Aumenta a concorrência

Gol vende participação acionária à Delta e acirra disputa pelo mercado brasileiro de transporte aéreo regular, o que mais cresce no mundo

Edmundo Ubiratan | | Fotos Rodrigo Cozzato em 23 de Janeiro de 2012 às 09:03

Fotos Rodrigo Cozzato

A parceria entre Gol Linhas Aéreas e Delta Air Lines, ou "aliança comercial exclusiva de longo prazo", conforme o comunicado à imprensa, acirra a disputa pelo mercado de transporte aéreo com maior taxa de crescimento no mundo. Oficializado no fim de 2011, o acordo determinou a venda de uma fatia minoritária da companhia brasileira para os norte-americanos - de quase 3%, em forma de títulos negociáveis ADS (sigla de American Depositary Share) com preço equivalente a R$ 22 por ação e ágio de 47% em relação ao fechamento dos papéis no pregão do dia anterior ao anúncio. A Delta também ganhou uma cadeira no conselho de administração da Gol, que foi ocupada por seu presidente, o executivo Ed Bastian. Como contrapartida, os americanos injetaram US$ 100 milhões no caixa da Gol e subarrendaram dois Boeing 767 sobressalentes, que custariam cerca US$ 50 milhões em leasing e manutenção nos próximos quatro a cinco anos, além de comprometer a uniformidade da frota. Eles também concordaram em não alienar, por um período de 12 meses, as ações preferenciais adquiridas e em não comprar, sem o consentimento da Gol, novos papéis da empresa. "O aporte da Delta reforça o caixa, reduz a alavancagem e ajusta o balanço patrimonial da empresa", resume Constantino de Oliveira Júnior, diretor-presidente da Gol. "Além disso, poderemos levar nossos passageiros para destinos globais sem mudar nossa frota".

Embora seja anunciado pelas empresas como uma parceria estratégica, o acordo é visto por alguns analistas de mercado como uma movimentação da Gol frente à Latam e ao Grupo Avianca-Taca, assim como uma saída para a Delta, que se vê diante de um mercado global cada vez mais competitivo. Constantino discorda, pelo menos no que se refere à Gol. Segundo ele, as negociações começaram há mais de dois anos e não podem, portanto, ser consideradas uma resposta direta à fusão entre Lan e Tam ou qualquer outra consolidação. Richard Anderson, CEO da Delta, vai além: "O Brasil será o quarto mercado de aviação do mundo em 2014 e a Gol é um sucesso comercial há uma década. Estamos criando uma rede para conectar o Brasil ao mundo, e queremos tornar a Delta a melhor companhia aérea norte-americana na América Latina". Segundo o executivo, a Delta dobrou sua operação no Brasil nos últimos três a quatro anos e injetou, também em 2011, US$ 65 milhões na Aeromexico em ação parecida com esta realizada junto à Gol.

Especulações à parte, o fato é que as companhias aéreas parecem ter definido suas estratégias, e partem agora para uma briga mais aguda por novos e velhos passageiros, no Brasil e nos Estados Unidos. Nos últimos anos, a Gol ficou isolada entre as grandes empresas sul-americanas - que, além de terem presença em mercados domésticos, ainda possuem grande capilaridade na porção sul do continente. Sem voos intercontinentais, a Gol foi obrigada a limitar seu crescimento ao mercado regional, o que também não permitia a adesão a uma grande aliança, tornando ainda mais arriscado o negócio, pois qualquer problema econômico ou estrutural no Brasil afetaria fortemente as operações. A Delta, por sua vez, fundiu-se recentemente à Northwest e assiste à escalada da competição no mercado norte-americano (leia mais na p. 31), além de correr o risco de perder para a American Airlines, que pertence à OneWorld, e para a United Airlines, da Star Alliance, grande parte das conexões no Brasil e no cone sul. "Ao formar uma parceria comercial de longo prazo, vamos aproveitar os pontos fortes das nossas duas redes para proporcionar maiores benefícios aos clientes e melhor servir o mercado Brasil-EUA", afirma Anderson, da Delta.

