Aviador: profissão ou vocação?

Uns querem aprender a voar pelo total e absoluto prazer de cruzar os céus. Outros se matriculam em uma escola simplesmente pela perspectiva de salários generosos. Uma reflexão sobre a decisão de se tornar piloto

Por Décio Corrêa em 7 de Agosto de 2012 às 05:35


Trabalhar no que se gosta não é trabalho, é diversão. E ninguém pode ser inteiramente feliz trabalhando no que não gosta ou não tem vocação. Não é preciso ser psicólogo para saber que o profissional, seja ele de que área for, consegue desenvolver o seu máximo potencial criativo e produtivo quando trabalha naquilo em que tem vocação. Muitas pessoas costumam confundir talento com vocação e não é incomum ouvir que “fulano tem talento para a medicina, ou para música, mecânica, química, física…”. Talento é um dom natural ou adquirido; uma inteligência excepcional para determinada área de uma profissão. Já a vocação é uma escolha natural e intuitiva, uma predestinação, pendor ou aptidão para uma determinada profissão.

Num exemplo bem simples, alguém tem vocação para a medicina e o seu talento natural ou adquirido irá levá-lo para a cardiologia ou a pediatria. Quando esses fatores se juntam numa pessoa de inteligência excepcional ou pendor natural, vamos encontrar aí os grandes médicos cardiologistas, neurocirurgiões, grandes músicos, escultores ou profissionais consagrados em qualquer área. É possível, mas não comum, encontrar pessoas talentosas em mais de uma área. Como exemplo, um médico talentoso em sua especialidade médica e também um músico habilidoso ou um pintor com pendores para a escultura. Isso é muito comum nas artes plásticas e em outras áreas das ciências humanas, porém, menos comum nas exatas.

Essa é uma discussão que me persegue ao longo da minha vida como aviador. Note que usei a palavra “aviador”, e não piloto ou aeronauta. Os “antigões” com quem convivi e ainda convivo não gostam de serem chamados de pilotos, preferem aviadores. No dicionário, vamos encontrar que piloto é aquele que dirige uma embarcação mercante, subordinado ao comandante ou o que dirige uma aeronave, carro de corrida ou qualquer tipo de embarcação. Já aviador é absolutamente determinante, curto e grosso: piloto de avião. Nos velhos tempos, nos primórdios da aviação, não poderia haver qualquer dúvida quanto à necessidade total e absoluta da vocação para a profissão de aviador. Os riscos e sacrifícios para o piloto se manter vivo e conduzir a sua aeronave, a carga e os passageiros com segurança eram desafiadores. Ninguém escolhia a profissão de aviador civil ou militar sem uma vocação absolutamente definida. Nos últimos 19 anos, recebi algumas centenas de cartas e continuo recebendo outros tantos e-mails me questionando sobre esse tema. Vivenciei e, em alguns casos, pude ajudar histórias impressionantes de homens e mulheres que chegaram ao limite do sacrifício e tiveram de mudar radicalmente as suas vidas, ultrapassar barreiras dificílimas para atingir os seus sonhos e saciar suas vocações. Para todos aqueles que me pedem orientação, costumo afirmar: “Follow your dreams. Sigam os seus corações e persigam os seus sonhos”.

ALÉM DA CAREIRA EM LINHA AÉREA, UM AVIADOR PODE ENCONTRAR A REALIZAÇÃO DE SUA VOCAÇÃO COMO PILOTO DE JATOS EXECUTIVOS , HELICÓPTEROS , AVIÕES AGRÍCOLAS E ATÉ VOANDO PEQUENAS AERONAVES NUM TÁXI-AÉREO

Ser aviador ou piloto de aviões? Satisfazer e atender a uma vocação imperiosa ou simplesmente tornar-se um profissional de aviação? Voar pelo total e absoluto prazer de cruzar os céus ou simplesmente pelo salário generoso? Claro que o dinheiro é importante e deve remunerar o trabalho de um profissional talentoso e dedicado, porém, ele não entra como primeira prioridade. Como um dos cinco países continentais do mundo, o Brasil depende fortemente de um transporte aéreo moderno e eficiente. Isso coloca a busca por aviadores profissionais em uma disputa acirrada entre os principais empregadores. Apesar das recentes demissões e aparentes dificuldades de algumas empresas, isso é sazonal e não reflete o futuro do mercado. Não há como estancar o crescimento do transporte aéreo. Segundo os principais especialistas do mercado, estamos transportando um terço do que deveríamos. O governo federal vem trabalhando num projeto de fomento do transporte aéreo regional e, com isso, espera fazer crescer as linhas-tronco das grandes transportadoras. O exemplo da Azul em Campinas pode ser expandido para mais de uma centena de cidades brasileiras, criando novos hubs que estarão conectados com novos destinos, contornando os grandes centros, como é o caso da Azul e sua fusão com a Trip. Isso impulsiona a necessidade de novos profissionais aviadores.

Essas novas possibilidades colocam a profissão de aviador ou piloto de aviões, como querem alguns, em grande evidência. As perspectivas de bons salários e status indiscutível do uniforme de aviador têm levado muitos homens e mulheres a passarem a pensar na possibilidade de disputar esse mercado. A pergunta que se deve fazer a esses jovens é se estão buscando uma profissão ou atendendo a uma vocação. Voltando ao início: “Talento pode ser um dom natural ou adquirido; vocação jamais”. A profissão de aviador para quem não tem vocação e buscou apenas uma profissão é horrível. Depois de todos os sacrifícios e custos despendidos na formação, ter de encarar uma carreira em que não se tem dia ou hora para o trabalho, depender de uma escala mensal para ser cumprida e enfrentar avaliações médicas e técnicas periodicamente, até o fim de sua carreira, demanda sacrifícios incomuns a qualquer outra profissão.

Apenas na carreira de médico encontra-se devoção semelhante. Ainda assim, os médicos não têm de se submeter às avaliações que se submete um piloto. Cada voo com seus pousos e decolagens é uma operação cirúrgica, como na medicina. Apesar da rotina, o acidente está sempre à espreita. Nunca se está completamente relaxado ou desatento. O cansaço físico e mental são companheiros permanentes de um médico ou aviador. O estudo diuturno é fundamental no bom desempenho da função. Como fazer isso sem vocação? O cockpit de uma aeronave é um dos ambientes mais hostis em que um ser humano pode viver. Tudo o que ali está posto é para advertir a tripulação de que algo pode estar errado. Alguém já definiu a profissão de aviador como “horas de intensa monotonia com segundos de violento terror”. Não precisamos ser tão dramáticos, porém, nenhuma “velha águia” deixou de ter as suas aventuras, por assim dizer.

#Q#

A exemplo do músico, que enfrenta uma agenda desgastante, as horas de palco e o aplauso do público fazem os sacrifícios valerem a pena. Assim é com o aviador e a sua carreira. A profissão de aviador não se resume apenas ao piloto de linha aérea. Um profissional pode encontrar a realização de sua vocação como piloto de jatos executivos, de helicópteros, aviões agrícolas e até voando uma pequena aeronave num táxi-aéreo. Outra questão que merece ser avaliada é a realização, muitas vezes tardia, de uma vocação com uma licença de piloto privado. Em muitos casos, não é preciso ser um profissional de aviação para atender a uma vocação, basta matricular-se em um aeroclube ou comprar ou construir o seu próprio avião. Essa também é uma forma de perseguir sonhos.

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Artigo publicado nesta revista

AERO Magazine 219 · Agosto/2012 · Titulo

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