Negócios

Quem vai ficar com a TAP?

Endividada, a companhia aérea estatal deve ser privatizada ainda em 2012. Em jogo, mais de 70 frequências semanais ligando Portugal e Brasil

Santiago Oliver E Alexandre Coutinho, De Lisboa em 3 de Outubro de 2012 às 07:51

Foto: Ediney Ribeiro

Aeronaves retiradas da frota com contratos de leasing ainda ativos, empréstimos bancários por pagar, dívidas com fornecedores e responsabilidades assumidas para compras futuras, como o pedido de 12 aviões Airbus A350. Com forte concorrência das low cost e sérios problemas administrativos, a situação financeira da TAP Portugal tornou-se insustentável. O resultado desse processo é que a companhia aérea nacional portuguesa deve ser privatizada ainda este ano, como parte da ajuda de €70 milhões combinada com a União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas a pergunta que se faz nos bastidores da aviação regular é quem arrematará a companhia com mais voos para Brasil?

A situação da TAP Portual é delicada e requer uma solução imediata, como se sabe, sobretudo em um cenário de greves e alta no preço dos combustíveis. Segundo o balanço interno, a empresa terminou o primeiro semestre deste ano com um resultado negativo de €112 milhões, um agravamento de 14,6% em relação ao mesmo período de 2011. Ainda pelo levantamento da TAP, os problemas trabalhistas tiveram um impacto direto de €21,6 milhões, embora a companhia tenha conseguido aumentar a receita para pouco mais de €1 bilhão, 9% acima do mesmo período do ano anterior. Na TAP Maintenance&Engineering, o prejuízo diminuiu de €30,1 milhões no primeiro semestre de 2011 para €20,7 milhões no mesmo período deste ano. Como boa notícia, o desempenho operacional da companhia aérea melhorou 4,7%. Mas nada que a tire do vermelho no curto prazo.

O principal atrativo da TAP é sua interconexão entre Portugal e Brasil. São mais de 70 frequências semanais ligando os dois países. O alcance da companhia aérea portuguesa, no entanto, vai além de seu principal parceiro sul-americano. Em setembro de 2012, a rede de rotas da TAP compreendia 76 destinos em 34 países. Esses voos eram realizados com uma frota de 56 jatos Airbus, sendo 24 de corredor único (quatro A319, 17 A320 e três A321), 16 widebodies (12 A330-200 e quatro A340-300) e mais 16 da sua subsidiária regional Portugália Airlines (oito Embraer 145, seis Fokker 100 e dois Beech 1900). A última injeção de capital que a transportadora recebeu do Estado foi em 1994. A privatização da TAP prevê aumento de capital e venda de ações aos trabalhadores.

Foto: Ediney Ribeiro
Airbus A340-300 compõe a frota de 56 jatos da TAP, que voa para 76 destinos em 34 países

As estimativas dão conta de que o comprador da TAP terá de investir pelo menos €500 milhões para recuperar a companhia portuguesa. Dez empresas tiveram acesso ao dossiê informativo do processo de privatização da TAP das quais apenas três fizeram propostas durante o prazo de entrega para ofertas não vinculadas para a compra da companhia aérea portuguesa. Entre elas, acredita-se, estariam a Latam, a Etihad, de Abu Dhabi, e uma companhia asiática cuja identidade permanece desconhecida. Os primeiros que desistiram do processo de reprivatização da TAP foram o grupo IAG (British Airways e Iberia), seguido por Lufthansa e Avianca Taca (grupo Sinergy).


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Os candidatos têm, agora, até ao dia 7 de novembro para apresentar suas propostas finais, respeitando as regras estipuladas no diploma que o governo português publicou, em setembro último, no Diário da República. O processo é constituído por uma ou mais operações de aumento de capital da TAP SGPS (holding), a subscrever por um ou mais investidores, bem como pela alienação da totalidade das ações representativas do capital social da companhia, na modalidade de venda direta. Está igualmente prevista uma Oferta Pública de Venda (OPV) de ações reservadas aos trabalhadores.

Face à situação econômico-financeira da empresa e do contexto regulatório e econômico do mercado internacional em que a TAP atua, o governo escolheu a opção da venda direta, por entender ser a mais adequada para assegurar a seleção de um ou mais investidores de referência, que propiciem à companhia aérea portuguesa as condições necessárias que lhe permitam manter-se como uma estrutura empresarial com uma posição competitiva em escala global.

