Espírito inovador

Como a pequena McDonnell se tornou uma das principais fornecedoras de jatos para a US Navy, a Marinha dos Estados Unidos

Por Santiago Oliver em 23 de Janeiro de 2015 às 00:00

McDonnell F3H Demon
McDonnell F3H Demon

Durante a Segunda Guerra Mundial, a McDonnell foi principalmente uma empresa subcontratada por gigantes da indústria aeronáutica, como Boeing e Douglas. Em 1941, contava com 400 empregados na sua folha de pagamentos. Eles fabricavam caixas de munição, partes para as torretas dos bombardeiros, naceles de motores e subconjuntos para caudas. Na época, James S. McDonnel, comentou: “Nós finalmente conseguimos um contrato. Era muito pequeno e logicamente não ganhamos um centavo com ele. Mas os rapazes fizeram um bom trabalho e aprendemos muito”.

McDonnel sempre trabalhou no projeto dos seus próprios aviões até que, em 29 de outubro de 1941, assinou um contratado para construir o caça XP-67. Conhecido como “Bat” (morcego) pela sua forma – embora parecesse mais uma arraia do que um morcego –, ou Bomber Destroyer (Destruidor de Bombardeiros), pela sua missão, o XP-67 foi construído em St. Louis, no estado de Missouri (EUA), em 1943, mas seu primeiro voo foi realizado em janeiro de 1944.

Lamentavelmente para os projetistas, os experimentais e temperamentais motores fizeram com que o voo inaugural durasse apenas seis minutos. Os problemas com os motores continuaram e a velocidade máxima do Bat nunca chegou perto do esperado. Como consequência, o segundo protótipo nunca foi terminado. Entretanto, já desde 1940, os engenheiros da McDonnell estavam pesquisando a utilização da propulsão a jato. As pesquisas dos seus engenheiros na tecnologia dos motores a jato renderam seus frutos em 1º de janeiro de 1943, quando a Marinha dos Estados Unidos solicitou à McDonnell que projetasse e construísse um caça a jato e, antes do final da Segunda Guerra Mundial, o Phantom I havia feito seu primeiro voo e dado origem à bem-sucedida linha de caças a jato McDonnell.

McDonnell XP-67 Bat
McDonnell XP-67 Bat

Fantasma

O pequeno fabricante teve de se ajustar de maneira diferente à dos gigantes da indústria aeronáutica nos anos imediatos ao final da Segunda Guerra Mundial. Era uma empresa pequena que teria de se arriscar mais para ir mais longe. Seu proprietário estava disposto a construir pequenos aviões que pudessem aproveitar tecnologias nunca antes utilizadas. A propulsão a jato levaria a McDonnell a se destacar entre os grandes.

O XFD-1, protótipo do caça a jato FH-1 (denominação da Marinha dos EUA para a primeira versão do primeiro caça ­McDonnell) Phantom (Fantasma) fez seu primeiro voo em 26 de janeiro de 1945. Seu nome remontava aos tempos de McDonnell em Princeton, onde teve despertado seu interesse pelo mundo espiritual. O Phantom foi o avião de combate da US Navy mais veloz após a Segunda Guerra Mundial: 62 foram construídos. Com ele, o fabricante iniciou uma longa associação com a Marinha norte-americana, como principal fornecedor de caças a jato embarcados.

Em 21 de julho de 1946, operando a bordo do porta-aviões USS Franklin D. Roosevelt, um FH-1 Phantom tornou-se o priEm 21 de julho de 1946, operando a bordo do porta-aviões USS Franklin D. Roosevelt, um FH-1 Phantom tornou-se o primeiro caça a jato a decolar e pousar num navio norte-americano. Quase dois anos depois, em maio de 1948, o primeiro esquadrão todo composto de jatos, a bordo do USS Saipan, tornou-se operacional com caças FH-1 Phantom. Hoje, há três Phantom preservados, todos nos EUA: no National Air and Space Museum do Smithsonian Institution, em Washington, D.C., no Wings of Eagles Discovery Center, em Horseheads, Nova York; e no National Museum of Naval Aviation, na Naval Air Station, Pensacola, Flórida.

