O número 7

Operadores do Brasil e dos Estados Unidos avaliam o desempenho do Dassault Falcon 7X, um ano após a falha no sistema de trimagem

Edumundo Ubiratan em 24 de Abril de 2012 às 13:16

Foto: Arquivo
Atualmente o 900EX e o 7X são os únicos aviões no mundo a contar configuração trimotor.

O Dassault Falcon 7X é um dos principais representantes do segmento de longo curso e cabine larga do mercado, concorrendo diretamente com as famílias Gulfstream G550 e Bombardier Global 5000. Com capacidade para transportar até 14 passageiros, o modelo atinge 953 km/h de velocidade máxima e cruza a 900 km/h, o que permite a seus operadores percorrer distâncias superiores a 11.000 km, com oito passageiros a bordo.

Anunciado durante o Paris Air Show de 2001, dentro do então projeto FNX, o modelo logo chamou atenção por suas qualidades e inovações. Seria o primeiro avião executivo full fly-by-wire, além de empregar novas tecnologias de construção. Fazendo amplo uso do CATIA, o software de engenharia desenvolvido pela Dassault, e que hoje é amplamente empregado pela indústria, os engenheiros puderam projetar e conhecer o avião e seus sistemas antes de a montagem da aeronave real começar. Além de dispensar a construção de modelos físicos, o CATIA permite analisar parâmetros aerodinâmicos, ergonômicos, entre outros. A Dassault também utilizou sua experiência em projetar e construir aeronaves de combate, como o legendário Mirage e o atual Rafale, no projeto do 7X.

OPINIÃO DE QUEM VOA

"O SEVEN X É UMA AERONAVE BASTANTE FLEXÍVEL. JÁ DECOLAMOS DE TETERBORO PARA LOS ANGELES, CRUZANDO OS ESTADOS UNIDOS DE COSTA A COSTA E, HORAS DEPOIS, ESTÁVAMOS INDO PARA SAN DIEGO. NO DIA SEGUINTE, DECOLAMOS PARA HONG KONG"

"ESSE JATO OPERA SEM RESTRIÇÕES EM AEROPORTOS COMO O SANTOS DUMONT E AINDA ME PERMITE IR DE SÃO PAULO ATÉ NOVA YORK SEM ESCALAS"

"TUDO É INTUITIVO E FÁCIL DE LOCALIZAR E USAR"

ASAS INOVADORAS
Sem dúvida, a grande inovação do Falcon 7X é sua asa, que deverá, aliás, ser referência para os novos projetos da Dassault. Com uma superfície 44% maior do que a encontrada nos demais modelos Falcon, a asa é 30% mais eficiente e permite ótimo desempenho em baixas e altas velocidades. Observando a estrutura alar do 7X, percebe-se o primor do projeto, com uma superfície única e lisa, livre de geradores de vórtice e recursos aerodinâmicos complementares.

Filosofia EASy é gerir de maneira eficiente o fluxo de informações e apresentar os dados de forma clara aos pilotos

A asa do trijato possui enflechamento de 34 graus na parte interna e 30 graus na seção externa, o que proporciona elevado rendimento em altas velocidades e garante boas condições de voo em baixas velocidades. A asa é ligeiramente mais espessa na junção com a fuselagem e se afunila por toda sua extensão, até atingir um perfil delgado na extremidade. Um aspecto interessante é que o 7X possui uma razão L/D (lift-to-drag ratio) 35% maior do que a do Falcon 900EX, justamente por dispor de uma geometria de asa maior do que a do seu irmão mais velho. Isso se traduz em um voo mais eficiente em grandes altitudes e permite uma ascensão direta para o nível 410, usando peso máximo de decolagem, com melhor desempenho de subida do que o do 900EX. Após atingir o FL 410, o Falcon 7X pode iniciar um step climb para o FL 450 e posteriormente para o FL 490, voando com máxima eficiência, o que permite atingir distâncias de até 5.700 milhas náuticas.

Outro destaque do 7X é seu sistema de controle completamente digital, reduzindo não apenas o peso total do avião, mas também a carga de trabalho dos pilotos. Basicamente o sistema é o conhecido fly-by-wire, popular na aviação militar e comercial, mas que no Falcon é chamado de "Sistema de Controle Digital de Voo da Dassault". O sistema incorpora soluções obtidas no desenvolvimento dos sistemas do Rafale, que conta com elevados níveis de desempenho e segurança.

#Q#

SIMPLICIDADE
A aviônica EASy (Enhanced Avionics System), baseada na plataforma Honeywell Primus EPIC, foi desenvolvida pela Dassault em parceria com a Honeywell e teve como premissa básica de projeto aliar as qualidades de um sistema digital com uma melhora na capacidade situacional dos pilotos. Filosofia EASy é gerir de maneira eficiente o fluxo de informações e apresentar os dados de forma clara aos pilotos, o que levou ao trocadilho com o nome da suíte. Para esse fim, o EASy é altamente intuitivo, interativo e inteligente, integrando de maneira bastante simples as informações de voo e de performance.

