Natal, Dacar e Pequim

Fatos e considerações sobre a privatização do novo Aeroporto Internacional de Natal, o São Gonçalo do Amarante

Respício A. Do Espírito Santo Jr. em 12 de Setembro de 2011 às 14:09

Marcelo Galli
Respício A. Do Espírito Santo JR.

O país assistiu em agosto último ao leilão de concessão do novo Aeroporto Internacional de Natal, mais conhecido como Aeroporto de São Gonçalo do Amarante (ASGA). Apenas quatro consórcios se interessaram pelo negócio, que deverá consumir mais de R$ 600 milhões em investimentos para uma taxa de retorno na casa de 6 a 7%. O desinteresse da iniciativa privada não se explica apenas pelo baixo retorno previsto, mas também pela enorme expectativa em relação aos futuros leilões para as concessões de Guarulhos, Viracopos e Brasília. Vamos a alguns fatos e façamos algumas considerações sobre o leilão do ASGA e suas "potencialidades" como um negócio.

Fatos:

>> Segundo o que se publicou na grande imprensa, foram mais de 80 lances no leilão, alcançando o valor final de R$ 170 milhões.

>> Esse valor foi 228% acima do valor mínimo inicial (R$ 51,7 milhões).

>> O consórcio vencedor, o Inframérica, inclui a Engevix e a argentina Corporación America.

>> A Corporación America tem suas bases no setor têxtil, mas diversificou bastante seu portfólio de investimentos e negócios, em especial na área de infraestrutura. Possui negócios em diversos países, incluindo Uruguai, Armênia, Peru, Equador, Itália e Marrocos, além da própria Argentina. E no país vizinho administra mais de 30 aeroportos.

>> De acordo com dados da Infraero, em 2009, o atual Aeroporto Internacional de Natal, o Augusto Severo, arrecadou míseros R$ 14,3 milhões em tarifas aeronáuticas e R$ 8,8 milhões em tarifas comerciais. No mesmo ano de 2009, o Aeroporto Internacional de Salvador arrecadou, respectivamente, R$ 47,5 milhões e R$ 30,4 milhões; já o Aeroporto Internacional de Recife arrecadou R$ 39,4 milhões e R$ 28,2 milhões e o Aeroporto Internacional de Fortaleza, R$ 30,7 milhões e R$17,6 milhões - em ambos os quesitos, o aeroporto de maior arrecadação em 2009 foi o de Guarulhos, com R$ 393,5 e R$ 236,6 milhões, respectivamente.

>> Os vencedores do leilão saíram do certame declarando que em breve bateriam na porta do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para garantir os recursos; assim, até que se prove o contrário, o BNDES será o maior financiador do projeto.

Considerações:

>> Estudos de previsão de demanda realizados pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2011 e pelo TGL/UFRJ (Núcleo de Estudo de Tecnologia, Gestão e Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro) em parceria com o SNEA (Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias) apontam que em 2014 o volume de passageiros movimentados em Natal será de 3,5 milhões e 3,7 milhões, respectivamente.

>> Pelo porte e potencial de movimentação de passageiros e cargas e a limitação sobre as receitas não aeronáuticas, não é de se estranhar o desinteresse de grandes instituições financeiras privadas. Nenhuma, aliás, foi apontada pelo consórcio vencedor como sua parceira estratégica e viabilizadora de recursos, apontamento este muito comum em operações dessa natureza no exterior.

>> O governo, por intermédio do BNDES, é o grande financiador da privatização do aeroporto. O que acaba não parecendo uma privatização de fato, uma vez que a maior parte do capital investido não é privado, mas, sim, originário de um ente financiador que faz parte do governo.

>> Para quem acredita que o ASGA tem potencial para se tornar um hub de passageiros e/ou cargas no Nordeste unicamente em função de sua posição geográfica, talvez precise refazer contas ou rever conceitos. Desconsiderar a pujança política, econômica e turística muito superior de Salvador, Recife ou Fortaleza sobre Natal e considerar que o aeroporto potiguar será muito mais importante no cenário nacional ou internacional do que os aeroportos das três outras capitais é sonhar um pouco longe demais.

>> Agora, para os que ainda sonham que o ASGA será um grande hub em razão de sua proximidade com a Europa ou os EUA, também sugiro reflexão. Se fosse pela localização privilegiada, o Aeroporto Internacional de Dacar, no Senegal, e o Aeroporto Internacional da Ilha do Sal, em Cabo Verde, teriam movimento de aeronaves, passageiros e cargas maior do que o de Pequim.

>> Por fim, se em algum momento futuro a concessão do ASGA não der certo, culparão, claro, o consórcio vencedor. Mas os verdadeiros culpados terão sido os que incharam os números da demanda e das receitas futuras, os que sonharam de olhos abertos com hubs fantásticos e os que defenderam com unhas e dentes sem terem noções básicas de como funcionam e quais os principais fatores que moldam os mercados na indústria do transporte aéreo, bem como aqueles que se comprometeram em atingir o inatingível. 


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