Negócios em alta

Com 67 aeronaves expostas, mais de 15 mil visitantes e movimento de pelo menos US$ 550 milhões em contratos, Labace 2011 mostra por que o Brasil é hoje o mercado de aviões e helicópteros de uso corporativo que mais cresce no mundo

Edmundo Ubiratan E Giuliano Agmont | | Fotos Ricardo Beccari E Rodrigo Cozzato em 13 de Setembro de 2011 às 07:11

A oitava edição da Labace (Latin American Business Aviation Conference & Exhibition) começou na semana subsequente à queda generalizada das bolsas de valores do mundo motivada pelos rumores de recessão global. Nos dias que antecederam a segunda maior feira de aviação executiva do planeta, o clima era de incerteza. O medo de um agravamento da crise rondava o aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Pelo menos até a abertura oficial dos portões para o público.

Como em um passe de mágica, as bolsas se acalmaram, as salas de reuniões se tornaram o espaço mais disputado nos principais estandes da feira e o discurso mudou. Executivos de diferentes nacionalidades, incluindo os de terno e boné, mal conseguiam esconder sua euforia contida diante do assédio dos clientes. Resultado: a Labace 2011, com recorde de 67 aeronaves expostas e público de mais de 15 mil visitantes, consolidou o Brasil e a América Latina como mercados globais estratégicos para os principais fabricantes de aeronaves de uso corporativo. Segundo a Abag (Associação Brasileira de Aviação Geral), organizadora do evento, o volume de negócios gerados na edição deste ano pode ter chegado a US$ 550 milhões, embora essa seja apenas uma estimativa.

Nas palavras do comandante Francisco Lyra, presidente da Abag, o Brasil destina apenas 18% do seu PIB (Produto Interno Bruto) a investimentos enquanto na China esse índice se aproxima de 50%. "Para mudar isso, o país depende da capilaridade e da eficiência da aviação executiva, que economiza horas de trabalho do empresário. Pelo menos 80% do tempo de operação de uma aeronave executiva se destina a tomadas de decisões sobre investimentos diretos, aqueles que não vão embora diante de qualquer turbulência", pondera Lyra.

O presidente e CEO da NBAA (National Business Aviation Association), Ed Bolen, que participou da Labace, acredita que o Brasil já é um grande mercado global e tende a crescer ainda mais com a proximidade de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Mas também defende um maior apoio governamental à aviação executiva, e tem um argumento simples para isso: "Com uma pista de algumas centenas de metros, o empresário chega a quase qualquer lugar do país, do continente ou do mundo".

Airbus: apartamento com asas
Decolar a bordo de um Airbus A318 Elite (foto) é uma sensação única. O jato ganha altitude com rapidez e suavidade após deixar o solo. O conforto interno é igualmente impressionante. Um verdadeiro apartamento de 74,2 m2, que transporta seus passageiros, sem escala, para qualquer destino na América Latina a partir de São Paulo. O painel é praticamente o mesmo das demais aeronaves Airbus. Com a cabine mais larga entre os jatos executivos, o exemplar que aterrissou pela primeira vez na Labace possui uma sala de estar e um escritório que se converte em suíte. A vinda do A318 Elite demonstra o peso que a América Latina adquiriu no mercado global. Existem pouco mais de 170 jatos corporativos da Airbus voando hoje no mundo.

Embraer: mais de 440 jatos executivos
A Embraer se tornou um caso de sucesso incontestável no segmento executivo, com mais de 440 aviões entregues num intervalo de nove anos, desde que lançou o Legacy, o primeiro da família. "Em 2005, nossos aviões representavam apenas 2,7% de todo o volume de entregas da aviação executiva mundial, em 2010 atingimos a marca de 19%, o que nos coloca como terceiro fabricante nesse mercado", comemora Marco Túlio Pellegrini (foto), vice-presidente de Operações e Aviação Executiva da Embraer. O fabricante brasileiro espera fechar o ano com a entrega de 100 aviões da família Phenom, 18 modelos Legacy (entre o 600 e o 650) e pelos menos quatro Lineage 1000. Para Pellegrini, o mercado de aviação executiva deve retomar o crescimento sustentável a partir de meados de 2012 e o Brasil terá um papel de destaque nesse processo, assim como a Ásia. Pellegrini informa que a Embraer deve formalizar um acordo para a produção do Legacy 600/650 na China. "É um mercado promissor", avalia.

