Encontro da IATA destacou demanda resiliente, custos elevados, gargalos de infraestrutura, pressão tributária, segurança operacional e o potencial brasileiro na produção de combustível sustentável de aviação

A volta da Assembleia Geral Anual da IATA à América do Sul após 27 anos colocou o Brasil no centro de uma discussão sobre crescimento, custos, infraestrutura, segurança e descarbonização da aviação global.
Conhecido pela sigla em inglês AGM, realizado entre 6 e 8 de junho, o 82º encontro da IATA e o World Air Transport Summit reuniram cerca de 1.500 representantes de companhias aéreas, governos, fabricantes, operadores aeroportuários, fornecedores e imprensa, em uma agenda marcada por demanda resiliente, rentabilidade comprimida, gargalos de suprimento e pressão regulatória.
A escolha do Rio reforçou o peso regional do Brasil, maior mercado aéreo da América do Sul, mas também evidenciou uma contradição. O país foi apresentado pelo governo como território de escala continental, com mercado em expansão, programas de infraestrutura e potencial para liderar a produção de combustível sustentável de aviação. Ao mesmo tempo, a IATA tratou o Brasil como exemplo de risco sistêmico quando políticas públicas elevam custos, reduzem demanda e enfraquecem a conectividade que pretendem estimular.
O vice-presidente Geraldo Alckmin participou do último dia do encontro e apresentou a aviação como política de Estado. Segundo ele, o Brasil transportou quase 130 milhões de passageiros em voos domésticos e internacionais em 2025, alta de 9,4% sobre o ano anterior e 9,2% acima do recorde histórico anterior. Pela primeira vez, o mercado doméstico superou 100 milhões de passageiros em um único ano, enquanto o internacional chegou a 28,4 milhões, mais de 20% acima dos níveis pré-pandemia.
A expansão brasileira é associada à estabilidade econômica do Plano Real, à liberalização tarifária iniciada em 2001 e à criação da ANAC, que simplificou o ambiente regulatório e o tornou mais previsível após diversos contratempos. Em seu discurso, Alckmin também citou 42 obras de infraestrutura aeroportuária concluídas em 2024, com R$ 3,2 bilhões em investimentos, e o Programa Ampliar, voltado à integração de até 102 aeroportos regionais aos contratos de concessão existentes, com potencial de R$ 3,4 bilhões em novos investimentos.
A IATA, porém, colocou a tributação no centro das preocupações locais. A reforma tributária brasileira, estruturada pela Lei Complementar 214, substitui tributos sobre consumo pela CBS e pelo IBS, com transição a partir de 2027 e conclusão prevista para 2033. Para o transporte aéreo, a preocupação é a aplicação da alíquota padrão do IVA Dual, estimada entre 26% e 27%, com redução de 40% prevista apenas para a aviação regional.
Segundo a IATA, o novo modelo pode elevar passagens domésticas em até 23% e bilhetes internacionais em até 26%. Uma passagem doméstica média de R$ 650 poderia chegar a R$ 800 por trecho. No internacional, a tarifa média de US$ 740 poderia subir para cerca de US$ 935, ou aproximadamente R$ 4.660. A associação também projeta retração de até 30% na demanda por transporte aéreo no país. De acordo com Willie Walsh, diretor-geral da IATA, voar não é luxo, mas serviço essencial e catalisador econômico que amplia a base tributária.
O advogado tributarista Daniel Guimarães avaliou que o impacto será particularmente severo porque o setor aéreo operava sob regimes específicos de tributação. Para ele, os créditos disponíveis são insuficientes para compensar o aumento da carga na ponta, sobretudo para o passageiro pessoa física.
A preocupação extrapola o preço médio das passagens: em um país continental, queda de demanda tende a afetar com maior intensidade rotas de menor densidade, mercados regionais e regiões dependentes do avião para acesso a serviços, negócios e integração territorial.
A judicialização apareceu como outro custo brasileiro. Segundo a IATA, o Brasil concentra 95% dos litígios de direitos de passageiros no mundo, com proporção de um processo para cada 227 passageiros, contra um para cada 1,2 milhão nos Estados Unidos. A entidade estima que esse ambiente eleva os preços das passagens entre 3% e 5%, com despesa anual superior a R$ 1 bilhão com advogados e tribunais. A crítica da associação não se dirige à proteção do passageiro, mas à forma como a regulação é desenhada e aplicada.