Divulgação "O aporte da Delta reforça o caixa, reduz a alavancagem e ajusta o balanço patrimonial da Gol"
Constantino Júnior,
da Gol
#Q#c

Ciente da importância das operações de codeshare, a parceria também prevê a ampliação dos acordos operacionais, permitindo à Delta colocar seu código em mais voos Gol no Brasil, Caribe e América do Sul, e à Gol colocar seu código em serviços Delta entre Brasil e Estados Unidos, e a partir dos Estados Unidos para outros destinos. A medida ampliará opções de voos e facilitará as conexões e a movimentação de cargas e de passageiros entre os cerca de 400 destinos em mais de 70 países servidos por ambas as empresas. "O acordo de codeshare da Gol com a American está preservado. Ele se encerra no terceiro trimestre de 2014 e as operações com a Delta só vão ter início no terceiro ou quatro trimestre deste ano. A estrutura da Webjet também será preservada. O que vamos fazer é levar os ganhos da parceria para os clientes Webjet", garante Constantino, da Gol.

MAIS UMA FUSÃO?
Analistas não descartam que o acordo atual ainda possa levar a uma fusão entre a Gol e a Delta, criando um dos maiores grupos de aviação do mundo, que seria o único a ter acesso aos mercados dos Estados Unidos e do Brasil. Embora a lei brasileira limite a quantidade máxima de ações preferenciais que podem ser emitidas em 20% do capital social total de uma empresa aérea nacional, o acordo com a Delta foi estruturado de forma a não infringir a lei. Ainda assim, alguns especialistas afirmam que, após a crise da Varig, em 2006, abriu-se um precedente que tornou legal a participação de investidores estrangeiros em empresas aéreas brasileiras.

No caso da Varig, após o leilão, o fundo de investimentos americano Matlin Petterson criou em parceria com empresários brasileiros uma empresa controladora independente. O detalhe é que, embora quase a totalidade do capital da companhia fosse de origem americana, ele foi declarado como oriundo de fundo de investimento. "Teoricamente e de maneira simplificada, basta provar que o dinheiro é de investidor, independente da origem, para tornar legal a operação", afirma o executivo de uma empresa aérea que pediu anonimato. "No caso da Latam, criou-se uma holding que controla duas empresas aéreas de forma independente".

Uma possível fusão entre a Gol e a Delta intensificaria a disputa na região e colocaria colocaria a Gol em posição de destaque no cenário latino, pois seria a única a dispor de uma ampla malha aérea nos Estados Unidos e de diversos voos com destino à Ásia e à Europa. Além disso, embora a operação desobrigue a Gol de aderir a uma aliança global, especula-se que seria natural a escolha pela SkyTeam, aliança a qual pertence a Delta, pois a Star Alliance deverá contar com a Avianca-Taca e a Latam tende a optar pela OneWorld.

SÓLIDA E SOLITÁRIA
A única dúvida em relação às companhias brasileiras recai sobre a Azul, já que Trip e Tam prosseguem negociando uma parceria, por enquanto apenas operacional. Ainda que não descarte a abertura de seu capital no futuro, os interlocutores da empresa afirmam que, no momento, essa opção não está sendo analisada. Eles dizem que a companhia possui um caixa confortável para continuar crescendo sem aporte extra de capital. Também garantem que não pretendem firmar parcerias, nem mesmo adquirir empresas do setor, como foi feito pela Gol com a Webjet. Os executivos disseram que a Azul continuará crescendo sozinha e de forma sólida. Da mesma forma, não existem planos para participar de uma aliança. Tudo isso contraria as tendências globais. Com as constantes mudanças no cenário mundial, a expectativa é que as principais empresas aéreas se unam em grandes grupos internacionais e com forte presença nos mercados regionais.

Divulgação "Estamos criando uma rede para conectar o Brasil ao mundo, e queremos tornar a Delta a melhor companhia aérea americana na América Latina"
Richard Anderson,
da Delta


Aviação Comercial

Artigo publicado nesta revista


Airbus, Nova Rival da Embraer

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