Eclipse: de volta à competição
Depois de criar o segmento Very Light Jet e prometer entregar um jato executivo custando menos de um milhão de dólares, a americana Eclipse Aerospace sofreu com os atrasos no programa de desenvolvimento do seu VLJ e só não sucumbiu à crise financeira de 2008 porque recebeu suporte de investidores chineses. Revigorado, o fabricante volta à cena em grande estilo e o Brasil é um dos mercados prioritários. A AirStream, criada em 2010 para representar e distribuir a marca no Brasil, aposta no baixo custo operacional para tonar o Eclipse (foto), que esteve pela primeira vez na Labace, um sucesso de vendas no país. Uma das estratégias será usar a propriedade compartilhada. O jato ainda precisa de certificação.

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Ao largo da crise

A conversa com o presidente da TAM Aviação Executiva, representante no Brasil da Cessna e da Bell, que, juntas, respondem pela maior frota de aeronaves de pequeno porte do país, precisou acontecer dentro de um avião. Não havia sala de reunião disponível, estavam todas ocupadas com clientes. Na opinião da muitos expositores, a Labace 2011 teve o público mais qualificado de sua história. Não por acaso, Fernando Pinho (foto) havia praticamente fechado a venda de um Bell 429, a estrela maior do estande, quando recebeu a reportagem de AERO. Ele estava animado e não precisou de muitas palavras para explicar por que o fortalecimento da aviação executiva brasileira é um fato irrefreável, a despeito da crise nos mercados maduros e do nervosismo das bolsas de valores.

AERO - A crise preocupa?
Fernando Pinho -
O Brasil vive um momento diferente. Estamos menos suscetíveis do que em outras crises. Claro que há incertezas e não somos inatingíveis. Os Estados Unidos nunca estiveram tão vulneráveis e, se o consumo na China cair, teremos problemas. Mas o aspecto psicológico nos favorece. Mesmo com todo o nervosismo das bolsas, apenas um cliente postergou seu plano de comprar um avião.

Isso é otimismo?
Acredito na competência e no talento do empresariado brasileiro. Nossos empreendedores deixaram desabrochar a visão de longo prazo e a agressividade. Hoje, o foco é no investimento e o faturamento das empresas vem crescendo vertiginosamente. Temos novos clientes no mercado, alguns não mapeados, e muita gente saindo de um avião a pistão para um jato de longo alcance.

A indústria amadureceu?
Sim, hoje existe engenharia de venda. Primeiro entendemos a necessidade do cliente para depois oferecer o produto mais adequado. O discurso também mudou. Avião não é luxo, é ferramenta de trabalho, aumenta a produtividade do empresário. Temos repetido essa mensagem sistematicamente para as autoridades. Afinal, boa parte do PIB do Brasil passa pelas salas VIP da aviação executiva.

Quais as expectativas em relação ao Bell 429?
Houve um crescimento da demanda por helicóptero biturbina. O Bell 429 cumpre 700 quilômetros, acomoda sete passageiros mais um piloto, pousa em qualquer heliponto e tem uma cabine muito confortável, com teto flat. É IFR, o que diminui as restrições climáticas. O bagageiro é o sonho de qualquer mulher. Ele custa US$ 6 milhões, preço FOB, e já temos cinco voando no Brasil. Estamos otimistas.


Synerjet: maior gama de produtos
A Ocean Air Táxi Aéreo ampliou sua atuação depois que o Grupo Synergy passou a distribuir aeronaves Agusta Westland, Pilatus e Bombardier em outros países além do Brasil. Rebatizado Synerjet, o conglomerado comandado por José Efromovich representa os três fabricantes em toda a América Latina, com exceção de Venezuela e Caribe. "Tivemos um processo de reorganização de marca", explica José Eduardo Brandão (foto), diretor Comercial da Synerjet, que detém hoje a maior gama de produtos no mercado, com helicópteros, turbo-hélices e jatos de curto, médio e longo alcance.

Para o executivo, o pior já passou e, embora as crises nos Estados Unidos e na Europa tenham afetado o desempenho de praticamente todos os fabricantes, as vendas no Brasil se mantêm em um ritmo maior do que o lá de fora, tornando o país bastante atrativo para os fabricantes. "Acreditamos na recuperação plena do mercado latino em meados de 2012, quando haverá uma normalização na oferta de aviões. O Brasil tem aproximadamente 130 aviões Bombardier e, junto com o México, representa 26% das vendas do fabricante canadense. Entre os helicópteros, destaque para atuação da Agusta entre os biturbinas, com 150 aeronaves em operação e cerca de 70% desse mercado.

