Virou sucata

Termina a agonia dos aviões da Vasp abandonados em Congonhas. Eles agora vão para o ferro-velho, despedaçados

Rodrigo Cozzato em 18 de Outubro de 2011 às 07:53

Alexandre Polati
Boeing 737-200, prefixo PP-SMG, fotografado durante o pouso no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em maio de 2003...

Chove no aeroporto de Congonhas, em São Paulo (SP). O céu cinza prenuncia uma terça-feira fúnebre para os Boeing 737 da Vasp parados há mais de seis anos no pátio próximo ao hangar 3. Suas fuselagens, outrora reluzentes, ainda ostentam a pintura da empresa fundada em 1933, mas sem o brilho do passado dourado. Desprovidos de motores, os aviões precisam de auxílio para se mover. Durante o tempo em que ali permaneceram, os ativos da hoje falida Vasp pereceram aos poucos, alheios ao intenso movimento de pousos e decolagens do principal aeroporto doméstico do país. Agora, como presas indefesas encurraladas por um predador, agonizam diante de seu algoz, uma escavadeira hidráulica de 22 toneladas com uma tesoura de corte e sucateamento na ponta.

A demolição mecânica começa ao som grave dos motores da máquina compassado pelo choque entre as ligas metálicas. A cada golpe, as mandíbulas da tesoura rompem com relativa facilidade a carapaça de sua vítima aeronáutica. As lâminas afiadas e a força de mais de 110 toneladas de compressão da garra da escavadeira parecem recortar como papel a fuselagem do Boeing.

O trabalho prossegue por quase dois dias e, no final, o avião já está retalhado em pedaços. "É como um quebra-cabeça gigante com placas de dois metros por um", descreve o operador de máquinas Wilson Silva Andrade, da Renco Equipamentos, contratada para executar o trabalho, referindo-se ao que sobrou do jato. "É a primeira vez que recorto um avião. A área mais difícil é a parte de baixo da asa, onde fica o tanque de combustível. O que dá pena é ver o olhar desolado dos ex-funcionários da Vasp enquanto faço o meu serviço. De vez em quando, um ou outro recolhia alguma peça mais valiosa do chão e separava para leilão".

O trabalho de sucateamento das quatro primeiras aeronaves da Vasp no aeroporto de Congonhas, que aconteceu no final do mês de agosto, durou pouco mais de cinco dias. Outros dois aviões aguardavam demolição até o fechamento desta edição. Em breve, os lotes com placas recortadas serão leiloados separadamente e o dinheiro arrecadado ajudará a pagar dívidas trabalhistas da Vasp.

Um leilão para entusiastas

Rodrigo Cozzato

Não só a demolição de seus aviões locados em Congonhas rendeu manchetes à Vasp. Em setembro, a Justiça iniciou o leilão de artigos diversos de sua massa falida e fez a alegria de aficionados por aviação com verdadeiros objetos de desejo, tais como maquetes, broches, porta-cartões, quadros e outros.

Foram 20 lotes com lances iniciais em torno de R$ 200,00. Um a um, os lotes foram disputados por gente da plateia e também internautas. Os mais concorridos, com maquetes grandes de MD-11, foram arrematados por mais de R$ 700,00. No final, a Justiça arrecadou R$ 8.249,00. Pouco perto dos R$ 6,5 bilhões de dívidas que a Vasp deixou para trás.

O estudante Lucas Otto levou dois lotes para casa, mas quem arrematou as peças por ele foi seu pai, Paulo Otto. "Ele é menor e não podia dar os lances. Gosto de aviação 'das antigas' e fico satisfeito em ver meu filho também se interessar pelo assunto". Para levar para casa duas maquetes, bonés, porta-cartões e dois quadros - um deles de um Saab 90 Scandia da Vasp, o preferido de Lucas -, pai e filho desembolsaram em torno de R$ 600,00. Até agora, a Justiça conseguiu arrecadar pouco mais de R$ 50 milhões com leilões de outros bens da antiga companhia aérea.

Ainda serão realizados outros três, um deles ainda este ano, no qual serão leiloados objetos curiosos, como caixas-pretas e roupas dos tripulantes. Prepare seus bolsos.

