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Como o Paraguai ajudou o Comandante Rolim a transformar a TAM

Paixão pela história, amizades, cultura e visão empresarial fizeram do país um capítulo decisivo na internacionalização da TAM — e, anos depois, no caminho que levaria à criação da LATAM


Imagem Como o Paraguai ajudou o Comandante Rolim a transformar a TAM

Rolim Amaro mantinha uma relação profunda com o Paraguai, marcada pelo interesse pela história de Solano López e Elisa Lynch, pela música local e por amizades construídas no país.

O Paraguai também teve papel estratégico na expansão da TAM, primeiro com a criação da ARPA e depois com a TAM Mercosur, que ampliou a presença regional da companhia.

Essa experiência internacional ajudou a preparar a TAM para voos de longo curso e para a trajetória que, anos depois, culminaria na fusão com a LAN e na criação da LATAM.

A relação do meu pai, o Comandante Rolim Amaro, com o Paraguai sempre foi muito mais profunda do que uma relação empresarial. Ele tinha verdadeira paixão pela história do país, especialmente pela Guerra do Paraguai e pelas figuras de Francisco Solano López e Elisa Lynch. Lia, pesquisava, colecionava livros e se interessava profundamente pela trajetória dos dois.

Solano López conheceu Elisa Lynch em Paris, na década de 1850. Ela deixou a Europa para acompanhá-lo ao Paraguai e se tornaria sua companheira durante os anos mais dramáticos da história do país. Com a Guerra da Tríplice Aliança, o Paraguai foi devastado e, em 1º de março de 1870, López morreu em Cerro Corá. Elisa sobreviveu.

Essa história fascinava meu pai. Ele apoiava pesquisas sobre López e Elisa Lynch e patrocinava um projeto de livro dedicado ao tema.

Há uma coincidência trágica nessa relação. Em 8 de julho de 2001, meu pai seguia de helicóptero justamente para Cerro Corá, onde se encontraria com pesquisadores ligados a esse trabalho. Ele não chegou ao destino. O helicóptero caiu próximo a Pedro Juan Caballero e ele morreu naquele acidente.

É difícil não perceber a força simbólica dessa coincidência: mais de um século depois da morte de Solano López, meu pai perdeu a vida quando seguia para o mesmo lugar, movido por sua curiosidade e paixão por aquela história.

Mas sua ligação com o Paraguai não era apenas histórica. Ele também tinha grande admiração pela música paraguaia, especialmente pela harpa. Gostava de prestigiar arpistas e músicos do país e demonstrava verdadeiro carinho pela cultura paraguaia.

Nesse relacionamento com o país também havia amizades importantes. Uma delas era com Miguel Candia, que mais tarde viria a presidir a TAM Mercosur.Ao mesmo tempo, ele enxergava o Paraguai como uma peça importante no futuro da TAM. Antes mesmo da TAM Mercosur, a companhia já havia dado um primeiro passo concreto no país. Em 1994, criou a ARPA – Aerolíneas Paraguayas, uma pequena empresa aérea subsidiária que operava principalmente com aeronaves Cessna 208 Caravan. A ARPA representou a primeira estrutura própria da TAM no Paraguai e seria fundamental para o passo seguinte.

Em 1996, por meio da ARPA, a TAM adquiriu 80% da antiga LAPSA, sucessora da Líneas Aéreas Paraguayas. As operações acabariam reunidas sob a marca TAM Mercosur – Transportes Aéreos del Mercosur.

Isso mostra que o projeto paraguaio não surgiu de improviso. Houve uma construção gradual: primeiro a ARPA, depois a aquisição da companhia local e, finalmente, uma plataforma regional mais ambiciosa.

Na década de 1990, quando a Varig ainda dominava a presença internacional da aviação brasileira, meu pai já pensava em transformar a TAM em uma empresa além das fronteiras nacionais. A TAM Mercosur fazia parte dessa visão. A partir de Assunção, era possível construir uma rede sul-americana e ampliar a presença da companhia sobretudo na Argentina, além de mercados como Uruguai, Chile e Bolívia.

Os Fokker 100 foram fundamentais nesse processo. Com eles, a TAM ganhou escala, consolidou-se no Brasil e começou a dar passos cada vez mais firmes no mercado internacional.

Depois veio o salto seguinte. Com a chegada dos Airbus A330, a companhia passou a operar rotas de longo curso e iniciou uma nova etapa internacional. A trajetória seguia uma lógica bastante clara: expansão regional, consolidação nacional, ARPA, TAM Mercosur, América do Sul e, finalmente, os voos intercontinentais.

O Paraguai reuniu, para meu pai, dimensões que raramente se encontravam num mesmo lugar: história, cultura, amizade e visão empresarial. Foi ali que ele se aprofundou na trajetória de Solano López e Elisa Lynch, cultivou sua admiração pela música e pela harpa paraguaia, construiu amizades importantes e também enxergou uma plataforma para a internacionalização da TAM.

E essa internacionalização foi decisiva para tudo o que viria depois. Sem a experiência construída no Paraguai, sem a TAM Mercosur, sem a expansão regional e sem os primeiros passos internacionais, seria difícil imaginar a TAM chegando à escala e à maturidade necessárias para, anos mais tarde, pensar numa união com a LAN.

A fusão entre TAM e LAN, anunciada em 2010 e concluída em 2012, deu origem ao grupo que hoje conhecemos como LATAM Airlines Group. Foi o resultado de uma trajetória de décadas, construída passo a passo.

Por isso, o Paraguai ocupa um lugar singular nessa história: foi, ao mesmo tempo, uma paixão pessoal de Rolim, uma peça importante no destino da TAM e um dos primeiros capítulos de uma construção que, anos depois, ajudaria a tornar possível a criação da LATAM.

* Marcos Amaro é empresário, artista plástico e foi membro do conselho da TAM Linhas Áreas.
É sócio fundador e presidente do conselho da Amaro Aviation

Por Marcos Amaro
Publicado em 01/09/2026, às 08h00