Algar: agora também com Piaggio
A mineira Algar Aviation é a nova representante exclusiva da Piaggio Aero no Brasil. O anúncio foi feito durante a Labace, com a presença do piloto brasileiro Felipe Massa, da escuderia Ferrari, que é uma das acionistas da empresa também italiana. O Piaggio P 180 Avanti II (foto) já tem certificação. Destaque para o conard e os motores em configuração pusher. "Ele tem um mercado potencial e estamos animados com a nova parceria", resume Rogério Montalvão, diretor-presidente da Algar Aviation. A parceria com a EADS-Socata continua. "O TBM 850 tem grande potencial com o crescimento do agronegócio no triângulo mineiro, em Goiás e no interior paulista", avalia Montalvão.

Líder Aviação: crescimento de 50%
Um dos principais players da aviação no Brasil, a Líder Aviação continua obtendo ótimos resultados na esteira do crescimento econômico do Brasil. A empresa apresentou apenas no primeiro semestre do ano um crescimento de 50%. Com a expansão da fronteira econômica para o interior do país, o uso do avião se tornou fundamental para a criação de novos negócios, já que atende a regiões remotas do país. "O avião deixou de ser um luxo, um status, nossos clientes sabem que o avião é uma ferramenta de negócios que agrega valor ao trabalho", afirma Eduardo Vaz (foto), presidente da Líder Aviação. Um dos destaques da Líder na Labace foi o King Air 250, que é um upgrade do campeão de venda B200. O avião conta com uma série de aperfeiçoamentos, como EVS (Enhanced Vision System) e winglets, que melhoraram o desempenho em pistas curtas e quentes. Parte dos opcionais anteriores se tornou item de série. Outro destaque foi o modelo 350ER, que possui autonomia de aproximadamente 12 horas. Na linha de jatos, o Hawker 4000 reinou absoluto no estande da Líder. O avião comporta de oito a 12 passageiros e alcança mais de 6.000 quilômetros.

Dassault Falcon: cinco a seis pedidos por ano
O fabricante francês é um dos que mais tem aproveitado a internacionalização dos negócios no Brasil, oferecendo uma série de soluções para clientes que necessitem de aviões com grande autonomia e uma cabine confortável. O longo alcance e a possibilidade de operar na maior parte dos aeroportos das pequenas e médias cidades brasileiras tornam o Falcon 2000 e o Falcon 7X os campeões de vendas da Dassault no Brasil. O país representa 8% dos negócios da empresa no mundo, com 44 unidades Falcon em operação. "Após a crise de 2008, tivemos alguns cancelamentos, mas ainda mantemos cinco a seis vendas ao ano, por isso continuamos investindo no nosso centro de serviço em Sorocaba", diz Rodrigo Pesoa (foto), diretor de Vendas para a América do Sul. Na Labace, o fabricante mostrou o Falcon 2000LX e o Falcon 7X e promoveu o recém-lançado 2000S.

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Helibras: três vendas na Labace
O céu continua de brigadeiro para a Helibras, que cresce expressivamente em todos os segmentos. Atualmente, a empresa é líder absoluta de vendas de helicópteros no Brasil, com aproximadamente 53% do mercado. Tem 83% de participação no segmento governamental, 66% no militar, 30% no off shore e mais de 47% no mercado executivo. "E muita gente fora do eixo Rio-São Paulo tem optado pelo helicóptero. Temos um cliente no Piauí, por exemplo, que usa nossa aeronave para visitar cidades sem pistas de pouso para aviões", explica Eduardo Marson (foto), presidente da Helibras. Na Labace, o fabricante fechou três contratos de venda. No estande, o destaque ficou por conta do biturbina EC145.



Cirrus: Vision certificado em 2012
A Cirrus ganhou fôlego novo ao ser comprada pela chinesa CAIGA (China Aviation Industry General Aircraft) no início deste ano. Com a injeção de capital, a empresa pretende certificar o monojato Vision até o final de 2012 e começar a entregá- lo em 2013. O avião tem 71 reservas no Brasil e mais de 460 ao redor do mundo. O Brasil é o segundo maior mercado da Cirrus no mundo. "Hoje nossa principal aeronave é o SR22, que responde por 80% das vendas no país. Os demais 20% são do modelo SR20, o modelo de entrada", contabiliza Sérgio Beneditti (foto), diretor de Vendas da Cirrus Brasil. "Agora oferecemos o SR22 Plus, que traz um pacote maior por um preço bastante competitivo, o que deve nos ajudar a manter nossa vice-liderança".


