na rota. O Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos tem importância estratégica para a malha aérea da TAM Cargo, pois é o seu principal hub no Brasil para distribuição de encomendas às principais regiões do país. Ao todo, a unidade de cargas do Grupo Latam está presente em 42 aeroportos brasileiros e realiza coleta em mais de 300 municípios e entrega em mais de 3.000 cidades.

O mercado São Paulo/Guarulhos-Manaus é atendido hoje por aeronaves cargueiras modelo Boeing 767, que possui capacidade para 50 toneladas, e também por aeronaves comerciais mistas da frota da TAM Linhas Aéreas, que transportam passageiros e cargas. “Nossa expectativa é um crescimento de 5% no volume mensal de cargas transportadas nessa rota no último trimestre do ano, com o aumento da frequência e as adaptações no horário”, afirma o gerente comercial de Cargas Doméstico – Brasil da TAM Cargo, Diogo Elias.

Desde 2013, a TAM Cargo tem investido fortemente em sua infraestrutura para o mercado brasileiro: em novembro do ano passado, inaugurou um terminal de cargas em Manaus que, com 13.000 m² e 5.000 m² de área construída, passou a ser o maior da empresa no território nacional.

Para o primeiro trimestre de 2015, a companhia espera entregar um novo terminal com 20.000 m² no Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos. Esses investimentos em infraestrutura, no valor de R$ 45 milhões, fazem parte de um plano de expansão da TAM Cargo no país.

A mais nova companhia aérea a realizar o transporte de carga nos porões dos seus aviões para o exterior é a Azul, com a Azul Cargo, criada em 2009, que já realizava esse tipo de transporte dentro do Brasil com sua frota de jatos Embraer 190/195 e turbo-hélices ATR, a partir do seu hub no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP). Em consonância com o plano de expansão da Azul, o qual contempla uma nova frota de 12 aeronaves de grande porte, a Azul Cargo aproveitará os porões dos Airbus 330-200 (o primeiro dos sete foi recebido em junho último) e 350-900 (cinco) para transportar contêineres e cargas “paletizadas”. A rota de importação e exportação contemplará os voos comerciais diários da Azul que partirão de Campinas para os Estados Unidos. Essa operação introduzirá a Azul Cargo no mercado de transporte aéreo internacional de cargas.

“O início das nossas operações no mercado externo amplia a qualidade do serviço Azul Cargo para nossos exportadores e importadores”, destaca Claudio Fonseca, diretor da Azul Cargo. “Este é mais um importante passo para servir bem aos negócios no Brasil. Estenderemos ao mercado internacional a conveniência da conexão de uma malha aérea composta por mais de 100 cidades, por onde são realizados 800 voos diários, operados por uma frota de 143 aeronaves”, completa Fonseca.

Internacionais


a mais nova companhia a transportar carga ao exterior é a azul cargo

A Lufthansa Cargo opera com aeronaves McDonnell Douglas MD-11F, os quais estão sendo substituídos globalmente pelos 777F – cuja capacidade é 10% maior . Com aproveitamento de 71%, a Lufthansa Cargo transportou em exportação 14.600 toneladas de carga, o que representa um aumento de 6,3% comparado com 2013. Já na importação, foram transportadas 22.600 toneladas, 20% menos, comparado ao ano anterior.

Atualmente, a Lufthansa Cargo tem no Brasil oito frequências cargueiras semanais entre Campinas e Frankfurt, sendo três voos via Dacar e destes um dos três via Curitiba, mais dois via Montevidéu e Buenos Aires, e três via Quito, no Equador (um destes voos tem origem preferencial em Curitiba e um em Manaus). Duas operações da Lufthansa Cargo passam por Lima no Peru.

Com a substituição das aeronaves de passageiros nas rotas São Paulo-Frankfurt e no Rio de Janeiro-Frankfurt por modelos maiores e mais modernos, a Lufthansa Cargo tem um aumento de capacidade de carga em porões de 20%. Na rota São Paulo-Frankfurt, a Lufthansa passou a operar o Boeing 747-8 no lugar do Boeing 747-400, e no Rio de Janeiro, o Boeing 747-400 substituiu o Airbus A340-300. Ambas as rotas são operadas todos os dias, assim como o voo que liga São Paulo a Munique, com o Airbus A340-600.

Airbus A330-200
TAP usa os porões do Airbus A330-200 para cargas 

Companhia aérea com maior quantidade de voos para o Brasil para mais de 10 cidades, incluindo algumas do litoral do Nordeste, a TAP Portugal, que foi fundada como Transportes Aéreos Portugueses, utiliza os porões das suas aeronaves Airbus A330-200 e A340-300 para o transporte de carga entre Portugal e o Brasil. Em 2013, a empresa transportou 27.220 toneladas, o que representou um aumento de 5% sobre o transportado em 2012.

A American Airlines, que também utiliza os porões dos seus Boeing 767-300ER e 777-200ER/300ER nos voos para Belo Horizonte, Curitiba, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo e, em 2013, transportou 35.800 toneladas de carga entre os Estados Unidos e o Brasil.

Operando com cargueiros Boeing 777F e os porões de toda a frota de jatos de passageiros da LAN, a LAN Cargo foi responsável pelo transporte de 33.400 toneladas de carga, no ano de 2013. Tendo iniciado as suas operações em 1993, a Atlas Air adquiriu a Polar Air cargo em 2001, e logo assumiu a rota que ela operava para o Brasil, desde 1997. Em 2014, tem operado com aeronaves Boeing 747-400F e 747-8F, com capacidade para 112.700 kg e 134.000 kg, respectivamente, mas, em relação a 2013, a empresa transportou 49.800 toneladas de carga entre os Estados Unidos e o Brasil.

Hoje, a Absa formou junto com a TAM a TAM Cargo, mas, em 2013, quando operava de forma autônoma com uma frota de quatro Boeing 767-300F, a empresa fundada em 1995 transportou 41.200 toneladas de carga.

A Korean Air Cargo iniciou suas operações no Brasil em 2013, e naquele ano transportou 29.600 toneladas de carga. Atualmente, a empresa coreana opera dois voos semanais para o nosso país, com aeronaves Boeing 747-400. Já a Emirates Sky Cargo, que também voa com 747-400, transportou 28.000 toneladas de carga no mesmo período.


Aviação Comercial transporte carga Brasil McDonnell Douglas MD-11 Boeing 767-300F infraestrutura

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