Análise

Quase 10% da frota do avião que transportava a delegação da Chapecoense se envolveu em acidentes

Das 391 unidades fabricadas até 2002, 31 já sofreram desastres, sendo que 17 tiveram perda total

Shailon Ian em 29 de Novembro de 2016 às 09:15

O Brasil acordou hoje com uma notícia triste. A exemplo do que aconteceu em 1949 com o time do Torino na Europa, um acidente aéreo vitimou grande parte do time da Chapecoense nesta madrugada na Colômbia.

As informações durante boa parte da noite e manhã ainda foram imprecisas e qualquer especulação sobre as causas do acidente são, no mínimo, prematuras neste momento.

Entretanto, mesmo com toda a comoção que uma tragédia desse tipo acompanha, uma pergunta já pode ser feita:

Por que contratar uma empresa boliviana, subsidiária de uma empresa venezuelana, para realizar o voo?


Fotos: Policia Antioquia

A imprensa noticiou que a ANAC não autorizou o fretamento de uma empresa venezuelana para realizar o referido voo a partir de São Paulo.

A ANAC negou o voo, corretamente, pois existem regras e tratados internacionais a serem seguidos. Nesse caso, um fretamento entre Brasil e Colômbia deve ser efetuado preferencialmente com empresas Brasileiras ou Colombianas. Não há nada de absurdo na negativa da ANAC.

Entretanto as motivações para contratação de uma empresa venezuelana e posterior troca por uma empresa boliviana não parece ser a decisão mais acertada tecnicamente.

A decisão pela contratação de um fretamento envolve questões técnicas e financeiras.

Do ponto de vista técnico a aeronave fretada teve cerca de 360 unidades fabricadas até 2002. Destas, 31 já sofreram acidentes, sendo que 15 tiveram perda total. Em resumo, aproximadamente 10% das aeronaves fabricadas já caíram.

Como comparação o Airbus A320 já tem mais de 4.050 unidades produzidas com 71 acidentes e 31 perdas totais. Ou menos de 1%.

Estes dados são públicos e qualquer profissional do meio deveria consultá-los antes de decidir por uma contratação.

Adicionalmente, na América do Sul alguns países têm indicadores de acidentes aéreos piores do que outros. O Brasil e a Colômbia estão entre os mais seguros.

Para completar, o Brasil possui pelo menos seis empresas capazes de realizar o voo e a Colômbia outras duas.

Eventualmente todas as oito empresas poderiam estar com suas mais de 300 aeronaves ocupadas e indisponíveis para o fretamento. Mas as chances disso ter acontecido são pequenas.

Chances, probabilidade, risco. A decisão tecnicamente correta quando da contratação de um fretamento passa exatamente por essa análise. Ao contratar uma empresa de um país com indicadores de segurança aéreo piores do que os brasileiros em uma aeronave onde 10% da frota já se acidentou a equipe acabou sendo exposta a um risco muito superior ao que seria, caso a empresa fosse de um país e aeronave com indicadores de segurança melhores.

Então, se tecnicamente a decisão não foi a melhor, qual foi o motivador? Por que expor o time sensação do Brasil no momento a esse risco?

Confira o Comunicado da ANAC

A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) informa que a empresa boliviana Lamia Corporation solicitou autorização de voo à ANAC para o transporte do time de futebol Chapecoense que faria um torneio na Colômbia. O voo partiria do Brasil para a Colômbia, na segunda-feira, 29/11, segundo a solicitação. O pedido foi negado com base no Código Brasileiro de Aeronáutica (CBAer) e na Convenção de Chicago, que trata dos acordos de serviços aéreos entre os países. O acordo com a Bolívia, país originário da companhia aérea Lamia, não prevê operações como a solicitada.
 
Complementando a negativa do pedido, a ANAC informou ao solicitante do voo que o transporte poderia ser realizado por empresa aérea brasileira e/ou colombiana, conforme a escolha do contratante do serviço, nos termos dos acordos internacionais em vigor.
 
A ANAC se solidariza com os familiares das vítimas do acidente ocorrido nesta madrugada, 29/11, com o time da Chapecoense, nas proximidades de Medellín, na Colômbia.
 
Abaixo gráfico com o número total de acidentes fatais e com perda total com aeronaves fora de linha

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