No plano global, o diagnóstico também foi de pressão. A IATA reduziu pela metade a projeção de lucro do setor aéreo em 2026, para US$ 23 bilhões, diante dos efeitos da guerra no Oriente Médio, da alta do combustível e da desaceleração do crescimento. A margem líquida esperada caiu para 2,0%, contra 4,2% estimados para 2025. O setor ainda deve transportar 5,1 bilhões de passageiros no ano, mas com lucro líquido médio de apenas US$ 4,50 por passageiro.
A conta do combustível segue como vetor central de custo. Segundo a IATA, os preços médios do combustível de aviação devem ficar 70% acima do ano anterior, adicionando US$ 100 bilhões à conta das companhias. A demanda permanece sustentada, mesmo com aumento de tarifas e fretes, mas o crescimento será mais lento: 2,1% no transporte de passageiros e 0,7% na carga.
A cadeia de suprimentos aeronáutica aprofunda o problema. A carteira de pedidos supera 18 mil aeronaves, enquanto a idade média da frota global chegou ao recorde de 15,2 anos. Para a IATA, a incapacidade da indústria de entregar mais de 5 mil aeronaves novas e mais eficientes impediu ganhos de eficiência, pressionou leasing e manutenção e custou pelo menos US$ 11 bilhões às companhias aéreas em 2025.
A infraestrutura foi tratada como limite direto à conectividade. Quase 400 aeroportos já exigem coordenação de slots por falta de capacidade em todos os horários demandados, enquanto sistemas legados de tráfego aéreo têm dificuldade para absorver volumes com eficiência. Walsh afirmou que uma melhoria de 5% na eficiência do gerenciamento de tráfego aéreo poderia economizar US$ 12,5 bilhões por ano e cortar milhões de toneladas de carbono. Na América Latina, a IATA também anunciou a expansão de soluções de carga, com CASS Domestic no México, CASS Export no Paraguai no último trimestre de 2026 e CASS Domestic no Brasil a partir do início de 2027.
Na agenda ambiental, o Brasil apareceu em posição mais favorável. A IATA afirma que as companhias aéreas precisarão de cerca de 500 milhões de toneladas de SAF para cumprir o compromisso de emissões líquidas zero de CO2 até 2050. O Brasil tem potencial de biomassa de cerca de 180 milhões de toneladas até 2050, o que poderia gerar aproximadamente 60 milhões de toneladas de SAF. Para 2030, etanol de açúcar de origem sustentável, óleos virgens e resíduos poderiam chegar a 18 milhões de toneladas de matéria-prima, convertendo-se em cerca de 12 milhões de toneladas de SAF.
O contraste é que a produção global esperada para 2026 é de apenas 2,4 milhões de toneladas, equivalente a 0,8% do consumo de combustível da aviação, a um custo de US$ 4,3 bilhões para as companhias aéreas. A IATA defende mais energia renovável, acesso aberto à infraestrutura de combustíveis, políticas de incentivo e um mercado global de SAF com volumes suficientes e preços viáveis. Também lançou no Rio a Supporting Alliance for CORSIA EEU Supply, para ampliar a disponibilidade de unidades elegíveis de emissões no mecanismo global de compensação da aviação internacional.
A segurança operacional completou a agenda. A entrada da Aeromexico no Turbulence Aware elevou a cobertura regional para mais de 3.200 voos por dia, aumento de 25% sobre 2024. A IATA também lançou a campanha “Save a Life, Not a Bag”, apoiada por EASA e FAA, para reforçar que passageiros devem seguir a tripulação, deixar bagagens para trás e dirigir-se rapidamente à saída utilizável mais próxima em evacuações. A experiência do passageiro ganhou nova dimensão com a entrada da Virgin Atlantic no PaxInsight, ferramenta que mede satisfação em mais de 60 atributos da jornada e reuniu respostas de mais de 57 mil passageiros no último ano.
A mensagem do IATA AGM 2026 foi que a aviação entra em novo ciclo de crescimento com demanda forte, mas limitada por custos, infraestrutura, suprimento, tributação, sustentabilidade e segurança. No Brasil, o encontro expôs um mercado com escala, potencial industrial e oportunidade em SAF, mas também sujeito a decisões regulatórias capazes de transformar crescimento em tarifa mais alta, menor conectividade e perda de eficiência operacional.
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Por Anna Beatriz Santos, Edmundo Ubiratan e Marcel Cardoso do Rio de Janeiro
Publicado em 15/06/2026, às 09h00
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