![]() |
Bristol 167 "Brabazon": envergadura maior do que a de um Boeing 747 |
O cliente sumiu
Projetado pela Bristol Aeroplane Company para voar rotas transatlânticas a partir do Reino Unido, o primeiro e único Bristol 167 "Brabazon" alçou voo no dia 4 de setembro de 1949 e encerrou sua curta participação na história em 1953 de forma melancólica: foi totalmente desmontado e, das peças que restaram, algumas foram salvas e hoje estão expostas no museu M Shed, de Bristol (Inglaterra) e no museu nacional do voo, erguido nos arredores de Edimburgo, na Escócia. Tinha o comprimento aproximado de um Boeing 767, mas só transportava 100 passageiros, já que foi projetado com muito luxo, incluindo espaço para abrigar 80 leitos, um cinema com 37 assentos e ainda um minibar.
Desde 1943, o governo inglês vinha estudando propostas para a construção de pelo menos cinco tipos de aeronaves comerciais a pedido do Lorde Brabazon de Tara, pioneiro da aviação no Reino Unido e que ocupava na época o assento de ministro dos Transportes e da Produção Industrial de Aeronaves. A Inglaterra acabou aprovando o desenvolvimento do projeto e a construção de três tipos de aviões: o do Tipo I, para vôos intercontinentais; o do Tipo III, para voos de médio alcance; e o do Tipo IV, que seria um jato comercial que atingiria a velocidade média de 800 km/h. A Bristol, que já tinha um projeto de gaveta para a construção de um superbombardeiro, aproveitou a oportunidade e se colocou à disposição para lançar o projeto da aeronave do Tipo I. O desenho final foi aprovado em novembro de 1944 e o novo avião ganhou a designação Bristol 167 "Brabazon", em homenagem ao lorde aviador.
Ao contrário do desastroso H-4 Hercules ("Spruce Goose"), o "Brabazon" decolou bem, tornando-se o maior avião comercial no final da década de 40. Trazia uma fuselagem com comprimento de 54 metros, e envergadura de 70,1 metros, seis metros a mais do que a de um Boeing 747! Em sua asa, funcionavam oito motores radiais do tipo Bristol Centaurus de 18 cilindros cada um, montados em pares com hélices contrarrotativas. Para que o "Brabazon" perdesse peso, a Bristol investiu em materiais compostos e no desenvolvimento de novos equipamentos, e a aeronave tornou-se a primeira da aviação comercial a ser equipada com um sistema hidráulico completo para manuseio de superfícies de comando, flapes etc.
O Bristol 167, matriculado G-AGPW, realizou seu primeiro voo no dia 4 de setembro de 1949 na pista especialmente preparada para ele no aeródromo de Filton, que passou de um comprimento de 610 metros para 2.440 metros. O voo durou 25 minutos e foi realizado a 3.000 pés (910 metros) com uma velocidade de 160 mph (257 km/h). O avião aterrissou cruzando a cabeceira com uma velocidade de aproximação de 115 mph (185 km/h). Quatro dias depois, a Bristol apresentou o "Brabazon" na feira aérea de Farnborough e, no ano seguinte, levou a aeronave para Le Bourget e promoveu demonstrações no próprio aeroporto inglês de Heathrow, onde realizou diversas manobras de toque e arremetida.
O único senão veio com o anúncio da desistência de compra do avião pela única companhia interessada - se é que realmente houve algum interesse -, a inglesa British Overseas Airways Corporation (BOAC). A concorrente British European Airways (BEA) até se ofereceu para realizar alguns voos com o protótipo, mas foram tantos problemas técnicos que o "Brabazon" nem sequer recebeu o certificado de aeronavegabilidade.
Em 1952, depois de investir nada menos do que £ 3,4 milhões, equivalentes a aproximadamente £ 53,4 milhões nos dias atuais, a Bristol descontinuou o projeto e desistiu da construção de uma segunda versão da aeronave, que seria impulsionada por motores mais potentes e cumpriria o trajeto entre Londres e Nova York em 12 horas. Finalmente, em outubro de 1953, o avião foi cortado em pedaços após realizar 164 viagens, totalizando 382 horas de voo. O "Brabazon" podia decolar com peso máximo de 130 mil quilos, atingindo um teto de serviço de 25.000 pés (7.600 metros), com velocidade máxima de 480 km/h e autonomia de 8.900 km.
![]() |
Breguet 763 "Provence", da Air France: apenas 20 unidades produzidas |
Virou restaurante
A fábrica francesa Breguet também decidiu criar uma aeronave comercial durante a Segunda Guerra Mundial e não demorou muito para apresentar seu Br. 761. A aeronave trazia uma fuselagem bastante avantajada, com dois pisos para acomodação de 100 passageiros, lembrando o que hoje seria um Boeing 747 ou um Airbus A380, porém bem menor e extremamente desengonçado, com a asa instalada no meio da fuselagem entre os dois pavimentos, e a cauda composta por dois estabilizadores verticais nas pontas dos estabilizadores horizontais. O protótipo, de matrícula F-WASK, decolou no dia 15 de fevereiro de 1949 a partir do aeródromo de Villacoublay. Impulsionado por quatro motores radiais Snecma de 1.580 hp, esse avião foi sucedido por outros três, porém, do modelo Br. 761S, que era impulsionado por motores radiais Pratt & Whitney R-2800-B31, de 2.020 hp e trazia uma espécie de "corcundinha" na seção traseira, que ajudava no equilíbrio da aeronave. Os voos para homologação foram realizados sem sobressaltos e as primeiras entregas aconteceriam entre 1951 e 1952. O protótipo foi entregue à Air Algérie em 1952, mas acabou convertido em aeronave cargueira. A inglesa Silver City Airways alugou um dos 761S para participar da ponte aérea entre Hamburgo e Berlim no verão de 1953, tendo transportado 1.800 toneladas de carga em 127 voos de ida e volta. Acreditava- se na época que a companhia se interessaria por adquirir alguns aviões, mas nenhum negócio acabou fechado.
Finalmente, a Breguet lançou a versão Br. 763 "Provence", com motores mais potentes, uma envergadura um pouco maior e capacidade para transportar 59 passageiros no deck superior e 48 no inferior - havia um elevador entre os dois pavimentos. A Air France acabou se interessando e comprou seis desses para suas rotas de média distância, e o governo francês ficou com outros seis. Mais tarde, a companhia francesa optou por repassar suas seis aeronaves para a Força Aérea Francesa, que também ficou com os três Br. 761S de pré-produção e mais quatro novos Br.765 "Sahara", esta uma versão cargueira criada pela Breguet, que trazia portas removíveis para facilitar o embarque das mercadorias a bordo.
Com fuselagem avantajada, o quadrimotor desengonçado da Breguet tinha dois andares
A chegada dos primeiros jatos comerciais ao mercado acabou colocando um ponto final no projeto da Breguet para o lançamento de outras versões do seu avião desengonçado. Ainda em 1958, o próprio fabricante arrendou um dos aviões da Air France, matriculado F-BASQ, e realizou um tour pelas Américas, incluindo paradas no Rio de Janeiro e em Brasília, com o intuito de fechar novas vendas, o que acabou não acontecendo. O último voo comercial operado pela Air France ocorreu em 31 de março de 1971, entre Heathrow e o aeroporto de Orly, em Paris. A Força Aérea Francesa ainda operou seus aviões até 1972, utilizando-os para o transporte de tropas e cargas nas missões de testes nucleares no Pacífico.
PÁGINAS :: 1 | 2 | 3 | Próxima >>