TRÊS GRUPOS FIZERAM PROPOSTAS DE COMPRA DA TAP. ENTRE ELES ESTARIAM A LATAM, A ETIHAD E UMA EMPRESA ASIÁTICA

O grupo que vier a comprar a companhia portuguesa, no entanto, tem de respeitar um período de indisponibilidade durante um prazo mínimo de cinco anos e um máximo de dez anos, estipula o referido decreto-lei. "O governo considera que o processo de reprivatização da TAP deverá respeitar a importância estratégica do chamado 'hub de Lisboa', como elo fundamental nas relações com a Europa, a África e a América Latina, onde as operações aéreas da TAP são um elemento primordial. Nesse processo está em causa uma empresa que apresenta forte ligação ao país, ligação essa que importa manter, afigurando-se por isso relevante privilegiar a manutenção do seu pendor característico enquanto 'companhia de bandeira'", acrescenta o documento.

MAIS DE 65 ANOS DE HISTÓRIA
A TAP é a empresa de bandeira de Portugal. Ela nasceu em 14 de março de 1945 com a criação da Seção de Transportes Aéreos, sob o nome Transportes Aéreos Portugueses, e começou os serviços em 16 de setembro de 1946. Inicialmente, foram adquiridos dois aviões Douglas DC-3, em 1948, os quadrimotores DC-4 e, em 1955, após dois anos de passar de estatal a Sociedade Anônima de Responsabilidade Limitada (SARL), os cinco Lockheed Super Constellation. Também em 1955 foi realizado o voo experimental para o Rio de Janeiro com os Douglas DC-4.

Foto: Ediney Ribeiro
Estimativas dão conta de que o comprador da TAP terá de investir pelo menos €500 milhões, além de considerar sua condição de "companhia de bandeira" de Portugal

Em 1958, a TAP ultrapassou a quantia de um milhar de funcionários (1.009), os 14.000 km (14.539) percorridos, as 10.000 horas voadas e os 60.000 passageiros (64.553) embarcados. Em 1960, foram inaugurados os "voos da amizade" entre Lisboa e o Rio de Janeiro para portugueses, brasileiros e estrangeiros residentes nos dois países, com tarifas à metade do preço normal de uma passagem na época.

A TAP entrou na era do jato em 1962, com a aquisição de três jatos franceses Caravelle, iniciou os voos regulares para o Rio de Janeiro em 1966 e se tornou a primeira companhia aérea europeia a operar exclusivamente com jatos em 1967. Os dois Boeing 747-200 chegaram em 1972 e o primeiro dos oito 727-200, em 1975, ano em que a empresa se tornaria pública. Em 1979, foi iniciado um processo de modernização, que levaria à mudança do nome para TAP Air Portugal.

Em 1982, a companhia aérea recebeu o primeiro Boeing 767 e, em 1983, iniciou a retirada dos 747, seguida nos outros anos dos 707 e 727. Em 1984, a TAP transportou mais de dois milhões de passageiros num único ano e, em 1989, chegaram os primeiros Boeing 737-300 e os Airbus A310 e foram encomendados dois A340-300. Em 1990, a TAP ultrapassou os três milhões de passageiros no mesmo ano. Em 1992, chegaram os A320, em 1994, os A340 e, em 1997, os A319. Em 1991, a TAP foi transformada em "Sociedade Anónima de Capitais Maioritariamente Públicos". Mas enfrentou problemas financeiros e, em 1994, foi lançado o "Plano Estratégico e de Saneamento Económico-Financeiro" para recuperação da empresa. Cinco anos mais tarde, foi lançado o conjunto de orientações estratégicas para a TAP do futuro designado "Modernização e Recuperação da TAP"

Em 1998, a companhia deixou de voar com aparelhos da Boeing e, até hoje, opera excusivamente com aeronaves Airbus. Em 2003, surgiu o grupo TAP, tendo como holding a TAP SGPS, S.A. A recuperação econômico-financeira iniciada na década anterior começou a apresentar resultados e a empresa mostrou lucros pela primeira vez lucros em muitos anos, com €19,7 milhões. Em 2005, ano da comemoração do 60 anos da companhia, foi alterada a imagem da empresa, sendo criado um novo logotipo e alterada a denominação para TAP Portugal, passando também a fazer parte da Star Alliance, a maior associação de companhias de aviação.

Em parceria com a Geocapital, a TAP assumiu o controle da VEM (Varig Engenharia e Manutenção), o maior centro de manutenção da América do Sul, em janeiro de 2006, dois meses antes de iniciar os voos com os Airbus A330. No ano seguinte, a TAP foi escolhida a 10ª companhia aérea mais segura do mundo pela edição japonesa da revista Newsweek e, em abril, passou a deter 90% da VEM.

Antes de chegar a atual situação, a TAP ainda ganhou prêmios de reconhecimento de seus serviços. Mas nenhum deles evitou que o processo se complicasse, principalmente depois da crise financeira de 2008, que ainda castiga duramente o mundo em geral e a Europa em particular.


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