Roscoe Turner, o senhor da velocidade

As façanhas do mais rápido, criativo e competitivo piloto do mundo no início dos anos 1930

Por Ernesto Klotzel / Fotos Smithsonian em 15 de Julho de 2015 às 00:00

Roscoe Turner

Nenhuma outra palavra representa melhor a contribuição de Roscoe Turner para a aviação do que velocidade. Mas, mesmo reconhecido pelo exibicionismo e pelos recordes de velocidade na década de 1930, os anos de corrida aérea trouxeram-lhe tamanha pressão, que os pesadelos se tornaram frequentes. Uma parte da imprensa o chamava de “super-homem” e “imortal”, enquanto a outra estava sempre de obituário à mão. Turner quebrou recordes intercontinentais mais vezes do que qualquer outro piloto. Em um deles, em 1929, estabeleceu uma nova marca de tempo entre Los Angeles e Nova York, transportando um passageiro. Também era um showman. Durante seus dias de barnstorming – misto de um arrojado circo aéreo, festa rural e oferta de voos curtos para a população que nunca havia voado –, Roscoe Turner se apresentava com um visual de cinema, com uniforme pseudomilitar vistoso e insígnias que inventou, e que o acompanhou durante boa parte de sua vida. Além disso, assumiu a “patente” de coronel, uma outorga do governo de Las Vegas, em agradecimento à promoção da cidade.

Leão a bordo

A parte mais inusitada da carreira deste verdadeiro personagem aeronáutico é que, em muitos de seus voos, de acrobacia, corrida aérea, e tentativa de recorde, era acompanhado por Gilmore, um leãozinho de estimação que tornou-se, durante algum tempo, uma estrela independente, com paraquedas próprio para casos de emergência. Nos hotéis em que ficavam durante as turnês, apresentavam-se como a dupla “Turner-Gilmore”.

Em 1933, Turner venceu a corrida Bendix Transcontinental. Foi o único piloto a vencer a Thompson Trophy Races em 1934, 1938 e 1939. Aliás, ele e o famoso Jimmy Doolittle são os únicos pilotos que venceram os dois troféus, Thompson e Bendix. Em 1934, Turner foi patrocinador e comandante da única equipe norte-americana que terminou a McRobertson International Air Race, de Londres, na Inglaterra, a Melbourne, na Austrália, obtendo o segundo lugar na categoria velocidade.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o piloto implantou um instituto para treinar pilotos. Ele recebeu a famosa medalha Distinguished Flying Cross em 1952 por um ato do Congresso dos EUA por sua contribuição para o desenvolvimento da aviação e pioneirismo em voos de alta velocidade. Fora a primeira comenda do Congresso em 20 anos. Turner também se tornaria consultor do Comitê de Ciência e Astronáutica da casa.

O inimitável

O inimitável e muito admirado coronel Roscoe Turner tornou-se um dos mais renomados nomes da aviação ao final dos anos 1920 e início dos 1930. Era uma época quase única durante a qual despontavam os feitos de um pequeno grupo de pilotos arrojados, engenheiros dedicados e líderes dos ares. Desse grupo fazia parte gente da têmpera de Turner, um precursor que confiava a própria vida não somente à sua competência, mas aos construtores dos aviões que pilotava.

Enquanto voava atrás de novos recordes, emocionando multidões e colhendo os louros da vitória, esse seleto grupo também estabelecia o estímulo vital ao desenvolvimento técnico da aeronáutica, mantendo vivo o interesse pela aviação em épocas de arrefecimento por parte do governo e da opinião pública.

Começo difícil

Roscoe Turner nasceu em 29 de setembro de 1895 em uma cabine de madeira em Corinth, região rural do Mississipi. Ainda menino, desenvolveu uma afinidade incomum com a velocidade. Primeiro fascinado com o trem que passava perto da propriedade da família, sob os olhares de reprovação do pai. E, mais tarde, quando uma caravana de primitivos automóveis passou pela estrada. Muito cedo Roscoe decidiu que queria ser motorista e piloto de corridas. A resposta do pai: “Você nunca valerá nada se continuar pensando em mexer com coisas que consomem gasolina no lugar de aveia”, uma referência aos cavalos do arado que Roscoe tinha de pilotar na época.