Aviões da Vasp ocupavam uma área de 170 mil m2, cerca de 10% do Aeroporto de Congonhas

Luiz Silveira/Agência CNJ
... o mesmo PP-SMG, em agosto de 2011, sendo picotado para ser vendido como sucata


#Q#

Para a ministra-corregedora nacional de Justiça, Eliana Calmon, a questão envolvendo aeronaves abandonados é simples: "Avião que não voa, não é avião". Ela engrossa o coro daqueles que defendem a limpeza de áreas nobres de aeroportos sedentos por espaço. Até o início da demolição, os aviões da Vasp ocupavam uma área de 170 mil metros quadrados em Congonhas, cerca de 10% do aeroporto. Segundo a Justiça, o problema se estende por diversos outros terminais. São mais de cem aeronaves grandes e pequenas espalhadas pelo Brasil afora que o Programa Espaço Livre, do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), promete transformar em ferro-velho. No caso da Vasp, a massa falida da extinta companhia aérea, além de desocupar o pátio, passa a economizar despesas mensais de diárias de estadia no aeroporto.

Estão cortando o Brega

Para o comandante Rosa Neto, que pilotou aeronaves da Vasp por 20 anos, a reação diante da desfiguração dos aviões é visceral. Sua expressão ao saber do fim dos 737 diz tudo: "Estão cortando o Brega!". O apelido jocoso dos Boeing 737-200 é uma alusão à novela Brega & Chique, da Rede Globo, sucesso no distante ano de 1987. O -200, sem muitos recursos, um avião clássico, começou a ser chamado de "Brega" assim que a Vasp recebeu os primeiros -300, com dispositivos eletrônicos, logo apelidados de "Chique".

Rosa Neto tem aproximadamente seis mil horas voadas no Brega. Também passou pelos, à época, moderníssimos MD11 e A340 antes de decidir voar fora do Brasil. O saudosismo pelo antigo 737 ficou para trás. "Estamos sempre ansiosos por um novo equipamento, que seja cada vez mais moderno". Mas o piloto admite guardar boas lembranças daquela época. "Vão-se os aviões, ficam as recordações. Sem internet e celular, tínhamos tempo para conversar com os tripulantes e o pessoal de solo, conhecer as pessoas e os lugares.". A saudade, porém, passa rápido ao falar do equipamento que comanda atualmente, o 737 Next Generation: "A evolução da aviação é incontestável e absolutamente irrefreável".

Outro ex-vaspiano, Evandro Newton de Campos, conhecido como comandante Prado, teve uma reação menos efusiva diante da demolição dos jatos. "Que avião é esse?", quis saber o piloto, ao ver pela TV, ao lado do filho, Flávio, o 737 sendo cortado. Sua intenção era descobrir a matrícula do jato, já que também comandou o Brega por 20 anos e é certamente um dos pilotos brasileiros com mais horas voadas nesse tipo de aeronave: são 12 mil horas somente nos 737 da Vasp. Ao ver a tesoura hidráulica em ação, um sentimento melancólico lhe percorre. "Existe algo de mim no avião e algo dele em mim. Não queria vê-lo terminando desse jeito". Prado prefere dizer que voava o "Clássico" em vez do Brega, ou seja, o 737 original, sem adornos tecnológicos, mas que inspirava muita confiança em quem o comandava. "Ele tinha uma manutenção impecável, tanto que a Boeing sempre mandava seus funcionários para voar com a gente e avaliar as operações".

A demolição dos Boeing da Vasp inaugura novos tempos. Agora, os Bregas (ou Clássicos) não mais voarão. "Alguma coisa deveria ter sido feita para os aviões não ficarem parados", lamenta Prado, para quem as aeronaves deveriam ter sido vendidas a outras empresas e mantidas em condições de voo, ou doadas a museus. "Deixaram eles largados para depois picotá-los e vendê-los como sucata. Uma triste lembrança do fim da companhia", avalia o piloto, que ainda tem uma preocupação especial com o "Mike Alpha", o primeiro Boeing 737-200 a voar no Brasil com as cores da Vasp: "Vão picotá-lo também?". Felizmente, não.

O PP-SMA terá um destino diferente de seus irmãos. Ele foi cedido ao Museu TAM e será levado por terra até São Carlos (SP) para restauração. Não há, no entanto, data definida para exibição do clássico 737. João Amaro, presidente do museu, adianta apenas que já convocou antigos mecânicos da Vasp para tentar tornar o Brega, quem sabe, chique.

O que fazer com a frota abandonada?

O empresário Anselmo D´Almeida, sócio-diretor da Renco Equipamentos, empresa contratada para demolir os aviões da Vasp, defende que o restante da frota abandonada nos aeroportos do país tenha um destino diferente do sucateamento. Para ele, não há necessidade de transformar tudo em ferro-velho. "Esses aviões podem virar restaurantes, brinquedos de parques de diversão ou áreas de eventos de clubes e empresas", defende o executivo. "Podemos também fazer um recorte mais técnico, aproveitando melhor as partes do avião, como, por exemplo, tubos hidráulicos e outras estruturas, que teriam compradores no mercado".

Aviação Comercial

Artigo publicado nesta revista


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