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História

Senhor B


A Saga do boeing B-29 superfortress, o superbombardeiro responsável pelo fim da segunda guerra com o lançamento das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki


Por Robert Zwerdling

Ricardo beccari
B-29 "Fifi" em apresentação na Air Venture 2011, em Oshkosh, EUA

" De todas as cidades importantes do Japão apenas duas - Kyoto e Hiroshima - ainda não haviam recebido a visita de B-san, sr. B, tratamento que, com um misto de respeito e triste familiaridade, os japoneses dispensavam ao B-29; como todos os seus vizinhos e amigos, o sr. Tanimoto estava quase doente de ansiedade. [...] corriam boatos de que os americanos preparavam algo especial para a cidade", narra John Hersey em seu livro-reportagem Hiroshima (Companhia das Letras), dando uma ideia do temor imposto pelo bombardeiro Boeing B-29 Superfortress às linhas inimigas no final da Segunda Guerra Mundial.

"A sra. Nakamura observava o vizinho quando um clarão de um branco intenso, de um branco que nunca tinha visto até então, iluminou todas as coisas. [...] mal deu um passo (encontrava-se a 1.215 metros do centro da explosão), alguma coisa a levantou e a fez voar até o cômodo contíguo, em meio a partes de sua casa.

Quando ela aterrissou, tábuas caíram a seu redor, e uma chuva de telhas a cobriu. Tudo escureceu. [...] Ouviu uma das crianças gritar 'Mamãe, socorro!' e viu a caçula Myeko, de cinco anos, enterrada até o peito e incapaz de se mexer. Enquanto abria caminho com as mãos, freneticamente, para acudir a menina, não escutou nem avistou o menor sinal dos outros filhos".

O projeto para construção da primeira bomba nuclear começou em 1942 e recebeu o codinome "Manhattan". Os testes foram conduzidos ao longo de dois anos em Los Alamos, Estado do Novo México, e os engenheiros que participavam das pesquisas sabiam que uma arma letal como aquela não só neutralizaria a força dos inimigos do Eixo como também, certamente, reduziria o tempo da guerra, poupando, assim, a vida de milhares de civis ao redor do mundo. Contudo, levar adiante um projeto como aquele era uma medida um tanto delicada e exigiu ponderação por parte do então presidente norte-americano, Franklin Delano Roosevelt - que morreu antes da finalização do projeto. Não menos difícil foi autorizar o uso do armamento sobre o Japão, decisão que coube a seu sucessor, o presidente Harry Truman. Para os norte-americanos, a insistência japonesa na manutenção da guerra abriu um precedente para que o país utilizasse a bomba como um meio para pôr fim ao conflito.

O comandante escalado para a missão foi o coronel Paul Warfield Tibbets, líder de um grupamento vitorioso de bombardeiros B-17 na Europa. Tido como excelente aviador, Tibbets fora escalado para transportar Dwight David Eisenhower, comandante supremo dos Aliados, durante a operação africana "Tocha", realizada em novembro de 1942. Quase dois anos depois, em setembro de 1944, Tibbets conheceu o capitão da marinha William "Deak" Parsons, engenheiro de projeto balístico do projeto "Manhattan" com quem manteve relacionamento estreito durante 11 meses até o lançamento da primeira bomba atômica.

Marcas sobre o chão

No dia 6 de agosto de 1945, às 2h45 (horário local), o B-29 (s/n 44-86292) pertencente ao 509º Grupamento Aéreo, que ostentava o nome de batismo "Enola Gay" - homenagem à mãe de Tibbets -, decolou da base aérea da Ilha Tinian, uma das três pertencentes ao arquipélago das Marianas, no Oceano Pacífico, rumo a Hiroshima. A bomba pesava 4.400 quilos, o que deixou a aeronave com sobrepeso para a decolagem, mas alguns metros a mais de pista foram suficientes para que o quadrimotor deixasse o solo. O bombardeiro voou durante seis horas e meia sem qualquer tipo de problema técnico até que, às 8h15min17seg (hora local), o major Thomas Ferebee comandou o lançamento do "Little Boy", ou "pequeno garoto", artefato que media apenas três metros de comprimento, porém possuía grande poder destruidor, com força equivalente à de 12.500 toneladas de TNT.

National Museum of the USAF O B-29 SUPERFORTRESS FOI O PRIMEIRO BOMBARDEIRO PRESSURIZADO DA USAAF

Pouco antes, o copiloto Robert Lewis tecera este comentário: "Haverá uma pequena interrupção nas transmissões quando a bomba explodir". Apenas 43 segundos depois, a "Little Boy" explodiu sobre a ponte Aioi matando de 70.000 a 80.000 pessoas instantaneamente e causando danos estruturais em 90% da cidade. Perto do ponto do impacto, pessoas foram simplesmente desintegradas, restando apenas marcas sobre o chão. Calcula-se que 242.437 habitantes de Hiroshima e arredores tenham perdido a vida, incluindo aqueles que estavam na cidade quando a bomba explodiu e os que morreram de câncer por conta da exposição às cinzas nucleares.

O impacto da explosão criou uma grande esteira de turbulência, que atingiu o "Enola Gay" a 30 mil pés de altitude. Nem uma manobra de curva de 155 graus executada por Tibbets impediu que a aeronave fosse atingida pela esteira. O "cogumelo" da hecatombe nuclear passou de 45 mil pés (13.500 metros) de altura e podia ser visto a uma distância de 400 milhas náuticas (720 quilômetros). O que não impediu o B-29 de prosseguir em segurança para o seu destino final. A bordo, Tibbets decretou, em voz alta: "Meus caros, nós acabamos de lançar a primeira bomba nuclear da história". Já o navegador Theodore Van Kirk preferiu desabafar: "Obrigado, Deus! A guerra acabou e eu não correrei mais risco de ser derrubado. Agora posso ir para casa".

O que Kirk não previa é que os japoneses só se renderiam após o lançamento da segunda bomba atômica no dia 9 de agosto de 1945, esta sobre Nagasaki. O alvo primário seria Kokura, mas a cidade estava totalmente encoberta por nuvens. Os militares norte-americanos escalaram o B-29 s/n 44-27297, batizado "Bockscar", para a missão. A bomba a ser lançada recebeu o nome de "Fat Man", ou "homem gordo". Às 11h02 (hora local), uma abertura de última hora nas nuvens sobre Nagasaki permitiu ao artilheiro Kermit Beahan estabelecer contato visual com o alvo e liberar a arma letal, que explodiu sobre o vale industrial da cidade e matou 40 mil habitantes instantaneamente, deixando outros 60 mil feridos e com sequelas por envenenamento radioativo.

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