Com 16 anos de idade, o jovem sonhador fugiu de casa, dirigindo-se a Memphis, Tennessee, onde atuou como motorista primeiro de um caminhão de distribuição de gelo e depois de um táxi antes de se tornar, finalmente, um competente mecânico de automóveis, para distribuidores locais das marcas Packard e Cadillac.

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Turner tentou se alistar na seção de aviação do Corpo de Sinaleiros, mas foi rejeitado porque lhe faltava dois anos de ginásio. Após a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial, Turner se alistou no Corpo de Ambulâncias e foi enviado à França. No ano seguinte, ele se transferiu para a seção de aviação, mas o armistício foi assinado antes que pudesse entrar em combate.


Turner chegou a competir no National Air Races

Circo e cinema

Em 1919, Turner e um parceiro fundaram o Roscoe Turner Flying Circus e, durante cinco anos, apresentaram espetáculos altamente arrojados, envolvendo sempre risco de acidentes fatais. Posteriormente, adotaram um avião Sikorsky “cabinado”. Durante algum tempo, ele ambientou o interior à semelhança de uma tabacaria. Mais tarde, utilizou a cabine do avião para promover chás para damas da sociedade e como estúdio para programas radiofônicos.

Não demorou e Hollywood o convocou, tendo aceitação plena. A telona era um dos cenários naturais para um dos maiores “vendedores e promotores dos serviços de aviação que o mundo já havia conhecido”. Na terra do cinema, Turner tornou-se dublê aeronáutico no épico “Hell’s Angels”, primeiro filme do igualmente famoso aviador milionário Howard Hughes. Seu Sikorsky, travestido em bombardeiro alemão, foi abatido em chamas – por exigência do roteiro. Não passou muito tempo até que Turner, atraído pela velocidade, como já se tornara lugar-comum, entrou para o “vale-tudo”, a competição National Air Races. Seu pequeno biplano Timm não era páreo para os velozes Lockheed. Resultado: ficou na última posição. Mas valeu a experiência e rendeu o amor pelas aeronaves Lockheed.

Ainda no fim dos anos 1920, Turner partiu para nova empreitada. Ele ajudou a organizar a Nevada Airlines, que passou a operar entre Los Angeles, Reno e Las Vegas. Após o batismo de seus quatro Lockheed ‘Vegas’, o incansável empresário converteu uma das aeronaves em um luxuoso cartão de visitas. Provou, então, a praticidade do voo transcontinental de passageiros, ao voar os ‘Vegas’ de Los Angeles a Nova York com quatro passageiros a bordo.

O bigode e o ‘mascote’

Após receber do governador de Nevada o titulo de “coronel”, Roscoe adquiriu um uniforme resplandecente, insígnias luxuosas de sua criação e um bigodinho de galã (ou vilão) de Hollywood sempre caprichado pelos salões de barbeiro que se tornou sua marca registrada.

Proclamando que seus Lockheed eram os aviões mais rápidos do mundo, Turner se inscreveu no derby Cleveland-Los Angeles nas corridas aéreas de 1929. Acabou desqualificado ao pousar após o limite das 18h00. No mesmo evento participou de uma repescagem terminando em terceiro lugar.

Em uma brilhante jogada de marketing, Turner convenceu a Gilmore Oil Co. (mais tarde Mobil) a comprar um avião Lockheed Air Express e a animar a cabeça de leão que era a logomarca da empresa. Em seguida, comprou um filhote de leão e o batizou “Gilmore”. O ano já era 1930. Em pouco tempo, Roscoe Turner ficou conhecido de milhões como o homem que voava com um leão, e multidões procuravam conhecer o insólito par.