Gnomo e espírito

McDonnell continuou a batizar seus aviões com nomes sugestivos. O Phantom foi seguido pelo protótipo do XF-85 Goblin (Gnomo), um caça parasita que deveria ser transportado dentro do bombardeiro Convair B-36 Peacemaker. Seu primeiro voo foi realizado em 1948, mas os pilotos de testes acharam difícil enganchar o Goblin no trapézio suspenso do bombardeiro durante o processo de recuperação. Apenas duas aeronaves foram construídas e nunca voaram no B-36, os testes foram realizados utilizando um Boeing EB-29B Super Fortress.

Os dois XF-85 Goblin podem ser vistos no National Museum of the United States Air Force, na Base da Força Aérea Wright-Patterson, em Dayton, Ohio, ou no Strategic Air and Space Museum, em Ashland, Nebraska.

McDonnell melhorou o Phantom e lançou F2H (segundo caça McDonnell) Banshee, que era maior e mais veloz do que o seu antecessor. A companhia construiu 895 Banshee (em irlandês bean si, “mulher dos túmulos”. São espíritos femininos que, segundo a lenda, aparecem a uma pessoa para anunciar com seus gemidos a morte de um parente).

Esse novo caça tornou McDonnell uma nova estrela na indústria aeronáutica norte-americana. O Banshee entrou em combate na Coréia, em 1951, e serviu na Marinha e no Corpo de Fuzileiros navais dos Estados Unidos até 1959. Foi uma aeronave multimissão, utilizada como caça diurno, caça noturno e avião de reconhecimento fotográfico, em cinco versões principais

Uma curiosidade: um dos pilotos que participaram da destruição das pontes de Toko-ri assegurou que essa missão foi realizada com aeronaves Banshee, e não com Grumman Gougar, como mostra o filme do mesmo nome. Atualmente há nove Banshee preservados em vários museus dos EUA e em três no Canadá.

McDonnell F-101 Voodoo
McDonnell F-101 Voodoo

Demônio e vodu

O Banshee foi seguido pelo F3H Demon (Demônio), cujo primeiro exemplar saiu da linha de produção de St. Louis, em 1951. Foram construídos 522 Demon em oito variantes e subvariantes, que ficaram famosos por serem um dos primeiros aviões projetados para utilizar mísseis em vez de canhões. Enfim, em 1958, um Demon foi o primeiro caça embarcado a disparar mísseis “ar-ar” guiados, enquanto operava em alto mar. Três Demon foram preservados: um no National Museum of Naval Aviation, Naval Air Station Pensacola, Flórida, outro no USS Intrepid Museum, na cidade de Nova York; e o terceiro no Pima Air & Space Museum, em Tucson, Arizona.

Depois do Demon, a McDonnell lançou o F-101 Voodoo (ou vodu, religião sincrética praticada principalmente no Haiti). O primeiro dos 807 aviões F-101 entregue à USAF voou em 29 de setembro de 1954 e, na época, era o caça tático mais rápido em serviço. Em 12 de dezembro de 1957, estabeleceu o recorde mundial de velocidade, com 1.940 km/h.

O McDonnell XF-88 Voodoo foi o protótipo de um caça a jato bimotor de longo alcance, com asas enflechadas, projetado para a Força Aérea dos EUA. Embora nunca tenha entrado em serviço, seu projeto foi adaptado para o caça supersônico F-101. O protótipo foi modificado como XF-88B, com um motor turbo-hélice instalado no nariz, além dos dois turbojatos. A aeronave foi utilizada em testes de voo em 1956 e atingiu velocidades ligeiramente superiores a mach 1, tornando-se o primeiro avião equipado com hélice a fazê-lo. A McDonnell também propôs uma versão naval do XF-88, um treinador operacional biposto e uma variante de reconhecimento, mas nenhum foi produzido em série e os protótipos foram sucateados em 1958.

O F-101 Voodoo multimissão foi construído em 19 variantes e subvariantes, como um caça de ataque de longo alcance, um interceptador e um avião de reconhecimento fotográfico. Foi usado pelos três comandos da Força Aérea dos EUA: estratégico, tático e de defesa aérea. Há modelos F-101 expostos em vários museus nos Estados Unidos e no Canadá, e também como “gate guards” em bases aéreas.