Um dos destaques é a simplicidade na interação com o sistema. Ao contrário da maioria dos aviônicos digitais da atualidade, boa parte dos comandos é feita por meio do CCD (Cursor Control Device), que é uma espécie de trackball ao alcance das mãos do piloto. Com ele é possível controlar menus com a simplicidade de um mouse. Outro detalhe interessante é o uso de ícones de fácil entendimento, que lembraram o conceito básico aplicado em sistemas operacionais de computadores, como o Microsfot Windows e o Mac OS da Apple.

No MFD, um mapa móvel mostra em tempo real a posição do avião em relação à rota, demais aerovias, auxílios, aeródromos e assim por diante. Caso busque mais informações sobre algum dado exibido no mapa, basta ao piloto clicar sobre o que deseja. Mais um recurso útil é o modo como os dados são exibidos em caso de emergência: a pane e a solução recomendada aparecem automaticamente na tela. Os dados são mostrados em quatro telas de 14,1 polegadas, dispostas de maneira a proporcionar fácil visualização dos dados, independente da luminosidade da cabine, incluindo a incidência direta de luz solar. Todos os dados são de fácil leitura, sem oferecer o risco de o piloto não compreender o que é exibido na tela. "Tudo é intuitivo e fácil de localizar e usar", afirma o comandante de um Falcon 7X utilizado por uma das maiores redes varejistas do Brasil.

TRÊS MOTORES
Entre as principais características do 7X estão seus três motores Pratt & Whitney Canada PW307A, que desenvolvem 6.402 libras de empuxo unitário, baseado em ISA+17°C SLS. Além de possuir baixo nível de emissão de poluentes, tendo sido desenvolvido dentro de exigências mais restritivas que as especificadas por FAA e ICAO. O maior destaque do 7X para o operador, porém, é seu overhaul de 7.200 horas, o que, baseado na operação padrão da frota de 7X, exige, teoricamente, uma revisão completa a cada 14 anos. Segundo a Dassault, a configuração trimotor proporciona maior segurança em caso de perda de um dos motores, além de gerar maior potência durante a decolagem com motores mais leves e de maior desempenho, quando comparados a dois motores com a mesma capacidade instalada. Além disso, torna o modelo livre das restrições ETOPS (Extended Twin-Engine Operations), possibilitando maior flexibilidade no planejamento de voos transoceânicos.

Mesmo com tais qualidades, o Falcon 7X passou por maus momentos em 2011, quando a EASA (European Aviation Safety Agency) proibiu todos os voos com modelos Falcon 7X após receber um relatório da Dassault. A proibição foi motivada por uma falha no sistema de trimagem do trijato, que ocorreu em maio de 2011. Segundo a EASA, uma nova falha poderia levar à perda de controle do avião. Os resultados iniciais da investigação mostraram que houve um defeito na produção da unidade de controle de estabilidade horizontal. A Dassaut desenvolveu uma modificação, em junho de 2011, que permitiu o retorno das operações do 7X.

Embora a imagem de uma frota "groundeada" seja negativa para qualquer avião, tal fato não representou o cancelamento de nenhuma encomenda, segundo a Dassault. "Obviamente nenhum operador gosta de ter o seu avião parado, mas, passado esse período, as reações dos clientes foram favoráveis a Dassault por termos parado a frota enquanto se averiguava o problema", afirma Rodrigo Pesoa, da Dassault.

Interior luxuoso do Falcon 7X, que transporta até 14 passageiros

OPERADORES OPINAM
Para a maior parte dos operadores, o modelo apresenta um ótimo desempenho. Segundo o comandante de um Falcon 7X, que voa para um importante investidor de Wall Street, a poderosa bolsa de valores de Nova York, o avião permite realizar uma série de missões.

"O Seven X é uma aeronave bastante flexível, podemos voar costa a costa sem restrições ou mesmo voos internacionais", afirma. "Já decolamos de Teterboro para Los Angeles, cruzando os Estados Unidos de costa a costa e, horas depois, estávamos indo para San Diego para decolar, no dia seguinte, para Hong Kong", completa. Opinião similar tem um piloto que voa o 7X pertencente a um empresário brasileiro: "Esse jato opera sem restrições em aeroportos como o Santos Dumont e ainda permite ao executivo ir até Nova York sem escalas".

A flexibilidade operacional tem atraído o interesse de executivos brasileiros, que buscam um avião capaz de realizar voos dentro do país, especialmente em aeroportos centrais, e tenha condições de voar para os Estados Unidos ou a Europa sem escalas. Atualmente, o 7X possui sete unidades operando no país, com outros oito previstos para chegar nos próximos meses.

Um diferencial para o modelo no Brasil é que a Dassault possui um completo centro de manutenção próprio no país. "Somos o único fabricante estrangeiro que possui um centro de fábrica, onde nada é terceirizado", destaca Pesoa. "O nosso centro de serviços em Sorocaba faz boa parte das inspeções de todos os modelos hoje fabricados".


Aviação Executiva

Artigo publicado nesta revista


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