Foi a dupla Turner-Gilmore que estabeleceu o recorde Leste-Oeste em voo entre o Canadá e o México. Foi também o último voo de Gilmore como parte da tripulação, após nada menos de 25.000 milhas de voo. O leão já era um animal adulto e, embora sempre dócil, foi derrotado pela balança. Pesaroso, Turner teve de admitir que o porte (e, principalmente, o peso) de um leão adulto frustraria qualquer pretensão de quebra de recordes ou vitória em corrida aérea.

A era das vitórias

Uma nova era teve início em 1932, quando Turner adquiriu um avião de corridas Wedell-Williams, batizado “Gilmore Lion”. O piloto participou da edição de 1932 da Bendix Race e obteve o terceiro lugar. Em seguida, se inscreveu para a corrida Thompson Trophy e também terminou no terceiro posto. Mesma posição obtida no dia seguinte, no Shell Oil Speed Dash. Mais tarde, ele bateu novo recorde transcontinental, de 12 horas e 45 minutos.

Em 1933, Turner não encontrou dificuldade para vencer a edição do ano da Bendix Race de Nova York a Los Angeles com um tempo que ficou intacto por cinco anos. Também ficou em primeiro lugar na corrida Shell Oil Speed Dash e comandou a Thompson Race, tendo sido desqualificado após receber o troféu. Mesmo assim, Turner, mais tarde, recebeu o Clifford Henderson Trophy, como o piloto de velocidade número 1 da América. Na ocasião, ele estabeleceu um novo recorde transcontinental Oeste-Leste.

Leãozinho Gilmore era o membro mais famoso da equipe

Para as corridas de 1934, Turner modificou o motor de seu avião, vencendo a exaustiva prova Thompson Trophy, sua primeira em três tentativas. Em outubro de 1934, 20 aviões partiram da Inglaterra para a maior corrida aérea na história – a Robertson Race, para a Austrália. Turner e sua tripulação levaram seu poderoso Boeing até Atenas, depois Bagdá, Karachi, Allahabadd e Cingapura. Quando finalmente chegaram à Austrália, receberam 1.500 libras pelo sacrifício, embora a corrida tenha custado US$ 35 mil para Turner, que levaria cinco anos para saldar a dívida.

Das corridas à guerra

Turner pilotou seu radicalmente novo Turner Laid ‘Meteor’ na edição de 1937 da Thompson Race. Na prova, ao assumir a ponta após 18 voltas, acabou desqualificado por deixar de cumprir uma passagem por um dos pilones – segundo os juízes. Quando cruzou a linha de chegada em 1938, Turner se tornou o único bicampeão da Thompson, recebendo ainda o Allegheny-Ludlum Trophy, por estabelecer o recorde da volta de 293 milhas/hora.

Na edição de 1939 da Thompson, mais uma vez, o intrépido piloto norte-americano perdeu um pilone e teve de repetir o exercício. Sua extrema competência aliada à habilidade aeronáutica permitiu uma “virada” sensacional: de último a primeiro, conquistando o clássico mais uma vez.
Naquele ponto da vida, Roscoe Turner achou que era hora de desacelerar. O ano era 1940 quando estabeleceu em Indianápolis a Roscoe Turner Aeronautical Corporation e inaugurou uma escola de pilotagem. Pouco depois, quando parecia iminente a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, o aviador formou a Turner Aviation Institute para ajudar a treinar instrutores de voo, pilotos e mecânicos que seriam exigidos pelo esforço de guerra dos EUA.

Poderio aéreo

Com o término do conflito mundial, Roscoe Turner foi profético: “A aviação vai controlar o mundo econômica e militarmente, gostando ou não. Poderio aéreo não significa somente aviação militar, mas também aviação civil. Poder aéreo é poder pacífico”.

Ao longo dos anos 1950 e 1960, Turner continuou a contribuir para o desenvolvimento da aviação por meio de sua escola de pilotagem e das vendas de aviões e serviços em Indianápolis. Roscoe Turner faleceu em 23 de junho de 1970.


História Roscoe Turner o senhor da velocidade showman barnstorming

Artigo publicado nesta revista

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