Helicópteros e convertiplano

Ainda durante a guerra, McDonnell começou a construir helicópteros, mas com nomes menos misteriosos. Não foram tão bem-sucedidos como os aviões. Em 1942, a McDonnell investiu na indústria aeronáutica Platt-LePage, construindo o XR-1, o primeiro helicóptero encomendado pela Força Aérea do Exército dos EUA, só que os seus problemas de vibração impediram sua produção. Um ano mais tarde, a McDonnell começou o desenvolver o XHJD-1 Whirlaway para a US Navy. O único protótipo tinha dois rotores principais montados em pequenas asas e, em 1946, era o maior helicóptero já construído.

O helicóptero seguinte da McDonnell foi o pequeno Little Henry, que voou pela primeira vez em 1947, um ano após a Platt-LePage ter sido fechada. Em 1950, o fabricante iniciou o desenvolvimento do helicóptero utilitário Model 79, conhecido como Big Henry. Em 1951, McDonnell construiu o XV-1 como um convertiplano experimental composto para um programa de pesquisa conjunto entre a Força Aérea e o Exército dos Estados Unidos para explorar tecnologias destinadas a desenvolver uma aeronave que pudesse decolar e pousar como um helicóptero, mas voar em alta velocidade, como um avião convencional.

O XV-1 podia voar a 322 km/h, mais rápido do que qualquer outro helicóptero, mas o programa foi cancelado. O nível de ruído dentro da cabine era de 116 dB e era ainda maior para o pessoal de terra, que descrevia o ruído dos jatos instalados na ponta das pás do rotor como “extremamente irritante”, e o nível de ruído a 1.600 m era ainda de 90,5 dB.

Um dos protótipos foi doado ao United States Army Aviation Museum em Fort Rucker, Alabama, e o outro foi doado pelo Exército ao National Air and Space Museum do Smithsonian Institution, em Washington, D.C. Nenhum dos helicópteros da McDonnell Aircraft Corporation construídos entre 1946 e 1957 foi produzido em série.

O McDonnell F4H (para a Marinha) e F-110 (para a Força Aérea) recebeu a denominação F-4 após a mudança para o sistema Tri-Services, de 1962, que facilitou a identificação das aeronaves das três armas (Força Aérea, Marinha e Fuzileiros Navais), recebendo uma identificação única para cada modelo.

O McDonnell 119/220 foi um jato executivo que a McDonnell construiu em meados dos anos 1950 com quatro turbojatos instalados sob as asas. Ele podia transportar 10 passageiros em uma luxuosa cabine executiva, com capacidade máxima para 26 pessoas. Não houve interessados, nem no único protótipo construído, que permanece armazenado no War Eagles Air Museum, em El Paso, TX. Em outubro de 2009, ele foi colocado à venda pelo seu proprietário de Phoenix, AZ.

McDonnell XV-1 Convertiplane
McDonnell XV-1 Convertiplane

Phantom II

O Phantom II – chamado assim em homenagem ao Phantom I, quase recebeu o nome de Satan (Satanás) ou Mytras (deus das mitologias indiana, persa e romana), mas, sob a pressão do governo, foi batizado com um nome menos controvertido, mas não muito original.

Foi um jato supersônico destinado a cumprir todo tipo de missão, desde interceptado de primeira linha, caça-bombardeiro, escolta e reconhecimento. Seu primeiro voo foi em 27 de maio de 1958, e entrou em serviço em 1961. O Phantom II estabeleceu um recorde de velocidade de 2.585 km/h e um de altitude, com 30.000 m. Em 1969, foi o único caça a voar nas duas equipes acrobáticas militares norte-americanas, os Thunderbirds da Força Aérea e os Blue Angels da Marinha.

O último dos 5.195 Phantom saiu da fábrica de St. Louis em 1979. Eles serviram no Vietnã, na Operação Tempestade no Deserto e em 11 forças armadas além da três dos Estados Unidos. Antes disso, o fabricante já havia expandido suas atividades para incluir mísseis e foguetes. Em 28 de abril de 1967, ocorreu a fusão que levou à criação da McDonnell Douglas, que projetou e iniciou a produção do F/A-18 Hornet. Quando a Boeing adquiriu a McDonnell Douglas, continuou a produção dessa aeronave, agora nos modelos E/F/G Super Hornet, nas mesmas instalações de St. Louis, onde foi construído o Phantom 1.


História Segunda Guerra Mundial McDonnell Boeing e Douglas XP-67 XFD-1 FH-1 XF-85 Phantom F3H Demon F-101 Voodoo XV-1 Convertiplane

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