AERO Magazine

Aero Ideias

Uma crise chamada confiança

Paralisação do Boeing 737 MAX gera crise institucional na indústria aeronáutica

Por Shailon Ian em 14 de Março de 2019 às 14:00

O processo de comprar uma passagem aérea e voar para um determinado destino é baseado em algumas premissas básicas, talvez a principal delas seja: Confiança.

Nós intrinsecamente confiamos no sistema.

Confiamos que o fabricante teve a intenção de projetar uma aeronave segura e que apresentou tudo corretamente para certificação.

Confiamos que a autoridade aeronáutica fez o trabalho durante a certificação e realmente verificou os itens que deveria verificar no projeto.

Confiamos que o fabricante produziu a aeronave de acordo com o projeto certificado.

Confiamos que o fabricante desenvolveu um programa de monitoramento e análise continuada, que apoie a operação da aeronave conforme determina a regulamentação. E confiamos que o operador segue tais programas.

Confiamos que a autoridade aeronáutica fiscaliza esse operador.

Apenas porque confiamos em tudo isso é que podemos navegar em um site, comparar preços e comprar uma passagem. Tudo sem grandes preocupações sobre qual é empresa ou o modelo de avião que vai realizar o voo. Ao menos isso era assim até domingo, 10 de março, por volta das 2h40, aqui no Brasil.

Nesse horário um Boeing 737 Max 8 da Ethiopian caiu pouco depois de decolar matando todos os seus ocupantes. O acidente aconteceu pouco mais de cinco meses após outro acidente semelhante ter tirado a vida de todos os ocupantes de um Boeing 737 Max 8, este na Indonésia.

O que aconteceu? Quais as causas do acidente? Por que o avião caiu?

Não dá para saber em tão pouco tempo. O processo de investigação demanda tempo. Nesse caso somente o tempo de deslocamento das autoridades americanas e do fabricante até o local do acidente já implicaria em algumas horas ou dias.

O que fazer enquanto isso?

As informações preliminares eram de uma situação muito parecida com a possível causa na Indonésia: baixa altitude, decolagem, impacto direto com o solo (em função das imagens dos destroços), muitas semelhanças. O que poderia indicar – mesmo que remotamente – um problema sistêmico. Nesse caso o mais sensato foi parar tudo e aguardar o resultado das investigações.

Em outras situações, com outros modelos, isso já aconteceu. Nos meus tempos de operador de helicópteros, na dúvida parávamos a operação até que a dúvida fosse esclarecida.

A demora da FAA em tomar tal decisão e Boeing em sugerir tal ação não é um bom exemplo para a comunidade aeronáutica. A informações que a FAA alegou possuir ontem para suspender a frota, já estavam disponíveis para análises desde a segunda-feira.

A FAA e a Boeing não podem permitir que a confiança na autoridade aeronáutica e no fabricante, responsável pelo projeto sejam quebradas. Isso afeta todo o sistema de aviação civil e coloca em risco o processo inteiro. Afinal, como posso comprar uma passagem aérea se não tenho confiança no maior fabricante de aviões do mundo?

Segundo a imprensa estrangeira, toda a história em volta do acidente da Lion Air e da certificação desse projeto, é muito “complicada” de entender, principalmente com as questões levantadas sobre o MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System).A alegação por parte de algumas empresas e pilotos de que não havia treinamento previsto para a falha do sistema, nem menção correta e detalhada sobre o mesmo nos manuais. Se tal informação for verdadeira, a Boeing e a FAA devem explicações à comunidade aeronáutica sobre como incluem um software que atua diretamente nos comandos de voo e não alertam o piloto.

A demora da Boeing em atualizar o sistema também é inexplicável. Será temerário caso fique comprovado que nos dois casos ele foi fator contribuinte para as fatalidades. Da mesma forma, caso seja comprovado o MCAS como fator contribuinte a FAA deverá explicar como ela permitiu que a aeronave continuasse voando, cinco meses após um acidente, sem que o fabricante tomasse qualquer ação para corrigir o problema.

Os aviões da Boeing sempre foram reconhecidos como os aviões que “deixam os pilotos pilotarem”, com muita pouca interferência dos sistemas automáticos.

A Pergunta final é: Os pilotos podem confiar nisso?

Shailon Ian é formado pelo ITA como Engenheiro Aeronáutico, é CEO Vinci Aeronáutica.


Cockpit Talk Boeing 737 MAX Lion Air Ethiopian acidente 737


Dois acidentes: Boeing 737 MAX

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