Agusta Westland: estande próprio
A AgustaWestland montou um estande próprio na Labace deste ano. O fabricante de helicópteros, que acaba de apresentar o Helipark, em São Paulo, como seu novo centro autorizado de serviço, aposta na retomada do crescimento do mercado e investe não apenas no segmento executivo, mas também no parapúblico, em especial no transporte aeromédico. Segundo Fabrizio Romano (foto), diretor da AgustaWestland no Brasil, o mercado aeromédico tem grande potencial no país, principalmente nas grandes cidade devido ao trânsito e a presença de grandes centros hospitalares. Durante o evento, a Agusta anunciou a nomeação da Aviasur como representante independente de vendas para o Chile e o Peru. O objetivo é impulsionar as vendas do AW119KE e do AW109 Power e GrandNew.

Gulfstream: a frota dobrou
A Gulfstream, que acaba de nomear seu novo presidente (leia mais à p. 52), está animada com as perspectivas de venda na América Latina. O fabricante norte-americano sabe que os Estados Unidos perderam espaço para outros mercados na última década e o Brasil, em especial, tornou-se estratégico. O crescimento das vendas - a frota dobrou nos últimos cinco anos - motivou a Gulfstream a certificar seu centro de serviço em Savannah, na Georgia, junto à Anac. Trata-se da maior instalação de manutenção para jatos executivos do mundo. Na Labace, falar com um executivo da Gulfstream era tarefa inglória. A resposta era sempre a mesma: "Está com cliente".

Piper: 20% mais vendas em 2011
O presidente e CEO da Piper veio ao Brasil para a Labace. Geoffrey Berger (à esq., ao lado de Paulo Nogueira Martins, da JP Martins) comemorou os números do mercado brasileiro. A JP Martins, representante da Piper no Brasil, já vendeu 20% mais aeronaves em 2011 do que durante todo o ano de 2010. Foram 27 vendas nos primeiros meses deste ano contra um total de 23 no ano passado. Neste ano, a Piper ainda espera dois monoturbo-hélices Piper Meridian e quatro monomotres Matrix. A Piper e a JP Martins têm uma parceria de mais de 45 anos. "Eles são nosso principal representante no mundo, o que ajuda a explicar o sucesso da Piper no Brasil", afirma Berger.

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Prêmio AERO Magazine 2011

Vencedores do XIII prêmio Aero Magazine de aviação
A XIII edição do prêmio Aero Magazine de aviação coroou os destaques do setor de aviação do Brasil no ano de 2011. Como é tradição, o evento aconteceu durante a Labace, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. No total, foram entregues 12 troféus

Destaque empresarial
José Efromovich
Presidente da Avianca Brasil

Destaque aeronáutico
Wagner Bittencourt
Ministro-Chefe da Secretaria de Aviação Civil

Melhor companhia aérea brasileira
TAM Linhas Aéreas
Líbano Barroso, presidente

Melhor indústria aeronáutica
Embraer Marco Túlio Pellegrini
Vice-presidente de Operações e Aviação Executiva


Personalidade do ano
Eduardo Marson
Presidente da Helibras

Melhor aeronave comercial
Airbus A380
François Chazelle, vice-presidente mundial de Vendas da Airbus Corporate Jets


Melhor avião a pistão
Beechcraft Baron G58
Melhor avião turbo-hélice

Beechcraft King Air B200GTI
Philipe Figueiredo (dir.), diretor
de Vendas da líder Aviação, ao lado de Christian Burgos,
Publisher da Inner Editora

Melhor companhia aérea estrangeira
Emirates Airline
Ralf Aasmann, diretor-geral da Emirates no Brasil

Melhor jato executivo
Dassault Falcon 7X
John Rosanvallon (esq.), presidente e CEO da Dassault Falcon
Jet, ao lado do anfitrião, José Roberto Maluf, do conselho editorial de AERO

Destaque do ano
Boeing 787
Carlos Horan (dir.), diretor de Vendas da Boeing Business Jets
para a América latina, ao lado de Miguel Cui Filho, do conselho editorial de AERO


Melhor helicóptero
Eurocopter EC145
Julien Negrel, vice-presidente Comercial e de Marketing
da Helibras


Aviação Executiva

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